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domingo, 2 de dezembro de 2012

Sentido

Acordar seria dormir, e dormir seria acordar; não os conceitos trocados, só o significado relativo. Acordar seria entrar em um estado de sonho, onde somos donos das nossas vontades, temos ambições e vemos as coisas irem e virem, e dormir seria a realidade, em que as coisas sempre acontecem de um jeito diferente. Faz sentido, a vida não ter que passar tão rápido. Faz sentido, o céu nem sempre ter que ser azul, e a gente poder morrer mais de uma vez. Faz sentido não fazer sentido nenhum. Uma vez escutei alguém dizer que o sonho é a vida e a vida é o sonho, e, parando para pensar, por que não?

domingo, 16 de setembro de 2012

Mãe dos Ventos, Serra do Caju

Lá estava, um dia, Deus, bolado na madruga tarde, deitado em uma rede, em algum lugar do universo que os humanos não conseguem imaginar. Ele tinha frio. Estava cansado do frio. Já tinha criado muitos países frios no mundo, e não gostava do branco da neve. Ele queria cores.
Então, um papel voou até sua rede. Era uma receita de bolo. Seus olhos bateram nas últimas linhas: "assar no forno a 280º durante 40 minutos" e "servir quente". Deus teve uma ideia.

Ingredientes:

Trigo do Oriente Médio
Água quente
Iguanas da América Central
Tamanduás do Belize
Ouro da Suméria
Diamantes a gosto
Arroz da Ásia
Buriti a gosto
10 litros de magma recém-colhido
Vento

Modo de preparo

Massa

Bata a água e o trigo no liquidificador até formar uma massa homogênea. Despeje no local desejado da Terra de Vera Cruz e espalhe uniformemente (cuidado para não formar Pelotas). Acrescente iguanas, arroz, buriti e tamanduás aos poucos. Asse ao forno a 280º durante 30 anos.

Cobertura

Bata o ouro com os diamantes e misture com magma. Acrescente poderes divinos para que o magma e a temperatura do forno se mantenham aquecidos eternamente.

Foi uma receita bem-sucedida. Os campos ficaram dourados, o sol parecia ser mais quente e o vento era incessante. O sol era escaldante, e o céu, sempre azul. As iguanas e cajueiros reinaram nas terras durante muitos anos e o povo que foi colocado naquele local vivia de arroz e buriti. O título da receita, ele adicionou depois de viver tudo isso:

Roraima

Dizem que, se você olhar com calma para o céu, pode ver a rede de Deus balançando enquanto ele se bronzeia.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O certo

Hoje ensina-se a posição dos planetas e a composição química dos organismos. Ensina-se a deduzir fórmulas para obter valores. "Latim é uma língua extinta", "Plutão é pequeno demais para ser considerado um planeta", "algarismos romanos não são mais usados convencionalmente". Ensina-se o certo: há alguns anos atrás, ensinava-se que a Terra era quadrada, que os outros planetas giravam em torno da Terra e que a democracia era uma forma falha de governo. Ensinava-se o outro certo. E mais alguns anos atrás, ensinava-se a guerra como forma de demarcar limites e que povos com outras culturas eram bárbaros. Já se ensinou que o modo certo de honrar alguém após a morte é a mumificação, e que o nomadismo é a forma certa de viver, e que os homens devem ser caçadores, e as mulheres, colhedoras. Em todas essas épocas, desde o surgimento do homem até os dias de hoje, os ensinamentos são o certo. O certo, que está e sempre esteve em constante mutação.
Hoje, exige-se que as pessoas saibam distinguir o certo do errado. E os métodos usados para determinar o que é certo e o que é errado são palavras e números que a própria humanidade inventou.
Daqui a dez mil anos, ensinar-se-á o certo. "Todos os 1540 planetas da via láctea giram em torno de Plutão, o planeta mais quente do sistema Plutonar", "Inglês é uma língua extinta", "Naquela época, os carros tinham rodas".
Somos uma sociedade estudiosa, aprendendo o certo sem questionar. Temos dentes na boca porque esse é o certo. E se, amanhã, alguém descobrir que o certo de verdade é ter só a gengiva, e que os dentes são uma anomalia da nossa geração? E se alguém descobrir que água é uma substância tóxica? E se todos os estudos sobre química e física forem falhos?
E se ninguém nunca descobrir nada que contradiga o que sabemos hoje, o certo ainda será considerado mutável?

