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domingo, 16 de setembro de 2012

Mãe dos Ventos, Serra do Caju

Lá estava, um dia, Deus, bolado na madruga tarde, deitado em uma rede, em algum lugar do universo que os humanos não conseguem imaginar. Ele tinha frio. Estava cansado do frio. Já tinha criado muitos países frios no mundo, e não gostava do branco da neve. Ele queria cores.
Então, um papel voou até sua rede. Era uma receita de bolo. Seus olhos bateram nas últimas linhas: "assar no forno a 280º durante 40 minutos" e "servir quente". Deus teve uma ideia.

Ingredientes:

Trigo do Oriente Médio
Água quente
Iguanas da América Central
Tamanduás do Belize
Ouro da Suméria
Diamantes a gosto
Arroz da Ásia
Buriti a gosto
10 litros de magma recém-colhido
Vento

Modo de preparo

Massa

Bata a água e o trigo no liquidificador até formar uma massa homogênea. Despeje no local desejado da Terra de Vera Cruz e espalhe uniformemente (cuidado para não formar Pelotas). Acrescente iguanas, arroz, buriti e tamanduás aos poucos. Asse ao forno a 280º durante 30 anos.

Cobertura

Bata o ouro com os diamantes e misture com magma. Acrescente poderes divinos para que o magma e a temperatura do forno se mantenham aquecidos eternamente.

Foi uma receita bem-sucedida. Os campos ficaram dourados, o sol parecia ser mais quente e o vento era incessante. O sol era escaldante, e o céu, sempre azul. As iguanas e cajueiros reinaram nas terras durante muitos anos e o povo que foi colocado naquele local vivia de arroz e buriti. O título da receita, ele adicionou depois de viver tudo isso:

Roraima

Dizem que, se você olhar com calma para o céu, pode ver a rede de Deus balançando enquanto ele se bronzeia.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Dia da Avó

Minha bisavó paterna me contava histórias da viagem de carro do Rio Grande do Sul pra Roraima, nos anos 70, e eu acho que seria capaz de narrar com perfeição esses dezessete dias que nem vivi, se alguém me perguntasse. Ela me servia montanhas de comida no prato e sempre me dava muito chocolate. Ela me alfabetizou e dividimos a paixão por palavras cruzadas.
Minha avó materna é a pessoa que mais me ajuda. Sem ela, haveria situações que eu realmente nunca conseguiria contornar. Ela é bióloga (casa de ferreiro, espeto de pau) e toca piano. Parece rígida, mas, na verdade, é uma manteiga derretida. Nenhuma de nós duas tem senso de direção e, quase sempre, quando saímos juntas, acabamos perdidas.
Minha bisavó materna faleceu quando eu tinha dois anos de idade e a avó paterna faleceu antes que eu a conhecesse, mas tenho certeza que se tivesse convivido com elas veria muitas coisas em comum. Assim como relatei nos parágrafos anteriores.
Bem, tem problemas que os pais não resolvem e situações em que os pais não bastam. É pra isso que servem as avós, aqueles colinhos infinito e cheios de experiência com os quais a gente sempre pode contar.
(Tenho certeza que minha vó não vai ver isso, porque ela só usa o computador pra jogar paciência e fazer pesquisa, mas o que vale é a intenção. Feliz dia da avó!)

domingo, 13 de maio de 2012

Mãe

O que eu sou, há quinze anos, seis meses e sete dias, é da minha mãe, sou dela; tenho sido dela durante todo esse tempo, sempre fui e sempre serei. Minha mãe merece todo o amor desse mundo - nada mais justo, já que essa é a quantidade de amor que ela me dá - e muito mais. Eu a levaria para todos os lugares aonde fosse, todos. Eu a teria sempre do meu lado, sempre numa redoma, imortal, intocável, imune a qualquer tipo de dor e qualquer coisa que não fosse linda, perfumada e colorida. Eu a protegeria de tudo e de todos. Desejo que nada nunca possa machucar, incomodar ou entristecer minha mãe. Desejo que ela realize todos os desejos e seja a pessoa mais feliz desse mundo e que ela se orgulhe de mim como me orgulho dela, meu norte, minha heroína, meu parâmetro. Há quinze anos, seis meses e sete dias, ela tem sido minha mentora; desde o dia em que meu coração bateu pela primeira vez até o dia em que ele bater pela última vez.
E quando eu não tiver mais a companhia dela, não sei como vou viver. Como dormir sem mil beijos de boa noite? Como acordar sem mil beijos de bom dia? Quem eu vou chamar quando alguma coisa der errado? Com quem vou comemorar quando alguma coisa der certo? Pelo que eu viveria se não houvesse a minha mãe pra me dar um abraço quando eu chegasse em casa?
Minha mãe não vai viver pra sempre (pensar nisso me faz chorar, desde sempre), mas eu fui educada de acordo com os princípios dela, sou sangue, sotaque e trejeitos dela, e isso vai ficar pra sempre. Quinze, vinte, cem anos. Minha mãe não vai viver pra sempre, mas ela é eterna.



