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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A Diabólica Comédia

Nasceu loira, de olhos azuis, bochechas rosadas. Sempre foi a primeira da turma. Virou modelo. Cursou medicina, fez mestrado, doutorado, pós-doutorado e ganhava facilmente meio milhão por mês. Casou, teve dois filhos, comprou um cachorro, morou em sete países, aprendeu vários idiomas e gostava de passar férias na Riviera Francesa. Quando atingiu os cinquenta anos, linda, rica e realizada, descobriu que era esquizofrênica e sofria do mal de Alzheimer. Todos os dias, as vozes que escutava em sua cabeça tinham que lembrá-la de quem era. Um dia ela era advogada, mãe de três e viúva, e no dia seguinte, era engenheira, solteira, sem filhos; no outro, era uma empresária divorciada que criava uma filhinha, e assim passava os anos. Perdeu os pais ("Mas meus pais morreram quando eu era bebê!"/ "Santo Deus, minha mãezinha.."/ "Eu tenho certeza de que eles foram assassinados!"). Tentou matar o filho mais velho, acusando-o de servir carne humana no jantar ("Sou médica há 30 anos e você quer que eu acredite que isso é carneiro?"). Decidiu parar de tomar banho porque o chuveiro pingava minhocas ao invés de água. Quebrou todas as louças. Virou viúva de verdade, mas nunca parou de conversar com o marido que sentava na cadeira de balanço da varanda (nem quando a cadeira de balanço não estava mais lá). Um dia, aos oitenta e três anos, decidiu que estava sendo perseguida, encontrou a perseguidora e deu vários tiros nela. No dia seguinte, um dos filhos encontrou um espelho quebrado, uma arma descarregada e a mãe morta no chão.

domingo, 16 de setembro de 2012

Mãe dos Ventos, Serra do Caju

Lá estava, um dia, Deus, bolado na madruga tarde, deitado em uma rede, em algum lugar do universo que os humanos não conseguem imaginar. Ele tinha frio. Estava cansado do frio. Já tinha criado muitos países frios no mundo, e não gostava do branco da neve. Ele queria cores.
Então, um papel voou até sua rede. Era uma receita de bolo. Seus olhos bateram nas últimas linhas: "assar no forno a 280º durante 40 minutos" e "servir quente". Deus teve uma ideia.

Ingredientes:

Trigo do Oriente Médio
Água quente
Iguanas da América Central
Tamanduás do Belize
Ouro da Suméria
Diamantes a gosto
Arroz da Ásia
Buriti a gosto
10 litros de magma recém-colhido
Vento

Modo de preparo

Massa

Bata a água e o trigo no liquidificador até formar uma massa homogênea. Despeje no local desejado da Terra de Vera Cruz e espalhe uniformemente (cuidado para não formar Pelotas). Acrescente iguanas, arroz, buriti e tamanduás aos poucos. Asse ao forno a 280º durante 30 anos.

Cobertura

Bata o ouro com os diamantes e misture com magma. Acrescente poderes divinos para que o magma e a temperatura do forno se mantenham aquecidos eternamente.

Foi uma receita bem-sucedida. Os campos ficaram dourados, o sol parecia ser mais quente e o vento era incessante. O sol era escaldante, e o céu, sempre azul. As iguanas e cajueiros reinaram nas terras durante muitos anos e o povo que foi colocado naquele local vivia de arroz e buriti. O título da receita, ele adicionou depois de viver tudo isso:

Roraima

Dizem que, se você olhar com calma para o céu, pode ver a rede de Deus balançando enquanto ele se bronzeia.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O certo

