segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O Pianista

Era uma vez um menininho que tocava piano como ninguém. Seus dedos deslizavam nas teclas com a facilidade de um giz de cera deslizando numa folha de papel. Ele cresceu e tornou-se um pianista clássico renomado; todos o conheciam. Estava no auge de sua carreira.
E então ele ficou surdo.
As pessoas comentavam sobre como a vida havia sido cruel com o pianista, em torná-lo surdo. Ele parou de se apresentar por uns tempos. Foi como se tivesse morrido. Ninguém mais ouviu falar dele.
Até que um dia, algumas pessoas em algumas partes do mundo ligaram a televisão e viram o jovem, sorrindo, fazendo o que fazia melhor: tocando piano. Lágrimas escorriam de seu rosto. Ele compôs música. Uma música arrepiante, sonora, emocionante. Arte de verdade.
O pianista voltou a ser famoso. Surdo, ainda tocava como ninguém. Viveu uma vida próspera, com uma carreira de sucesso e muitos fãs.
Quando fez setenta anos, ele colocou uma cóclea.
Um dia, um fã veio perguntar ao pianista como havia sido possível compor sem escutar a própria música.
- Todos deveriam ser surdos por alguns anos. Não ser capaz de escutar nada faz a gente ser capaz de sentir tudo. Eu compus porque música de verdade tem que vir do coração, não precisava dos meus ouvidos.
Aquele foi o pianista mais sábio de todos os tempos.

domingo, 25 de setembro de 2011

Durante a Madrugada

Ele passava o dia inteiro estudando. Queria ser antropólogo - o melhor de todos. À noite, se deitava e dormia tranquilamente.
De repente, em algum ponto da madrugada, ele se levantava, saía de casa e vestia sua armadura. Polia a espada, colocava o elmo e procurava donzelas em perigo para salvar. Lutava contra dragões e outros cavaleiros de cima de seu cavalo puro-sangue dourado. Nunca perdia uma batalha sequer. Reportava-se a reis e rainhas, descobria grandes tesouros, servia de modelo para quadros e esculturas. Estava treinando um exército para invadir Lisboa caso o país não encerrasse as atividades comerciais com a Inglaterra. Algum dia ele seria o maior de todos os cavaleiros do mundo.
Então ele acordava e voltava a estudar. Queria ser antropólogo - o melhor de todos.

sábado, 24 de setembro de 2011

Cataratas do Iguaçu

Nas Cataratas do Iguaçu existem muitas borboletas. Elas vêm e voam em cima de você. É sempre úmido e é impossível andar sem se molhar. A água é muito forte e, para completar o clima de paraíso, um arco-íris indelével enfeita o céu.
Existe uma passarela de madeira por cima da água que permite que as pessoas fiquem mais perto das cataratas. Eu estava andando nela quando vi um casal rindo como se não houvesse amanhã. Eles se abraçavam, como se fosse realmente muito engraçado. De repente, ele ficou sério. Se ajoelhou e disse, bem alto, tirando uma caixinha - de plástico - do bolso:
- Case-se comigo.
Ela gritou que sim. E eles voltaram a se abraçar e rir, agora, depois de dar mais um passo para a frente na relação. Não eram mais namorados, eram noivos. E estavam molhados, juntos, no meio de arco-íris, borboletas e rodeados pelas Cataratas. Realmente, aquilo foi um dos momentos em que desejei que meus olhos tirassem fotos.

O Peixe

Assim que nos mudamos para a casa onde moro hoje, em 2001, compramos um aquário. Ele é enorme. Na época, tinha dezenas de peixes exóticos e meu pai cuidava dele toda semana. Com o tempo, as pessoas pararam de importar os peixes para a nossa cidade e acabamos ficando com um peixe só: um acará-bandeira perolado com listras pretas. Ele já tem seis anos de idade.
Um dia desses, ele estava nadando de cabeça para baixo. Eu pensei que estava morrendo e, nossa, ele sobreviveu. Outro dia, minha mãe foi limpar o aquário e não tinha mais o produto essencial para a vida do acará e de um mato-grosso que tínhamos também. O mato-grosso morreu na hora. O acará ficou no fundo do aquário, deitado, como se estivesse morto. Algumas horas depois, ele levantou e começou a nadar de novo tranquilamente.
O último episódio foi que o peixe ficou cego. Papai disse que ele ia morrer de fome, porque, se não enxergava, não poderia comer.
Aí a gente começou a colocar a comida no aquário normalmente e dar umas batidinhas no vidro. Com o tempo, o peixe aprendeu a subir quando as ouvia e comer. Hoje papai o chama com estalos.
Começamos a chamar o peixe de Joseph Climber.