(Feliz dia das mães às mães, avós e às filhas que um dia serão mães e avós)

segunda-feira, 26 de março de 2012

Mateusinho

Há alguns dias, na academia, encontrei uma velha amiga dos meus pais, que conheço desde que... Desde que me conheço por gente. Ela tem três filhos, uma menina e dois meninos, dos quais me lembro perfeitamente, há dez, treze anos atrás, correndo no meio do mato que a cidade era. Infelizmente, eu e essa família perdemos o contato, já faz algum tempo, até que (não tão) coincidentemente, o caçula, Mateus, foi meu colega de sala, em 2008. Ele fazia natação, eu me lembro, e, durante esse ano, fomos bons amigos.
Ele foi morar em Natal, em 2009. Fiquei sabendo que, agora, mora no Rio de Janeiro, em uma república, porque foi contratado para nadar profissionalmente pelo Botafogo. Não nos falamos mais, então achei que ficaria meio estranho dar os parabéns do nada, mas estou muito, muito feliz por ele. Mateusinho sempre foi um ótimo nadador, ótima pessoa, ótimo amigo. Ele merece isso tudo e muito mais. E esse "muito mais", sei que vai conseguir.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Imutável

Morava sozinha na Alemanha. Longe dos pais, irmãos, primos, amigos. Longe da feijoada dos sábados e do churrasco dos domingos. Longe das peladas com os meninos da vizinhança durante as férias. Longe das gírias idiotas e dos cajueiros. Falava outra língua, tinha outros amigos, trabalhava para garantir a faculdade. Estudava para garantir que algum dia voltaria ao Brasil e depositaria na conta bancária dos pais todo o dinheiro que eles investiram na mudança de continente da filha. Sentia falta do céu azul e das pessoas de bermudas Mormaii e Havaianas. Mas a gente sempre arranja paliativos pra saudade.. Toda sexta-feira, ela fazia uma pequena xícara de café Pilão, que trazia, em grande quantidade, cada vez que ia para casa, e se acomodava na cama para assistir no YouTube um samba, um episódio do Jô ou umas vídeo-cacetadas. Aquele era o prazer garantido, fixo, confortável. Imutável. Café quente, lençol limpo, vida renovada.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Ensaio Sobre Ele