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Dia da Avó

Minha bisavó paterna me contava histórias da viagem de carro do Rio Grande do Sul pra Roraima, nos anos 70, e eu acho que seria capaz de narrar com perfeição esses dezessete dias que nem vivi, se alguém me perguntasse. Ela me servia montanhas de comida no prato e sempre me dava muito chocolate. Ela me alfabetizou e dividimos a paixão por palavras cruzadas.
Minha avó materna é a pessoa que mais me ajuda. Sem ela, haveria situações que eu realmente nunca conseguiria contornar. Ela é bióloga (casa de ferreiro, espeto de pau) e toca piano. Parece rígida, mas, na verdade, é uma manteiga derretida. Nenhuma de nós duas tem senso de direção e, quase sempre, quando saímos juntas, acabamos perdidas.
Minha bisavó materna faleceu quando eu tinha dois anos de idade e a avó paterna faleceu antes que eu a conhecesse, mas tenho certeza que se tivesse convivido com elas veria muitas coisas em comum. Assim como relatei nos parágrafos anteriores.
Bem, tem problemas que os pais não resolvem e situações em que os pais não bastam. É pra isso que servem as avós, aqueles colinhos infinito e cheios de experiência com os quais a gente sempre pode contar.
(Tenho certeza que minha vó não vai ver isso, porque ela só usa o computador pra jogar paciência e fazer pesquisa, mas o que vale é a intenção. Feliz dia da avó!)

sábado, 30 de junho de 2012

Dona Silvana




Eu não gosto do Luciano Huck, de jeito nenhum. Mas hoje, assisti ao quadro "Lar, Doce Lar" do programa dele, que estava em visita à família Rodrigues. E isso me fez repensar toda a vida que levo.
Dona Silvana, a matriarca, chorou quando viu o apresentador. As filhas também. Até aí, normal. Mas ele deu uma olhada pela casa e encontrou metas a cumprir, por exemplo "ser mais educada, mais pontual" ou "transformar meu carrinho de açaí num quiosque", e eu, sentada, no bem-bom, reclamando da vida. Dona Silvana contou que perdeu a mãe e foi abandonada pelo marido, catava papelão na rua, e, para se alimentar, pegava as frutas que sobravam no final da feira ("Tenho muita sorte de morar em um país onde sobra muita comida.."). Hoje, a situação melhorou, mas ela cria duas filhas com 300 reais por mês. E as duas vão à escola, uma toca violino, e a outra, violoncelo, e têm noções básicas de inglês. Dona Silvana não tem dinheiro para tratamento dentário, mas tem duas filhas que têm noções básicas de inglês.
Luciano Huck pode ser o que for, mas ele transformou a vida dessas mulheres. Ele reformou a casa onde elas viviam, forneceu tratamentos dentários e oftalmológicos para as três, e agora, elas vivem com um pouco mais de dignidade.
Prometo a quem estiver lendo, e a mim mesma, que vou ajudar as pessoas que são como a família Rodrigues, ou piores. Não mereço o que tenho, e elas não têm o que merecem. Dona Silvana é o tipo de pessoa da qual o Brasil devia se orgulhar.

domingo, 17 de junho de 2012

Opções

Deixar a pele queimar, o cabelo ressecar, as cutículas ficarem quase do tamanho das unhas e ter preguiça de fazer depilação, ou fazer as unhas, hidratar o cabelo e esfoliar a pele? Rabo-de-cavalo ou trança? Trança raiz ou trança espinha-de-peixe? Short, saia, calça ou vestido? Macaquinho ou macacão? Tênis ou salto? Pulseira ou relógio? Duas latas de brigadeiro ou um prato de salada? Samba ou valsa? Lente ou óculos? Namorar ou ficar? Malhar ou dormir? Vestido tubinho, baloné ou acinturado? Salto anabela, fino, quadrado ou plataforma? Biquíni ou maiô? Unhas desenhadas, foscas ou lisas? Ah, ser mulher é ter infinitas opções e ficar bem com todas.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Abrir a Caixa