Hoje ensina-se a posição dos planetas e a composição química dos organismos. Ensina-se a deduzir fórmulas para obter valores. "Latim é uma língua extinta", "Plutão é pequeno demais para ser considerado um planeta", "algarismos romanos não são mais usados convencionalmente". Ensina-se o certo: há alguns anos atrás, ensinava-se que a Terra era quadrada, que os outros planetas giravam em torno da Terra e que a democracia era uma forma falha de governo. Ensinava-se o outro certo. E mais alguns anos atrás, ensinava-se a guerra como forma de demarcar limites e que povos com outras culturas eram bárbaros. Já se ensinou que o modo certo de honrar alguém após a morte é a mumificação, e que o nomadismo é a forma certa de viver, e que os homens devem ser caçadores, e as mulheres, colhedoras. Em todas essas épocas, desde o surgimento do homem até os dias de hoje, os ensinamentos são o certo. O certo, que está e sempre esteve em constante mutação.
Hoje, exige-se que as pessoas saibam distinguir o certo do errado. E os métodos usados para determinar o que é certo e o que é errado são palavras e números que a própria humanidade inventou.
Daqui a dez mil anos, ensinar-se-á o certo. "Todos os 1540 planetas da via láctea giram em torno de Plutão, o planeta mais quente do sistema Plutonar", "Inglês é uma língua extinta", "Naquela época, os carros tinham rodas".
Somos uma sociedade estudiosa, aprendendo o certo sem questionar. Temos dentes na boca porque esse é o certo. E se, amanhã, alguém descobrir que o certo de verdade é ter só a gengiva, e que os dentes são uma anomalia da nossa geração? E se alguém descobrir que água é uma substância tóxica? E se todos os estudos sobre química e física forem falhos?
E se ninguém nunca descobrir nada que contradiga o que sabemos hoje, o certo ainda será considerado mutável?

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Mães, Filhos e Quase-Filhos

"Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

(...) Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei (...)"

Este é o Artigo 5º da Constituição Federal. Ela assegura a todos os cidadãos brasileiros o direito de escolha, o livre arbítrio.
O Código Penal Brasileiro aponta o aborto como atentado contra a vida humana, sem direito de defesa por parte da vítima (o feto abortado).
E é aí que eu vejo o conflito.
Uma mulher que tem dentro de si um feto que ela não quer, e que se tornará um ser humano totalmente dependente dela, na minha opinião, deveria ter a opção de escolher se ela quer ou não dar à luz. Só considero assassinato se o coração já estiver batendo, e isso ainda é repensável.
Uma mulher não quer um filho por dois motivos: 1) Ela não tem condições de criá-lo e 2) Ela simplesmente não quer filhos.
Se for o último motivo, duas coisas podem acontecer: 1) A criança vai para adoção e 2) Ela passa a querer o bebê na hora em que o vê, por questões de instinto.
Se uma criança vai para adoção, ela corre o risco de passar o resto da vida nesta casa de caridade e nunca ser adotada. Ela nunca terá amor paterno. Estas crianças tendem a ter sérios distúrbios psicológicos. Uma mãe que tem condições de criar o filho indesejado não aguenta: ela vai beber, se drogar, e, no fim, vai precisar de cuidados da criança, em vez de cuidar dela. E se ela quiser o bebê, quais são as chances de uma mulher que pensou em abortar criar adequadamente este filho? E se ela não tiver condições financeiras/psicológicas de criá-lo? Quantas crianças, daquelas que vão para lares adotivos, são realmente adotadas? Qual é a dignidade que uma mãe pobre, que não teve condições de pagar um aborto, tem em criar um filho com vermes, que mora na rua e vive abaixo da linha da pobreza? Qual é a dignidade que existe na miséria?
O Brasil é este país onde 4,2 milhões de crianças trabalham, 1,1 milhão não vão à escola e 16,27 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, e a legalização do aborto tem uma grande chance de modificar drasticamente essas estatísticas. Ser mãe não é para qualquer mulher e dar o filho para adoção não vai tirar a maternidade dela. A maternidade é eterna, esteja a mãe com o filho ou não. Na minha opinião, a proibição do aborto fere o livre-arbítrio das mulheres.