Quando se trabalha em uma biblioteca, aprende-se a cochichar tudo. Em meus primeiros meses de trabalho, imaginei que aos longos dos anos ia-se perdendo a voz aos poucos e ao aposentar-nos, a voz teria sumido completamente.
Eu estava guardando livros quando dona Gertrudes cochichou para mim: "mas olha que moço guapo que acabou de entrar". Veja bem, o gosto de dona Gertrudes por homens é duvidoso e varia com a lua, por isso nem me dei o trabalho de olhar. Terminei meu serviço e voltei para o balcão. O tal moço ainda andava por lá escolhendo livros. Dona Gertrudes tinha razão.
O moço guapo era alto, uma tez morena, cabelos negros, uma tatuagem no braço direito escondida pela camisa xadrez, tinha barba por fazer e olheiras que pareciam velhas amigas dele. Olhei no livro de registro tentando adivinhar qual era o seu nome. Melhor deixar pra lá. O moço guapo não era pra mim.
Aquela talvez tenha sido a tarde em que mais guardei livros. Devo ter posto em dia o serviço atrasado de 4 meses.
Ocupo-me ao máximo para não fixar minha atenção em desconhecidos que me fascinam. Foi assim que só lembrei do moço guapo quando cheguei em casa.
Os dias correram normalmente e algumas vezes o moço guapo aparecia por lá. Ele tinha um gosto variado na leitura. Havia o tempo intenso de Edgar A. Poe, ou Balzac, ou Octaviano Paz, Chico Buarque, Frederico Garcia Lorca e tantos outros que eu invejava seu tempo livre pra ler todos aqueles livros.
Algumas vezes o prefeito usava o auditório ao lado para coquetéis e erámos sempre convidadas. A primeira pessoa que eu cumprimentava era o garçom. Um bom camarada. E para minha surpresa, o garçom dessa vez era o moço guapo. Não o reconheci, então comecei minha conversa de praxe:
- Oi, amigo. Vai uma ajuda aí?
Ele sorriu e disse:
- Além de bibliotecária, fazes bico de garçonete?
Quase solto o codinome que eu e Gertrudes usavamos pra falar dele na hora do almoço. Pensei em mil planos de fuga, tive plena certeza que estava parecendo um pimentão vermelho e minhas mãos começaram a suar. Quando dei por mim ele estava estentendo um avental pra mim.
Se existir uma Sociedade das Garçonetes Unidas, com certeza elas irão odiar até a minha vigésima geração. Devo ter sido a pior garçonete de todos os tempos.
Mas nada disso importa, porque, no fim da noite, ele me deu uma flor - um cravo - e um beijo na testa, e aquilo valeu por tudo. O moço guapo tinha um perfume que o deixava simplesmente irresistível.
Ele continuou voltando, de tempos em tempos, e os dias continuaram correndo, mas, dessa vez, muito mais devagar. Eu passei a me arrumar como uma dondoca, na intenção de que ele me notasse.
E, como quem espera, sempre alcança, ele encostou no balcão para levar um Octaviano Paz para casa, e disse que eu estava muito bonita. Essas palavras foram seguidas de um silêncio incômodo, em que ele aproveitou para me notar mais um pouco. E eu corei. Ele sorriu e foi embora.
O tempo passava, assim, ele me notava de vez em quando, levava uns livros, trazia outros, doava alguns. Tudo em relação a ele era meio abstrato - menos seus músculos.
Um dia, em vez dos escritores que costumava levar, veio dizer que ia levar um Caio Fernando Abreu. E que, a propósito, eu estava especialmente linda. Estonteante. Corei instantaneamente. Anotei o livro e ele foi embora. Naquele mesmo dia, eu resolvi chegar mais tarde em casa e passar numa cafeteria, antes, para tomar um expresso.
Reclusa, com um livro na mão, eu me esquecia do resto do mundo. E nada mais existia. Como diria Clarice Lispector, eu não era mais uma menina com um livro, e sim, uma mulher com seu amante. Nem percebi quando a cadeira branca ao meu lado foi puxada e o moço guapo se sentou. Ao meu lado. E, de novo, eu estava parecendo um pimentão vermelho e minhas mãos suavam, enquanto eu procurava, na minha mente, desculpas para levantar e ir embora.
- Não precisa ficar com vergonha, eu só quero compartilhar o momento do café.
Eu sorri e a conversa fluiu por causa da segurança que ele me passou. Olhava nos meus olhos. E, no final, fui proibida de pagar a conta. E ele pediu para me levar em casa. Andamos juntos, e, quando parei e disse "é aqui", ele ficou perplexo.
- Você mora aqui?
- Moro.. Por que?
- É que.. Eu moro aqui também!
- Ótimo, subimos juntos - A essa altura, eu estava completamente relaxada e sem medo de arriscar umas indiretas - A propósito, como é o seu nome?
E, antes de me beijar, ele parafraseou Caio Fernando:
- Meu nome é Lucas Lourenço. Moro no segundo andar, mas nunca encontrei você na escada..

Essa é uma crônica compartilhada com a Ágda Santos. Ela escreve até a parte que tem o símbolo e o final é meu.



terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Homenagem aos Marinheiros





Por favor, cliquem no player acima para escutar a canção Cisne Branco (o hino dos Marinheiros do Brasil) e aguardem alguns segundos para ler o texto enquanto a escutam. Obrigada!