Inspiração

Um dia um cara me perguntou o que me inspira. Eu não soube responder; pensei e falei que, ah, dependia da situação. Ele contou que escrevia também, que uma professora de filosofia o ensinara, mas que parou porque não se sentia mais inspirado. Agora ele tinha uma namorada e queria escrever para ela quando ela fizesse quinze anos, mas não conseguia. Eu pedi desculpas por não poder ajudar e disse que quando fosse a hora de escrever ele conseguiria. Inspiração não é uma coisa que se precise procurar.
Aí eu cheguei em casa e comecei a ler meus posts pra ver o que me inspirava. E, na verdade, descobri que é tudo. O nascer do sol, as pessoas que eu vejo, animais, situações, sonhos.. Tudo me inspira.
No dia seguinte, eu cheguei pra ele e falei "escreva sobre ela. Os olhos dela. O rosto, o jeito que ela te olha, se você a ama, então ela te inspira."
Inspiração é assim: você está estudando aquela matéria cabeluda e de repente pensa em alguma coisa perfeita pra escrever. Você está dormindo e tem um sonho. Não dá pra prever, ela simplesmente vem. É como um raio que te atinge.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Destino

Namoraram durante alguns anos até que ele teve que ir embora do estado para fazer faculdade. Queria ser piloto. Ela era muito jovem, era bonita, era boa de papo, era difícil. Muito difícil. E por isso, todos a queriam. Eles terminaram e ela teve mais um ou dois, mas eram rolos de noite. Um beijo, dois beijos. Ela ia embora. Sofrera demais por uma vida inteira e tinha medo de sofrer de novo. Ele era charmoso, simpático e sedutor. Teve mais algumas, mas manteve o foco nos estudos.
Ela se mudou para os Estados Unidos para fazer faculdade. Arranjou emprego em um aeroporto. Era da equipe de terra e orientava os passageiros que desembarcavam.
Um dia, ela estava trabalhando. Era só mais um dia. Ajudava uma senhora quando sentiu o inconfundível perfume. Olhou para a frente e o viu, com uma camiseta branca com berimbelas e um quepe. Estava acompanhado da tia e de algumas primas. Ela ofereceu ajuda, olhando nos olhos dele, mas vendo através das pupilas dilatadas.
Trocaram informações e ela pediu a um colega para substitui-la por quinze minutos. Correu até a pista. Era perigoso e proibido, mas ela queria estar lá. Sentia-se segura. Chorou tudo o que guardara ao longo dos anos.
Ele colocou a mão sobre o ombro dela.
- O que foi?
- Nada.
- Não fale como se eu não te conhecesse.
- Não é nada que eu deseje compartilhar.
- Então o problema sou eu?
- Não. É a falta de você!
- Falta?
- É. A lacuna a ser preenchida em mim. Trabalho aqui para me sentir mais próxima de você.
Ele a abraçou, apesar da relutância. E aquele momento jamais caberá em uma postagem de blog. Foi reconfortante, cheiroso, macio, charmoso, saudoso, foi tudo o que um abraço deve ser. Além disso, foi esclarecedor. Mesmo depois de um fim com tantas lágrimas e tanto ressentimento, eles seriam namorados para sempre. Se aquilo não era destino, o que mais seria?