O outro gume da faca está aqui.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Salva-praias

Lá pelos meados da década de 2040, as pessoas perceberam que as marés traziam lixo demais às praias e causavam acidentes demais aos banhistas. O turismo do Rio de Janeiro tornou-se quase inexistente, já que não se podia mais ir à praia, fazendo com que o Brasil e o mundo entrassem em crise econômica e biológica, porque os animais também estavam morrendo com tanta poluição.
Uma mente brilhante inventou os salva-praias, que se tornaram mais importantes do que os salva-vidas. Eram milhares de pessoas que recolhiam, todos os dias, incansavelmente, todo e qualquer lixo humano que fosse trazido pela maré. Era um cargo remunerado pelo governo e que qualquer um que soubesse nadar e enxergasse bem podia exercer.
Logo, as pessoas voltaram às praias e os animais marinhos voltaram a se reproduzir. A economia mundial foi se estabilizando. Os salva-praias continuaram lá, mesmo depois que a maré parou de trazer lixo, para fiscalizar o que os turistas faziam. Elaborou-se uma nova Constituição que incorporou um artigo sobre isso: por lei, cada lixo que qualquer um deixasse na areia da praia equivalia a uma multa de 500 reais (as pessoas só sentem dor no bolso).
Durante essa crise mundial, algumas pessoas achavam que a humanidade nunca se recuperaria, mas estavam erradas. Nos recuperamos por pouco. A partir da década de 2040, os índices de pessoas que praticavam hábitos sustentáveis aumentaram drasticamente para 98%, sem nunca diminuir (em 2099, 100% da população aderiu). A moral da história? A gente só dá valor às coisas quando sabe o quanto nos custaria perdê-las.

sábado, 30 de junho de 2012

Dona Silvana




Eu não gosto do Luciano Huck, de jeito nenhum. Mas hoje, assisti ao quadro "Lar, Doce Lar" do programa dele, que estava em visita à família Rodrigues. E isso me fez repensar toda a vida que levo.
Dona Silvana, a matriarca, chorou quando viu o apresentador. As filhas também. Até aí, normal. Mas ele deu uma olhada pela casa e encontrou metas a cumprir, por exemplo "ser mais educada, mais pontual" ou "transformar meu carrinho de açaí num quiosque", e eu, sentada, no bem-bom, reclamando da vida. Dona Silvana contou que perdeu a mãe e foi abandonada pelo marido, catava papelão na rua, e, para se alimentar, pegava as frutas que sobravam no final da feira ("Tenho muita sorte de morar em um país onde sobra muita comida.."). Hoje, a situação melhorou, mas ela cria duas filhas com 300 reais por mês. E as duas vão à escola, uma toca violino, e a outra, violoncelo, e têm noções básicas de inglês. Dona Silvana não tem dinheiro para tratamento dentário, mas tem duas filhas que têm noções básicas de inglês.
Luciano Huck pode ser o que for, mas ele transformou a vida dessas mulheres. Ele reformou a casa onde elas viviam, forneceu tratamentos dentários e oftalmológicos para as três, e agora, elas vivem com um pouco mais de dignidade.
Prometo a quem estiver lendo, e a mim mesma, que vou ajudar as pessoas que são como a família Rodrigues, ou piores. Não mereço o que tenho, e elas não têm o que merecem. Dona Silvana é o tipo de pessoa da qual o Brasil devia se orgulhar.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A menina e o Leão

Uma criancinha de uns seis, sete anos, em uma visita ao zoológico, encarava o leão adormecido, com o rosto encostado no vidro. O Rei da Selva (leia-se da jaula) acordou, deu uma ajeitada na juba ruiva e veio sentar-se para encarar a menina.
Ela era tão pequena, tão dependente e tão indefesa, e ele, tão grande, imponente, independente e forte. E ela estava tão livre, e ele, tão preso. A jaula do Rei da Selva, aquele quadrado de vidro com uma vaga lembrança que ele tinha das selvas verdadeiras, e a jaula daquele filhote de humano que, mesmo adulto, nunca chegaria ao seu tamanho, tão grande e infinita.
Devia haver algum motivo verdadeiro para prender um Rei em um quadrado de vidro, o leão pensava consigo mesmo. Encostou sua enorme pata nos dedinhos dela e pensou se algum dia os animais estariam observando, com curiosidade, humanos presos, em visitas a antropológicos.
Ela beijou o vidro e foi embora. E o Rei voltou a dormir em um dos cantos do quadrado de vidro.



