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domingo, 2 de dezembro de 2012

Sentido

Acordar seria dormir, e dormir seria acordar; não os conceitos trocados, só o significado relativo. Acordar seria entrar em um estado de sonho, onde somos donos das nossas vontades, temos ambições e vemos as coisas irem e virem, e dormir seria a realidade, em que as coisas sempre acontecem de um jeito diferente. Faz sentido, a vida não ter que passar tão rápido. Faz sentido, o céu nem sempre ter que ser azul, e a gente poder morrer mais de uma vez. Faz sentido não fazer sentido nenhum. Uma vez escutei alguém dizer que o sonho é a vida e a vida é o sonho, e, parando para pensar, por que não?

domingo, 17 de junho de 2012

Opções

Deixar a pele queimar, o cabelo ressecar, as cutículas ficarem quase do tamanho das unhas e ter preguiça de fazer depilação, ou fazer as unhas, hidratar o cabelo e esfoliar a pele? Rabo-de-cavalo ou trança? Trança raiz ou trança espinha-de-peixe? Short, saia, calça ou vestido? Macaquinho ou macacão? Tênis ou salto? Pulseira ou relógio? Duas latas de brigadeiro ou um prato de salada? Samba ou valsa? Lente ou óculos? Namorar ou ficar? Malhar ou dormir? Vestido tubinho, baloné ou acinturado? Salto anabela, fino, quadrado ou plataforma? Biquíni ou maiô? Unhas desenhadas, foscas ou lisas? Ah, ser mulher é ter infinitas opções e ficar bem com todas.

domingo, 13 de maio de 2012

Mãe

O que eu sou, há quinze anos, seis meses e sete dias, é da minha mãe, sou dela; tenho sido dela durante todo esse tempo, sempre fui e sempre serei. Minha mãe merece todo o amor desse mundo - nada mais justo, já que essa é a quantidade de amor que ela me dá - e muito mais. Eu a levaria para todos os lugares aonde fosse, todos. Eu a teria sempre do meu lado, sempre numa redoma, imortal, intocável, imune a qualquer tipo de dor e qualquer coisa que não fosse linda, perfumada e colorida. Eu a protegeria de tudo e de todos. Desejo que nada nunca possa machucar, incomodar ou entristecer minha mãe. Desejo que ela realize todos os desejos e seja a pessoa mais feliz desse mundo e que ela se orgulhe de mim como me orgulho dela, meu norte, minha heroína, meu parâmetro. Há quinze anos, seis meses e sete dias, ela tem sido minha mentora; desde o dia em que meu coração bateu pela primeira vez até o dia em que ele bater pela última vez.
E quando eu não tiver mais a companhia dela, não sei como vou viver. Como dormir sem mil beijos de boa noite? Como acordar sem mil beijos de bom dia? Quem eu vou chamar quando alguma coisa der errado? Com quem vou comemorar quando alguma coisa der certo? Pelo que eu viveria se não houvesse a minha mãe pra me dar um abraço quando eu chegasse em casa?
Minha mãe não vai viver pra sempre (pensar nisso me faz chorar, desde sempre), mas eu fui educada de acordo com os princípios dela, sou sangue, sotaque e trejeitos dela, e isso vai ficar pra sempre. Quinze, vinte, cem anos. Minha mãe não vai viver pra sempre, mas ela é eterna.



(Feliz dia das mães às mães, avós e às filhas que um dia serão mães e avós)

sábado, 21 de abril de 2012

Sábados

Quando a chuva bate forte na janela, quando meus pés ficam gelados, quando o travesseiro não me abraça de volta. Quando acordo de manhã, quando chego na escola, quando volto para casa. Quando estou no trânsito. Quando sinto cheiro de tinta fresca. Quando alguém me fala de futuro. Quando passo o dia inteiro me arrumando e experimento um milhão e meio de roupas (previamente escolhidas) antes de sairmos e digo que, ah, tomei um banho rápido e vesti qualquer coisa. Quando ensaio conversas. Qualquer minuto que eu passe sozinha. Quando as flores desabrocham, quando as manhãs são de sol, quando o vento faz os cabelos voarem. Quando quase reclamo da vida. Quando estou na internet e ninguém está cantando para mim. Nos sábados à noite, nos sábados de manhã, nos sábados à tarde, bem como em todos os outros dias, e em todas as outras horas, eu me lembro de você.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Mateusinho