domingo, 18 de setembro de 2011

O Dia Amanhecia

Eu adicionara um novo tópico à minha lista de coisas a fazer antes dos dezoito anos: ver o sol nascer. Na primeira vez que tentei, todas as janelas e portas da casa da minha amiga estavam trancadas e tinham o vidro fosco. Dessa vez, eu estava em casa. Passara a noite acordada inventando o que fazer. Eram 5h 15 quando eu levantei e abri uma janelinha acima da porta principal.
O vento gelado da madrugada assoprou no meu rosto e o cheiro do sereno invadiu minhas narinas. Os passarinhos e o galo cantavam. O céu estava azul-celeste, rosa-algodão-doce, laranja-cenoura e tinha nuances de violeta-tapa. Era, sem brincadeira, irresistível. Senti vontade de sair correndo e gritar. O dia amanhecia diante de mim, para mim. O rosa e o laranja foram clareando e dando lugar a um estonteante azul. O violeta pouco se fez notar. Uma gigante esfera brilhante saía por trás das árvores. Corri até a cozinha para pegar a câmera, mas tinha esquecido de botá-la para carregar - ficaria só com a lembrança dos olhos.
Eu sentia as cores no meu rosto. O dia amanhecia e transbordava felicidade.
A Torre Eiffel é linda. O Cristo Redentor é único. Macchu Picchu é inacreditável. Mas o nascer do Sol é - apesar de tão mais simples - tão puro que não pode ser explicado com palavras.
Eu presenciava uma coisa para poucos. Meus pais, mesmo, estavam perdendo aquilo. E eu estava lá quando a hora mais bonita do dia aconteceu. Depois das 5h, antes das 6h. Eu recomendo. Não tem nenhuma experiência que se pareça com a de assistir de camarote o nascer do Sol e ver o dia amanhecer só para si.

Magia

O aniversário de 15 anos da minha filha foi a coisa mais linda que se pode imaginar. Eu insisti para que ela viajasse, mas ela preferiu fazer uma festa. Convidou catorze amigas e organizou uma valsa. Quis descer das escadas de aço e quis que eu trocasse suas sapatilhas brancas por sapatos de salto prateados. Eu conhecia o procedimento, na teoria, mas nunca tinha tido uma filha que fizesse uma festa de 15 anos como a dela. Como se tivesse outras filhas além dela.
Todas as luzes se apagaram e tudo ficou invisível. Um holofote de luz branca se acendeu e lá estava ela, como uma princesa, sorrindo, parada antes de descer as escadas. Desceu-as devagar, como quem brinca, aproveitando para ser criança. Quando seus pés tocaram o chão, já era uma mulher.
Seu olhar me atingiu. Olhos marcados por muita maquiagem, castanho-avermelhados fortíssimos e transbordando personalidade. Ela se aproximou. Todos esperavam que se sentasse, mas, antes, se inclinou e me deu um beijo no rosto.
Depois dizem que gente grande não sabe mais o que é magia.

O Amor

A vida de Pablo pode ser dividida em dois períodos: A.V. e D.V.; Antes de conhecer Valéria era uma pessoa, e depois de tê-lo feito, era outra. Se não continuasse com o mesmo rosto seria irreconhecível. Foi como se tivesse nascido de novo. Ele era racional, equilibrado, centrado, nunca demonstrou muita emoção. Era rude e difícil de lidar. Mas aí ele a conheceu e amou tanto, mas tanto, que tornou-se um tolo apaixonado e tagarela. Ria por tudo. Isso é uma coisa estranha, mas maravilhosamente nobre, o amor.

sábado, 17 de setembro de 2011

Esperar pelo Futuro

Ela não esperava nada. Nem uma mensagem, nem ligação, nem cartas.. Não depois daquela briga horrível que tivera com ele. Xingou-o e depois passou noites chorando.
Mas naquele dia, recebeu uma mensagem na qual ele dizia que a perdoava. E ele conversou com ela no msn, e fez com que ela conversasse com ele também. Como se nada nunca tivesse acontecido. Como se todas as brigas e lágrimas tivesses sumido e eles se conhecessem a vida inteira, como melhores amigos.
Ela chorou quando se lembrou do perfume dele. Tinha saudade de receber um sms de 'bom dia' todas as manhãs e um telefonema de 'boa noite' antes de dormir. Ela tinha planejado seguir em frente e já estava com meio caminho andado quando ele apareceu e fê-la retroceder.
Ela não queria aquilo que fazia. Ela queria o impossível, queria ele. Queria um abraço e um beijo dele. Mas sabia que um não cabia na vida do outro.
Conversaram pelo telefone e ele sabia exatamente como ela se sentia. Ela desligou rapidamente e refletiu sobre a vida. Ocorreu-lhe que talvez aquele fosse o destino dos dois: conhecer-se, separar-se, seguir em frente e depois encontrar-se de novo. Quando isso acontecesse, não haveria mais obstáculos. Ela seria maior de idade e ele estaria formado na faculdade. Tudo voltaria ao normal. Ela sabia que ele era o que deveria ser e sabia que ele o seria para sempre. Por isso, decidiu esperar pelo futuro.