Cada Rei na sua selva. Prender animais silvestres é crime!

domingo, 17 de junho de 2012

Opções

Deixar a pele queimar, o cabelo ressecar, as cutículas ficarem quase do tamanho das unhas e ter preguiça de fazer depilação, ou fazer as unhas, hidratar o cabelo e esfoliar a pele? Rabo-de-cavalo ou trança? Trança raiz ou trança espinha-de-peixe? Short, saia, calça ou vestido? Macaquinho ou macacão? Tênis ou salto? Pulseira ou relógio? Duas latas de brigadeiro ou um prato de salada? Samba ou valsa? Lente ou óculos? Namorar ou ficar? Malhar ou dormir? Vestido tubinho, baloné ou acinturado? Salto anabela, fino, quadrado ou plataforma? Biquíni ou maiô? Unhas desenhadas, foscas ou lisas? Ah, ser mulher é ter infinitas opções e ficar bem com todas.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Abrir a Caixa

Um homem qualquer, um dia, acordou com vontade de colocar um gato dentro de uma caixa. Dentro dessa caixa, havia um contador Geiger com substância radioativa, que, dependendo das circunstâncias, liberaria uma descarga, que soltaria um martelo, que estilhaçaria um pequeno frasco de ácido cianídrico. Dependendo das circunstâncias novamente, o gato estaria morto. Ou vivo. Ou os dois, simultaneamente.
Este homem, então, criou um termo chamado entrelaçamento. Todas as circunstâncias dependem uma da outra e todos os acontecimentos resultam da combinação de todas as circunstâncias: tudo está entrelaçado. Ele escreveu, sobre isso, que uma incerteza antes somente relacionada a um felino dentro de uma caixa poderia se transformar em uma indeterminação macroscópica, e o único jeito de descobrir o que acontecera era abrir a caixa.
O contador seria acionado, ou não. O martelo bateria ou não no frasco e o frasco se quebraria, ou não. O gato morreria ou continuaria vivo. E abrir a caixa alteraria a possibilidade de vida do gato. E se não se pode identificar o estado de um corpo, diz-se que ele está em todos os estados, já que seria impossível que ele não estivesse em estado nenhum, uma vez que está dentro da caixa e não pode ter desaparecido magicamente.
Uma indeterminação macroscópica. Qualquer indeterminação. Qualquer incerteza pode ser relacionada a este gato. As coisas acontecem, ou não. Elas têm consequências, ou não. Arca-se com as consequências, ou não. E o único jeito de saber é fazer as coisas. E, bem, se o gato estiver morto, basta enterrá-lo, não é mesmo?

Construção do Mundo

Como pedreiros constroem casas, os Deuses construíram o mundo, só que em maiores dimensões. Primeiro, um pouquinho de pó-de-estrela. Depois, mágica; não mágica mundana, mágica que era realmente mágica. Juntou-se matéria verde e matéria azul. Ficou como uma massinha de modelar, mole; então, um sopro mágico endureceu a verde até que sua superfície ficasse crocante, e a azul até que ficasse cremosa.
O próximo passo foi fazer seres viventes. Primeiro, o molde foi errado. Ficaram pequenos demais, então, ganharam barbatanas e se chamaram peixes. Depois, ficaram grandes demais, então juntaram-se à massa de modelar crocante e tornaram-se montanhas. Deuses também erram, sabe?
Finalmente, fizeram seres no tamanho certo. Eles podiam se desenvolver dentro do corpo de uma progenitora e atingir um tamanho adequado depois. Podiam interagir, podiam dar continuidade a todo o trabalho dos Deuses. Então foram lançados ao mundo.
As primeiras raças desses seres eram mutáveis até demais. Aquelas que pegaram sol ficaram da cor da terra, e aqueles que vieram da neve ficaram claros, da cor das nuvens de chuva. Os que viviam nas florestas ficaram vermelhos, para que pudessem se camuflar; por fim, a raça do oriente do recém-criado mundo ficaram amarelos, da cor do sol nascente.
Os Deuses desceram ao mundo que criaram para supervisionar e acabaram se tornando parte desta criação. Eles esqueceram de dar aos seres humanos o dom de ser imortais, de ter para sempre sua carne. Sofreram do mesmo mal. Seus corpos mundanos faleceram e eles voltaram a ser Deuses, prometendo aos humanos que sempre estariam por perto observando. Então, tornaram-se estrelas.

