quinta-feira, 16 de julho de 2015

Dentro da porta

Era uma vez uma porta no meio do nada, que não estava apoiada em parede alguma. Ninguém sabia quanto tempo fazia que ela estava ali e nem como lá chegara: desde que o mundo era mundo, aquela porta estava calmamente equilibrada sobre sua fina madeira e resistente a todo tipo de catástrofe natural como se fosse protegida por material invisível. Ao encostar na maçaneta e puxar a porta para ver aonde ela levava, cada pessoa via uma coisa diferente. Os boatos contavam que seriam universos paralelos, ou alucinações de quem tocasse a porta, espíritos, magia negra, ilusão ótica, buracos de minhoca (para os fãs de Stephen Hawking).
Os anos se passaram e as imagens que as mesmas pessoas tinham de dentro da porta foram mudando. Cada um via uma coisa diferente.
O segredo era que cada um via um universo onde todas as pessoas se comportavam como o observador. 
Todo tipo de inferno já foi visto por através daquela porta. Também todo tipo de paraíso. Essas afirmações se tornam verdadeiras a partir do momento em que se considera o inferno e o paraíso subordinados aos conceitos de cada um.
O que você gostaria de ver se puxasse a maçaneta?

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Codinome

Inspiração 
É o beijo de bom dia,
É o olhar profundo que diz
Coisas que nenhum outro diz,
Que relampeja sentimentos
No coração 

Inspiração são mãos dadas
Perguntar se tudo está bem
E se certificar de que,
Se não estiver,
Ficará
De que ela sempre esteja acompanhada 

Inspiração é o sorriso
De sol,
Que, dos marinheiros perdidos,
Navegantes de águas temerosas,
Seria o tão esperado
Farol

Inspiração é o beijo no pescoço,
Que faz fechar os olhos,
Que causa arrepio...
É expirar pesadamente
Com a boca
Sem sentir frio

Inspiração é o encaixe
Perfeito do abraço, 
É o desafio estabelecido
A todas as condições 
De tempo e espaço 

Inspiração 
É dormir abraçado,
E abraçar dormindo,
E acordar sem levantar
Pra passar o dia na cama,
Abraçado e sorrindo

Inspiração é o combustível 
Do escritor
Para viver os dias,
É a palavra mais linda
Que já se disse
Sobre amor




domingo, 5 de julho de 2015

Um caso de amor

Era uma vez um alpinista. Ele amava o que fazia mais do que tudo dentre todas as coisas que conhecia e as que poderia vir a conhecer.
Depois de ter sofrido um sério acidente e ter passado meses acamado se recuperando, ele decidiu parar de buscar aventuras, mesmo sabendo que algum dia voltaria a escalar (porque quem ama precisa praticar o amor). 
Então, uma montanha nova começou a tentá-lo. Ela parecia ser gentil, apesar de ele saber que seria uma caminhada inóspita e cansativa. Ele resistiu. A montanha parecia chamá-lo, tentando-o, brincando com seus sentimentos como uma mulher ingrata seduz um homem sem intenção de ceder, sabendo que ele a ama. 
Como todo homem apaixonado, este também se deixou seduzir. Aceitou a ingrata montanha de braços abertos, juntou equipamento e começou um longo caminho. 
Nos primeiros dias de escalada, o alpinista se perguntou por que em algum momento ele deixou de escalar. Aquele sentimento era de liberdade, de segurança, força e potência. Escalando aquela montanha, ele poderia fazer qualquer coisa. 
Porém, em qualquer relacionamento, nem tudo são rosas. A neve era densa e a comida, escassa. O cansaço chegou e o relacionamento com a montanha deixou o alpinista, antes apaixonado, confuso, fraco e com esperança de ser levado pela morte o mais logo possível para que aquele sofrimento finalmente tivesse um fim.
Na impossibilidade de morte, ele não teve outra saída senão continuar escalando, vagarosamente e cheio de dúvidas e incertezas. E assim, os dias se seguiram. 
Como alguém sempre tem que ceder, um dia, isso aconteceu. Ao chegar em determinado ponto, o alpinista entendeu o porquê de ter sido enviado àquele lugar e de ter sobrevivido em meio à insalubridade. O céu se abriu e mostrou a que altura aquele homem estava, em uma profundidade intangível e soprado pelo vento feroz, puro e gelado, acariciando o maltratado rosto do alpinista emocionado. Era como se a montanha estivesse se redimindo, como se ela estivesse lhe oferecendo rosas, pedindo compromisso, esperançosa de ser perdoada pela malcriação.
Naquele momento, não se tratava mais de um esportista trabalhando. Era uma história sobre um homem apaixonado e uma fera domada. Alguém que, por definição, é alpinista, só pode receber de braços abertos o pedido de desculpas de uma montanha outrora indelicada.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Em época de guerra

Em um avião de guerra, estava um único soldado negro, contente pela oportunidade de defender seu país, mas desmotivado pelo preconceito da parte de todos os outros soldados, que tinham pele clara.
O avião ia em direção a um minúsculo e falido país em algum lugar obscuro do globo, e aos soldados coube a incumbência de eliminar todos que se interpusessem no caminho que eles deveriam fazer até a autoridade máxima do tal país, a quem solicitariam os direitos sobre as riquezas minerais daquela nação.
Não foi difícil para um avião de última geração, de um país desenvolvido e tripulação treinada, pousar naquela pobre terra. O barulho causou alvoroço, mas a população não reagiu com violência.
O primeiro a descer do avião foi o soldado negro, que se sentiu aliviado por finalmente poder se distanciar um pouco dos colegas.
Os soldados do país chegaram pouco a pouco. Seus uniformes eram vestimentas de tecido fino, eles carregavam armas rudimentares e não pareciam nem um pouco hostis. Para o soldado negro, o que impossibilitou conflito foi que todos eles eram também negros. Não pareciam esperar que um estrangeiro tivesse a mesma cor de suas peles.
Sendo iguais, como poderiam entrar em combate?
Quando os outros soldados desceram do avião, eles também se surpreenderam. Em vez de inimigos, eles viram pessoas curiosas querendo saber o que se passava. Pessoas descalças e sujas, mas ainda assim pessoas. Pessoas de cor diferente e que falavam línguas diferentes, mas ainda assim pessoas.  E para todos os soldados, o que impossibilitou o conflito foi que todos eles eram também pessoas. Não pareciam esperar que um inimigo tivesse o mesmo sangue correndo nas suas veias.
Sendo iguais, como poderiam entrar em combate?