Passamos meses e meses no mar, sem contato com mais ninguém além da tripulação, e aprendemos a amar todo mundo, desde o piloto até o ajudante de copa. Aprendemos a acreditar em deuses e a fazer orações antes de dormir. Aprendemos a saber que horas são só de olhar para o céu e a fazer previsões do tempo de acordo com as ondas do mar.
Aprendemos história, porque quem não sabe de onde veio não sabe pra onde vai. Somos patriotas por natureza, porque trazemos de criação a missão de defender o mar territorial do Brasil.
Olhar para o mar e ver as fragatas que nos pertencem, pegar os livros escolares de nossos filhos e ver fotos de Dom Pedro II com seu uniforme de almirante. Reconhecer de longe qualquer um de nossos 59600 militares. Ouvir Cisne Branco e sentir aquele orgulho sem tamanho. Sentir-se altivo. Saber que nosso lugar nunca será a areia da praia ou a calçada quente, nem um escritório fechado e nem as copas das árvores, nem nenhum outro, senão o oceano.



Homenagem ao dia do Marinheiro.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Ponto de Vista de um Galeroso

Todo mundo faz parte de algum grupinho na escola. O meu, as pessoas gostam de chamar de "galera". Eles dizem que a gente é violento e propenso a se tornar marginal quando crescer. Tem gente ali que acha que eu sou um animal. E as pessoas colocam nos jornais e na televisão as coisas horríveis que galerosos, como nós, fazemos, e acham que estamos errados, que a vida não precisa ser daquele jeito e que não é porque moramos na periferia da cidade que podemos quebrar a escola, andar com terçado dentro da meia e forçar as meninas a ficarem com a gente. Agora, eu acho que tenho direito de expor meu ponto de vista, porque não parece, mas também sou gente.
Alguém aí já viu galera no Paraviana? No River Park? Não tem, né? Tem, no máximo, aqueles adolescentes que saem de mountain bike por aí pra roubar as pessoas, armados com faca de cozinha da Tramontina. Isso acontece porque nesses bairros, pelo menos 90% das crianças tem um iPad em casa, e pelo menos 70% dos pais dessas crianças ganham mais de 5 mil reais por mês. Esse dinheiro dava pra comprar comida pro pessoal do meu bairro inteiro, por bastante tempo. Minha mãe nem sabe o que é um iPad.
Esses dias, o pessoal da minha escola chamou a polícia pra impedir eu e meu grupo de quebrar os vidros e dar umas facadas numas professoras que iam reprovar a gente. Tem exagero maior? Querer que eu estude e passe de ano, como se já não fosse o suficiente eu ter que ir pra escola porque, segundo a lei, lugar de criança é na escola. Querer que eu estude e dê o melhor de mim sendo que o pessoal do Paraviana só enfia a mão no bolso, tira alguns milhares de reais e já tá na faculdade com um 10 garantido na monografia. Querer que eu queira dar o melhor de mim? Gente que nunca chegou ao ensino médio, como o Lula, tem os mais altos cargos do país, mora nos melhores bairros, come a melhor comida e tem tudo o que é mais caro que a vida tem a oferecer, além do apoio do governo, e, minha mãe, por exemplo, passou a vida dando duro em escola pública, tá aí, limpando a bunda dos filhos dos riquinhos. Ela teve que abrir mão da faculdade porque não ia dar tempo de sustentar a família e estudar.
Tem gente por aí que ganha milhões de reais pra sorrir pra uma câmera e mostrar as pernas durante 30 segundos, e minha mãe ganha um salário mínimo por mês. Essas pessoas fazem pilates, têm personal trainer, moram em prédios chiques e jantam sushi, andam de helicóptero e passam os fins de semana no spa. E eu duvido que elas tenham faculdade. O que elas têm é dinheiro. Dinheiro não compra felicidade, mas compra uma boa parte dela. Felicidade não é só amor - isso é o que o dinheiro não compra -, é saúde, bons médicos, comida garantida na mesa, boas escolas e sete reais pra ir ao cinema de vez em quando. Cinco mil reais por mês dá pra ir ao cinema 667 vezes.
E aí, quando a polícia foi lá impedir a gente de quebrar a escola, quem era que estava praticando justiça? A gente ou a polícia?