domingo, 13 de maio de 2012

Mãe

O que eu sou, há quinze anos, seis meses e sete dias, é da minha mãe, sou dela; tenho sido dela durante todo esse tempo, sempre fui e sempre serei. Minha mãe merece todo o amor desse mundo - nada mais justo, já que essa é a quantidade de amor que ela me dá - e muito mais. Eu a levaria para todos os lugares aonde fosse, todos. Eu a teria sempre do meu lado, sempre numa redoma, imortal, intocável, imune a qualquer tipo de dor e qualquer coisa que não fosse linda, perfumada e colorida. Eu a protegeria de tudo e de todos. Desejo que nada nunca possa machucar, incomodar ou entristecer minha mãe. Desejo que ela realize todos os desejos e seja a pessoa mais feliz desse mundo e que ela se orgulhe de mim como me orgulho dela, meu norte, minha heroína, meu parâmetro. Há quinze anos, seis meses e sete dias, ela tem sido minha mentora; desde o dia em que meu coração bateu pela primeira vez até o dia em que ele bater pela última vez.
E quando eu não tiver mais a companhia dela, não sei como vou viver. Como dormir sem mil beijos de boa noite? Como acordar sem mil beijos de bom dia? Quem eu vou chamar quando alguma coisa der errado? Com quem vou comemorar quando alguma coisa der certo? Pelo que eu viveria se não houvesse a minha mãe pra me dar um abraço quando eu chegasse em casa?
Minha mãe não vai viver pra sempre (pensar nisso me faz chorar, desde sempre), mas eu fui educada de acordo com os princípios dela, sou sangue, sotaque e trejeitos dela, e isso vai ficar pra sempre. Quinze, vinte, cem anos. Minha mãe não vai viver pra sempre, mas ela é eterna.



(Feliz dia das mães às mães, avós e às filhas que um dia serão mães e avós)

sábado, 21 de abril de 2012

Sábados

Quando a chuva bate forte na janela, quando meus pés ficam gelados, quando o travesseiro não me abraça de volta. Quando acordo de manhã, quando chego na escola, quando volto para casa. Quando estou no trânsito. Quando sinto cheiro de tinta fresca. Quando alguém me fala de futuro. Quando passo o dia inteiro me arrumando e experimento um milhão e meio de roupas (previamente escolhidas) antes de sairmos e digo que, ah, tomei um banho rápido e vesti qualquer coisa. Quando ensaio conversas. Qualquer minuto que eu passe sozinha. Quando as flores desabrocham, quando as manhãs são de sol, quando o vento faz os cabelos voarem. Quando quase reclamo da vida. Quando estou na internet e ninguém está cantando para mim. Nos sábados à noite, nos sábados de manhã, nos sábados à tarde, bem como em todos os outros dias, e em todas as outras horas, eu me lembro de você.