Há alguns dias, na academia, encontrei uma velha amiga dos meus pais, que conheço desde que... Desde que me conheço por gente. Ela tem três filhos, uma menina e dois meninos, dos quais me lembro perfeitamente, há dez, treze anos atrás, correndo no meio do mato que a cidade era. Infelizmente, eu e essa família perdemos o contato, já faz algum tempo, até que (não tão) coincidentemente, o caçula, Mateus, foi meu colega de sala, em 2008. Ele fazia natação, eu me lembro, e, durante esse ano, fomos bons amigos.
Ele foi morar em Natal, em 2009. Fiquei sabendo que, agora, mora no Rio de Janeiro, em uma república, porque foi contratado para nadar profissionalmente pelo Botafogo. Não nos falamos mais, então achei que ficaria meio estranho dar os parabéns do nada, mas estou muito, muito feliz por ele. Mateusinho sempre foi um ótimo nadador, ótima pessoa, ótimo amigo. Ele merece isso tudo e muito mais. E esse "muito mais", sei que vai conseguir.

sábado, 3 de março de 2012

Catedral

São 3956 metros quadrados, construídos pelos incas em 1560, em ouro, prata e bronze. As cadeiras do Coral que canta em quíchua, dialeto peruano, vieram da França, feitas em mármore e veludo. A maior parte do material para esculpir e pintar os magníficos quadros tridimensionais veio da Europa. Os padres mais importantes têm seus ossos guardados em uma câmara no interior da Catedral de Cusco, a igreja mais bonita a que já fui. Precisei me levantar antes das cinco da manhã e aguentar o vento frio, mas não houve nenhum lugar que sobrasse. Até cachorros e galinhas (!) compareceram à missa naquela manhã na capital peruana. Eu não entendi uma palavra do que foi dito, mas era simplesmente arrepiante. Fotos não são permitidas, então tenho apenas a lembrança.
Mas há uma coisa, em especial, que chama a atenção de todos. Uma pessoa, na verdade. Uma santa, em um quadro. Ela é rodeada por ouro e seus olhos acompanham movimento. Eles são tridimensionais. Nunca vou conseguir descrever a experiência de andar ao redor dela, olhando em seus olhos, e ter meu olhar sustentado. Não fui para rezar, sabe? Fui para sentir. Não precisei acreditar nem desacreditar em nenhum tipo de divindade, nem nada, mas acho que deixei parte de mim naquela igreja. Tomara que algum dia possa voltar lá para fazer tudo de novo.

Foi aqui, sentada nesses bancos.

(Essa é ela, e, sim, isso é ouro puro, entalhado à mão.)


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Miados





Estou sozinha em casa e já são quase 22h. Quer dizer, estaria sozinha, se não fosse pelo felino que todos sabem que me acompanha desde 2002, Van Gogh, e esse post é sobre isso: ele esteve aqui do meu lado o tempo todo desde a hora em que meus pais saíram, às 18h.
Não só desde as 18h, ele esteve do meu lado todos os dias desde 2002. Todas as manhãs, nós nos sentamos na varanda para tomar café da manhã. Às vezes, dormimos juntos, à tarde, e, quando dou banho nele, bem.. Ele faz o mesmo comigo.
As pessoas têm essa ideia de que gatos roubam comida e são sujos e agressivos com as pessoas, e muitos dos meus amigos tinham aversão a gatos, até conhecer o meu. Quem não gosta de gatos, certamente nunca teve um, é o que sempre digo. E ter um gato não quer dizer saber que um gato de rua revira seu lixo todas as noites, e sim ter um em casa, como o seu animal de estimação.
Ficamos no quarto a tarde toda. Eu estudei enquanto ele dormia do meu lado, e, quando levantei para lavar a louça, ele estava sentado perto de mim. Não acho, então, que o melhor amigo do homem seja necessariamente o cachorro. Pode ser um gato, passarinho, camaleão, qualquer animal com o qual o homem consiga interagir. Só queria deixar aqui, eternizado, o quanto sou grata pelo meu melhor amigo felino e pelos seus miados estridentes de bom dia.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Morte

Estava sentada em um dos cantos do banheiro minúsculo e sujo de um hotel ruim em uma cidade que não aparecia no mapa e cujo único hospital encontrava-se fechado, desidratada e desorientada. Minha mãe estava na minha frente, chorando e me pedindo para continuar acordada. Pedi desculpas.
Fechei os olhos. Ainda a ouvi gritar meu nome, mas não consegui voltar. Estava indo embora. Houve luzes, som. E eu não sentia mais nada, não tinha mais dor e nem desconforto, estava curada de todos os males mundanos. Alguém cantava uma música de um filme que eu gostava muito e eu fazia parte da cena. Sentei-me em uma mesa com meus amigos da escola, meu namorado e meus atores preferidos e conversamos como se não nos víssemos há muito tempo. Era uma ótima sensação.
Acordei em cima de uma cama com meu pai tentando me fazer voltar a respirar e minha mãe em prantos.
Eu acabara de voltar da morte.