Amor de uma noite

Sabe quando tem um cara e você sempre teve uma queda inexplicável por ele? Pois é, eu tinha uma dessas pelo Iago. Não era inexplicável, na verdade; a explicação era bem simples: ele era lindo, educado, inteligente, me entendia e fazia o tipo safadinho e pegador que toda menina acha sexy.
Naquela noite de novembro, eu estava em uma festa de aniversário, e, como sempre, estávamos trocando mensagens. De repente, ele me chamou pra dar uma volta de carro. Eu e o Iago sozinhos em um carro. Claro e óbvio que não seria só uma volta. Aceitei imediatamente.
E quando a porta do carro se abriu, minha noite começou de verdade. Ele me olhava bem fundo nos olhos, nunca vou esquecer. Tinha um olhar confiante e sabia exatamente o que estava fazendo. Me envolveu com muita facilidade. Naquele momento, eu senti amor. Eu o amei profundamente, e me senti amada de volta. As mãos dele percorriam suavemente o meu corpo. O tempo passou rápido demais, e poucos minutos depois, eu estava de volta à festa. Claro que a primeira coisa que eu fiz quando saí do carro, totalmente balançada e trêmula, foi contar pra algumas amigas.
E dormi com o cheiro dele no corpo.
Todo o tempo que passou depois disso foi infinito. Todas as noites, trocando mensagens com ele, eu esperava por aquela que seria um convite a entrar no carro dele de novo. Todas as noites, eu revivia aquele amor que durou apenas uma noite.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Felipe

Eu nunca tinha conhecido ninguém tão pegador quanto aquele cara, o Felipe. Toda vez que a gente se falava, ele tava com uma namorada diferente. Uma pra cada fim-de-semana, uma pra cada festa que ele ia, uma pra cada signo do zodíaco, uma pra cada ano da sua vida, e, logo, logo, uma pra cada letra do alfabeto. Da Ana Luísa à Zaíne. E ele só tinha 21 anos. Eu nunca o havia visto verdadeiramente apaixonado. Eram casos, e mais casos, e mais casos, e eu me perguntava como era possível que uma pessoa pudesse não se cansar dessa vida tão errante. Mas, enfim, por obra do destino, ou sei lá, um dia ele encontrou uma garota que não se permitiu ser jogada na parede instantaneamente. Numa festa (risos irônicos). Deve ter sido a primeira vez que ele sentiu o chão tremer e as estrelas brilharem, finalmente. Sabe o que é ainda mais irônico? O nome dela começa com a primeira letra do alfabeto.



Dedicado ao meu heartbrother, Felipe Cruz, e à namorada dele, Amanda Dantas.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Belos e Malditos



Por favor, cliquem no player acima para escutar a canção Belos e Malditos e aguardem alguns segundos para ler o texto enquanto a escutam. Obrigada!

Eram lindos, como anjos. Tinham feições diferentes de todas as outras, eram elegantes, perfumados. Todos os aspectos daqueles quatro homens que, durante o dia, trabalhavam em escritórios e usavam ternos e sorrisos amigáveis, atraíam as pessoas. As mulheres bradavam-nos belos, e os homens, malditos.
Quando a noite chegava - não a noite que vinha logo depois do entardecer, e sim a que vinha antes da madrugada - eles sentavam-se nas cadeiras do bar Vinho Tinto e tomavam bebidas azuis. As mulheres logo se aproximavam, e eles sorriam, estendiam os braços, e as conquistavam; sumiam sempre antes do amanhecer. Eles eram acostumados a ouvir palavras de amor, sentir carinhos e receber olhares apaixonados - sabiam fazer isso sem sentir nada além do prazer de iludi-las.
De jeito nenhum, aparentavam ser tão multifacetados. Distribuíam toques suaves, beijos doces e olhares angelicais. Ao entrarem no bar, sem os ternos e as gravatas e com as camisas sociais cuidadosamente desarrumadas, ouviam as pessoas sussurrarem, os homens bufarem e as mulheres suspirarem. Eram anjos demoníacos, o lado escuro do paraíso, belos e malditos.