domingo, 4 de março de 2012

Vice-versa

Ontem, quando acordei, meu cabelo estava de cabeça para baixo. Na verdade, a cama estava no teto e o lustre estava no chão. Isso significa que o chão agora era o teto e vice-versa. Calcei os sapatos nas minhas mãos e coloquei luvas nos pés, porque estava muito quente. Para evitar ficar molhada do sol, usei um enorme guarda-chuva. Os peixes estavam estressadíssimos dentro de seus carros por causa do engarrafamento e as camas reclamavam porque estavam se sentindo usadas pelas pessoas. Os telefones não aguentavam mais a vida em cima de mesas ou grudados em paredes e a loja de motos estava lotada, porque eles estavam fazendo empréstimos. Os pinguins da Antártida estavam dando uma grande festa, à qual compareceram todos os leões da África, araras do Brasil e pandas da China. Os iPods colocaram suas pessoas para carregar e passaram o dia escutando elas, enquanto os óculos de grau estavam fazendo bronzeamento artificial para ficar mais parecidos com os óculos de sol. A Lua começou a tomar suplementos e malhar para ficar do tamanho do Sol e Plutão resolveu trocar de lugar com Mercúrio. Os chinelos começaram a ter cadarços e os tênis resolveram ser feitos de borracha. O poste mudou seu nome para telefone e o telefone preferiu se chamar alho. O azul agora era verde, e o verde era amarelo, e qualquer cor podia ser o preto. Tartarugas dançavam ciranda-cirandinha em cima da mesa, que era feita de uvas enfileiradas, e bolinhas de gude resolveram morar em formigueiros. As nuvens eram coloridas e o céu também mudava de cor. Chovia chocolate. Alguém pichou uma carinha feliz no sol e colocou pulseiras em seus raios. O normal resolveu que queria ser diferente e vice-versa.

sábado, 3 de março de 2012

Catedral

São 3956 metros quadrados, construídos pelos incas em 1560, em ouro, prata e bronze. As cadeiras do Coral que canta em quíchua, dialeto peruano, vieram da França, feitas em mármore e veludo. A maior parte do material para esculpir e pintar os magníficos quadros tridimensionais veio da Europa. Os padres mais importantes têm seus ossos guardados em uma câmara no interior da Catedral de Cusco, a igreja mais bonita a que já fui. Precisei me levantar antes das cinco da manhã e aguentar o vento frio, mas não houve nenhum lugar que sobrasse. Até cachorros e galinhas (!) compareceram à missa naquela manhã na capital peruana. Eu não entendi uma palavra do que foi dito, mas era simplesmente arrepiante. Fotos não são permitidas, então tenho apenas a lembrança.
Mas há uma coisa, em especial, que chama a atenção de todos. Uma pessoa, na verdade. Uma santa, em um quadro. Ela é rodeada por ouro e seus olhos acompanham movimento. Eles são tridimensionais. Nunca vou conseguir descrever a experiência de andar ao redor dela, olhando em seus olhos, e ter meu olhar sustentado. Não fui para rezar, sabe? Fui para sentir. Não precisei acreditar nem desacreditar em nenhum tipo de divindade, nem nada, mas acho que deixei parte de mim naquela igreja. Tomara que algum dia possa voltar lá para fazer tudo de novo.

Foi aqui, sentada nesses bancos.

(Essa é ela, e, sim, isso é ouro puro, entalhado à mão.)


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Miados





Estou sozinha em casa e já são quase 22h. Quer dizer, estaria sozinha, se não fosse pelo felino que todos sabem que me acompanha desde 2002, Van Gogh, e esse post é sobre isso: ele esteve aqui do meu lado o tempo todo desde a hora em que meus pais saíram, às 18h.
Não só desde as 18h, ele esteve do meu lado todos os dias desde 2002. Todas as manhãs, nós nos sentamos na varanda para tomar café da manhã. Às vezes, dormimos juntos, à tarde, e, quando dou banho nele, bem.. Ele faz o mesmo comigo.
As pessoas têm essa ideia de que gatos roubam comida e são sujos e agressivos com as pessoas, e muitos dos meus amigos tinham aversão a gatos, até conhecer o meu. Quem não gosta de gatos, certamente nunca teve um, é o que sempre digo. E ter um gato não quer dizer saber que um gato de rua revira seu lixo todas as noites, e sim ter um em casa, como o seu animal de estimação.
Ficamos no quarto a tarde toda. Eu estudei enquanto ele dormia do meu lado, e, quando levantei para lavar a louça, ele estava sentado perto de mim. Não acho, então, que o melhor amigo do homem seja necessariamente o cachorro. Pode ser um gato, passarinho, camaleão, qualquer animal com o qual o homem consiga interagir. Só queria deixar aqui, eternizado, o quanto sou grata pelo meu melhor amigo felino e pelos seus miados estridentes de bom dia.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O Dono da Lua - Parte I