História real.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Preocupações em Relação ao Futuro

Acho que, ao chegarmos em certo ponto da vida, temos a tal da Síndrome de Peter Pan. Não querer crescer.
Eu, particularmente, tive isso no começo desse ano, de olhar pra mim mesma e dizer "caramba, eu cresci rápido demais!"; as brincadeiras de Barbie com as amigas deram lugar a tardes em que nem eu mesma sei o que faço acompanhada delas. Aliás, sei, sim: comer brigadeiro, tirar fotos, fofocar, ir à piscina, comer mais brigadeiro, fofocar mais. Achei que quando crescesse, eu seria muito mais cheia de ocupações e tal, mas virei uma adolescente displicente e desocupada. E aí eu queria que as aulas voltassem logo pra ver meus amigos e não pra estudar. A animação que eu tinha de comprar material escolar acabou, não passo mais horas batendo boca com a minha mãe pra levar os cadernos do He-Man. Isso deu lugar a uma pessoa que entra em qualquer loja e compra coisas básicas e sóbrias para não enjoar dos desenhos da capa do caderno, do design da borracha ou da cor da lapiseira.
Acho que, ao chegarmos em certo ponto da vida, nos tornamos indecisão e receio. Em relação à escolha de profissão, a querer tomar as rédeas da própria vida, a ter vontade de se livrar dos pais e conquistar independência, mas não querer nunca ir pra longe deles. Me tornei susto ao ver que meu ensino médio praticamente acabou e que, daqui a dois anos (que passarão em um piscar de olhos), eu estarei ingressando na vida adulta. E o que tem guardado pra mim lá na frente?
Eu sempre quis ir fazer o terceiro ano em uma daquelas escolas super-conceituadas de São Paulo, mas, querendo ou não, criei raízes aqui. Roraima nunca vai me trazer tudo o que quero, mas já trouxe metade disso. Ou não. Acabei de encontrar um nó na minha linha de pensamento, e estou divagando, porque não vou conseguir restabelecer ela. Eu estava ficando maluca pensando nisso, até que percebi que não há basicamente nada que eu possa fazer, então lavo minhas mãos em relação ao meu futuro. O que for pra ser, será, e eu estou de olhos fechados e torcendo para que a minha vontade coincida com o que estão guardando para mim.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Um Vôo Para Chamar de Meu

Por algum tempo, houve o barulho do vento forte nas minhas orelhas e a adrenalina de estar em queda livre a onze mil pés de altitude. Não houve medo, eu já havia feito isso uma vez. Houve apenas a êxtase. É a melhor sensação que eu já conheci - aliás, passaria o resto da vida em queda livre, tranquilamente.
E houve a melhor parte do trajeto avião - solo: a parte em que a queda livre acaba e você, bruscamente, para de cair e se encontra seguro pelo pára-quedas. Só aí você percebe o quanto a adrenalina foi grande e gargalha incontrolavelmente. E rodopia no ar. A paz é enorme, incomparavelmente enorme. E todo o resto do mundo que você conhece está longe, porque você está no céu, e nada pode te atingir.
Eu não fazia idéia da distância do chão a que nós estávamos, mas não conseguia ver nem os carros passando nas ruas. Via o lago, que, do alto, era verde-esmeralda, e a enorme fazenda, que parecia um cenário de filme. Aos poucos, comecei a ver os pontinhos se movimentando: pessoas e carros. Vi a grama, o vento esquentou, recebi um sinal para levantar as pernas, outro para pisar no chão, e o vôo acabou. Tudo isso em 5 minutos.
Acho que todo ser humano já quis voar. Acho, também, que o maior erro de design dos humanos é não ter asas. E outra coisa que acho é que voar é muito bom. Aliás, afirmo: voar é maravilhoso.