Inspirado na música homônima da banda Capital Inicial.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Entre Augusto e Carolina

Augusto: Pois acredita que em amor possa haver felicidade?
Carolina: Às vezes.
Augusto: Acaso, já tem a senhora amado?
Carolina: Eu?!... e o senhor?!
Augusto: Comecei a amar há poucos dias.
A virgem guardou silêncio e o mancebo, depois de alguns instantes, perguntou
tremendo:
Augusto: E a senhora já amou também?
Novo silêncio; ela pareceu não ouvir, mas suspirou. Ele falou menos baixo:
Augusto: Já ama também?...
Ela abaixou ainda mais os olhos e com voz quase extinta disse:
Carolina: Não sei... talvez...
Augusto: E a quem?
Carolina: Eu não perguntei a quem o senhor amava.
Augusto: Quer que lhe diga?...
Carolina: Eu não pergunto.
Augusto: Posso eu fazê-lo?
Carolina: Não... Não lho impeço.
Augusto: É a senhora.
D. Carolina fez-se cor-de-rosa e só depois de alguns instantes pôde perguntar,
forcejando um sorriso:
Carolina: Por quantos dias?
Augusto: Oh! para sempre!... respondeu Augusto, apertando-lhe vivamente o braço.
Depois ainda continuou:
Augusto: E a senhora não me revela o nome feliz?...
Carolina: Eu não... não posso...
Augusto: Mas por que não pode?
Carolina: Porque não devo.
Augusto: E nunca o dirá?!
Carolina: Talvez um dia.
Augusto: E quando?...
Carolina: Quando estiver certa que ele não me ilude.
Augusto: Então... ele é volúvel?...
Carolina: Ostenta sê-lo...
Augusto: Oh!... pelo céu!... acabe de matar-me!... basta o nome pronunciado bem em segredo, bem no meu ouvido, para que ninguém o possa ouvir, nem a brisa o leve... Pelo céu!...
Carolina: Senhor!...
Augusto: Um só nome que peço!...
Carolina: É impossível... eu não posso!...
Augusto: Se eu perguntasse?...
Carolina: Oh!... não!...
Augusto: Serei eu?...
A vigem tremeu toda e não pôde responder. Augusto lhe perguntou ainda, com fogo e ternura:
Augusto: Serei eu?...
A interessante Moreninha quis falar... Não pôde, mas, sem o pensar, levou o braço do mancebo até ao peito e lhe fez sentir como o seu coração palpitava.
Augusto: Serei eu?... perguntou uma terceira vez Augusto, com requintada ternura. A jovenzinha murmurou uma palavra que pareceu mais um gemido que uma resposta, porém que fez transbordar a glória e entusiasmo na alma do seu amante. Ela tinha dito somente:
Carolina: Talvez.

A Moreninha, Capítulo XXI (Segundo Domingo: Brincando com Bonecas, Parte I) - Joaquim Manoel de Macedo

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Retrospectiva

BEM VINDOS À CENTÉSIMA POSTAGEM DO BLOG!

Estou morta de orgulho. Prometi que, quando chegasse a 100 postagens, ia fazer uma retrospectiva das outras 99 e tal, e aqui estou eu.
O blog começou porque eu tenho, e sempre tive, mania de blog. Até um dia desses, tinha 5 blogs. Estava na casa da Virgínia - toda vez que ia lá criava um novo - e resolvi criar o Bianca Quintella. Mas um blog com meu nome ficaria sem graça, então, me espelhei no nome do dela, I'll Keep it With Mine, e batizei de I'll Share it With You.
Com um blog criado e batizado, só faltava uma postagem pra chamar de minha. A Virgínia tava lendo o Ñ Intendo, e abrimos o joguinho da semana, NerveJangla. Acabamos nos viciando, eu não queria esquecer o link nem o nome do jogo, e criei a postagem chamada Game!. Como vocês podem ver, o nível de conteúdo dela é um pouco baixo. As postagens eram um tanto escassas, assim como minha inspiração, até que, em meados desse ano, eu conheci meu heartbrother, Felipe Cruz, e seus contos. Ele me inspirou a reativar meu blog. Obrigada, irmão!
Nunca imaginaria ter mais de 30 visualizações em um dia só - muito menos, em mais de uma postagem por semana. Setecentas visitas em um mês? Nossa, nem nos meus mais profundos sonhos. E não quero dar uma de famosa, mas obrigada a quem lê. Graças a vocês, eu fico toda emocionada quando abro a página de estatísticas e vejo meu gráfico todo cheio de curvas. Ainda tenho muito a crescer e a postar, mas adoro quando a inspiração vem e eu tenho algum lugar pra escrever que não seja uma folha de papel. Adoro partilhar idéias e opiniões sem me preocupar se alguém vai prestar atenção e depois ver que todo mundo prestou. Um acerto em cheio na minha vida é esse blog. Prometo continuar tornando públicas as minhas palavras.