Há muito, muito tempo atrás, em uma noite de lua cheia, viu-se um brilho fora do comum. E no meio da selva, em um amontoado de gramíneas, apareceu um bebê. Era um menino. À primeira vista, pensava-se que ele era careca, mas, na verdade, tinha cabelos claros demais para enxergar de longe. Seus olhos eram cinza-prateados, da cor da lua. Foi encontrado por um casal que o chamou de Luca e criou-o como se fosse seu próprio filho, apesar de não serem nem um pouco semelhantes.
Os olhos de Luca acompanhavam as fases da lua, ficando mais escuros quanto menos ela aparecesse no céu. Nas noites de lua cheia, ele era dono de duas esferas prateadas cintilantes. Nunca se viu olhos como os dele, nem cabelos, e nem entendeu-se o porquê de ele falar latim fluente antes mesmo de aprender a língua que os pais adotivos lhe ensinaram.
Ele ficava ainda mais claro quando pegava sol. Parecia ficar bronzeado quando tomava banhos de lua. O mais curioso era que, quando visitava o local aonde os pais diziam tê-lo encontrado, seu coração batia muito forte e seu corpo enchia-se do que pareciam ser letras prateadas com dizeres em latim, aparentemente ensinando-lhe a controlar as marés.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Ritual Quase Fúnebre

Estava tão deprimida ao acordar naquele dia cinza. Andou o dia inteiro, incessantemente, pelo apartamento de trinta metros quadrados. Não comeu nada, nem um grãozinho de arroz. Não atendeu nenhum dos telefonemas, seja lá de quem fossem. Não abriu a porta quando bateram. Não falou uma única palavra.
Às sete horas da noite, o pôr-do-sol iluminava em alaranjado a grande banheira branca, que ela deixou cheia de água fumegando. Estava com frio. Perfumou o cômodo com sua colônia preferida, de rosas, e jogou algumas pétalas na banheira.
Foi ao quarto e trouxe um secador de cabelos preto, grande e pesado. Ligou-o na tomada e deixou-o em cima da pia. Soltou o laço vermelho do fino robe de algodão branco com o qual passara o dia e ele caiu no chão do banheiro. Respirou fundo.
Não sei se existe um Deus, mas se existir, com certeza, foi Ele quem provocou o apagão na cidade inteira no exato momento em que ela puxou o secador de cabelos, ligado, para dentro da banheira, interferindo seu ritual quase fúnebre.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Dominó

Estou sentada em um sofá, na frente de um notebook, digitando este texto. E se, há uma dezena e meia de anos atrás, meus pais não tivessem se conhecido, não estaria. Não estaria em lugar nenhum. E se, há três dezenas e meia de anos atrás, minha avó não tivesse dado a luz à minha mãe, ela também não estaria aqui. Muito menos eu. Em quantas cidades meu pai já morou? Quantas namoradas teve? Quantas mulheres ele conheceu? Ou quantas poderia ter conhecido? Ele é gaúcho, minha mãe, carioca, e se encontraram em Roraima. Acho engraçado observar todas essas coincidências que causaram o efeito dominó que me trouxe até aqui, e como o dominó seria totalmente diferente se um desses passos não tivesse sido dado. Isso me faz pensar que, talvez, em algum lugar, exista uma espécie de roteiro, e uma espécie de diretor, coordenando todos os nossos passos para que o dominó não seja derrubado e para que tudo saia dentro dos conformes.