sábado, 8 de outubro de 2011

Único

Eram olhos negros profundos e enigmáticos que eu vivia tentando decifrar. Eles estavam sempre tão perto de mim! Às vezes fechados, às vezes abertos, às vezes revirados ou me analisando - mas nunca falhavam em me deixar imaginando o que enxergavam. Olhos únicos.
Era um rosto que eu reconheceria a vários quilômetros de distância. Bastava aquele rosto se virar para mim e eu ficava sem ação, encabulada e sorridente. Tentava disfarçar, mas acho que ele percebia. Era um rosto que tinha pele pálida e lábios bem delineados que faziam meu coração bater mais forte. Era um rosto de alguém que eu considerava único.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Steve está morto

Estávamos todos trabalhando, orgulhosos, em novos projetos. A sede da Apple não parava nunca, estava em constante renovação. Nunca havia parado, na verdade, até a hora em que Tim, o novo CEO havia um mês, escolhido a dedo pelo próprio Steve Jobs, entrou, pálido, na nossa sala.
- Steve está morto.
Foi a primeira vez que a Apple inteira parou. Todos estavam incrédulos. A gente nunca imagina que pessoas tão lendárias possam morrer, e, por isso, nunca estamos preparados quando acontece. Involuntariamente, mesmo sem conhecê-lo, eu chorei. Era, e continuo sendo, uma grande fã de Steve.
Lembro-me de, na adolescência, ter brincado de Adedonha com meus amigos da escola, e, quando escrevi Jobs em um dos quadrados, ter colocado entre parênteses o nome Steve. Todos riram. Mas o que mais me tocou foi ter chegado em casa e visto a homenagem a ele na página inicial do Google, no Facebook, muitos trending topics sobre ele no Twitter e vários subnicks no msn dedicados a ele. A sensação que eu tive foi que, embora Jobs não estivesse mais entre nós, ele estava ali, de algum jeito. Aí me toquei que estava com a mão no mouse - graças a ele. Tirei do bolso meu IPhone e digitei "RIP Steve Jobs. Você deixou marcas nas nossas mesas, ouvidos e mãos."

Mesmo assim, lá estava ele

Lembro-me do dia em que descobri que Steve Jobs existia como se fosse ontem. Lembro-me da primeira vez que vi um IPod e que não sabia como era possível que alguma coisa funcionasse sem teclas. Hoje teria sido um dia qualquer, se, do restaurante japonês onde eu estava, não tivesse acessado o Twitter - usando meu celular sem teclas - que ele estava morto. Acho que se tinha alguém no restaurante que não sabia, ficou sabendo, porque não consegui controlar minha reação:
- NÃO ACREDITO QUE O STEVE JOBS MORREU!
Preciso falar sobre ele porque, bem, todos estão falando. Mas mais do que isso, ele mudou o mundo. E mais ainda, ele integrou mouses aos computadores. Não me vejo usando um computador só com teclado. Enfim, vamos lá. A vida do Steve não foi fácil e todo mundo sabe. Mas, mesmo assim, lá estava ele. Nasceu e foi dado para adoção porque os pais biológicos não tinham condições financeiras de criá-lo. Desistiu da faculdade porque os pais adotivos não tinham condições de pagá-la. Mas, mesmo assim, lá estava ele. Uma vez - não foi hoje, no Globo News - ouvi alguém compará-lo a Thomas Edison, o cara que inventou a lâmpada. Tá, é uma boa comparação, mas a lâmpada só acende e apaga. Um computador, por outro lado.. Um Mac, ainda! Isso é muito mais que condução de corrente elétrica.
Não posso fazer a homenagem muito longa porque ainda quero fazer uma postagem sobre isso ao estilo Bianca, então, vou repetir os clichês usuais: Steve foi muito importante, mudou o mundo e foi até o fim. Com um câncer terminal, avançado e raríssimo, mesmo assim, lá estava ele.