Um homem qualquer, um dia, acordou com vontade de colocar um gato dentro de uma caixa. Dentro dessa caixa, havia um contador Geiger com substância radioativa, que, dependendo das circunstâncias, liberaria uma descarga, que soltaria um martelo, que estilhaçaria um pequeno frasco de ácido cianídrico. Dependendo das circunstâncias novamente, o gato estaria morto. Ou vivo. Ou os dois, simultaneamente.
Este homem, então, criou um termo chamado entrelaçamento. Todas as circunstâncias dependem uma da outra e todos os acontecimentos resultam da combinação de todas as circunstâncias: tudo está entrelaçado. Ele escreveu, sobre isso, que uma incerteza antes somente relacionada a um felino dentro de uma caixa poderia se transformar em uma indeterminação macroscópica, e o único jeito de descobrir o que acontecera era abrir a caixa.
O contador seria acionado, ou não. O martelo bateria ou não no frasco e o frasco se quebraria, ou não. O gato morreria ou continuaria vivo. E abrir a caixa alteraria a possibilidade de vida do gato. E se não se pode identificar o estado de um corpo, diz-se que ele está em todos os estados, já que seria impossível que ele não estivesse em estado nenhum, uma vez que está dentro da caixa e não pode ter desaparecido magicamente.
Uma indeterminação macroscópica. Qualquer indeterminação. Qualquer incerteza pode ser relacionada a este gato. As coisas acontecem, ou não. Elas têm consequências, ou não. Arca-se com as consequências, ou não. E o único jeito de saber é fazer as coisas. E, bem, se o gato estiver morto, basta enterrá-lo, não é mesmo?

domingo, 13 de maio de 2012

Mãe

O que eu sou, há quinze anos, seis meses e sete dias, é da minha mãe, sou dela; tenho sido dela durante todo esse tempo, sempre fui e sempre serei. Minha mãe merece todo o amor desse mundo - nada mais justo, já que essa é a quantidade de amor que ela me dá - e muito mais. Eu a levaria para todos os lugares aonde fosse, todos. Eu a teria sempre do meu lado, sempre numa redoma, imortal, intocável, imune a qualquer tipo de dor e qualquer coisa que não fosse linda, perfumada e colorida. Eu a protegeria de tudo e de todos. Desejo que nada nunca possa machucar, incomodar ou entristecer minha mãe. Desejo que ela realize todos os desejos e seja a pessoa mais feliz desse mundo e que ela se orgulhe de mim como me orgulho dela, meu norte, minha heroína, meu parâmetro. Há quinze anos, seis meses e sete dias, ela tem sido minha mentora; desde o dia em que meu coração bateu pela primeira vez até o dia em que ele bater pela última vez.
E quando eu não tiver mais a companhia dela, não sei como vou viver. Como dormir sem mil beijos de boa noite? Como acordar sem mil beijos de bom dia? Quem eu vou chamar quando alguma coisa der errado? Com quem vou comemorar quando alguma coisa der certo? Pelo que eu viveria se não houvesse a minha mãe pra me dar um abraço quando eu chegasse em casa?
Minha mãe não vai viver pra sempre (pensar nisso me faz chorar, desde sempre), mas eu fui educada de acordo com os princípios dela, sou sangue, sotaque e trejeitos dela, e isso vai ficar pra sempre. Quinze, vinte, cem anos. Minha mãe não vai viver pra sempre, mas ela é eterna.



(Feliz dia das mães às mães, avós e às filhas que um dia serão mães e avós)

domingo, 29 de abril de 2012

Aviação

A aviação sempre foi um dos ramos mais glamourosos de todos, ou deveria ser. Principalmente no Brasil, onde há uma deficiência de pilotos. Isso acontece porque o curso de ciências aeronáuticas é caro, e as horas de voo, mais caras ainda. O fato de o Brasil ser um país em desenvolvimento, com alta circulação de turistas nos grandes centros, torna ridículo o fato de que a aviação e os aeroportos brasileiros são grandes bostas.
Quem conhece o aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília, sabe a raiva que se passa lá, quando, 100% das vezes, o portão de embarque é trocado na última hora, sabe que os horários dos voos são tão mal administrados, que, muitas vezes, as pessoas não têm onde sentar. O aeroporto de Santa Genoveva, em Goiânia, é outro grande lixo. Isso sem falar no aeroporto Atlas Brasil Cantanhede, de Boa Vista, em que a quase inexistente praça de alimentação fecha às 2h da madrugada e um dos dois (sim, DOIS!) voos diários chega às 4h e os passageiros ficam sem ter o que comer.
Quando se compara a aviação brasileira dos anos 80 e 90 e a atual, é vergonhoso. Eu me lembro de comer em louça de verdade, com talheres Tramontina de aço inoxidável cunhados com o símbolo da Varig em dourado e de ganhar, das aeromoças, livrinhos de colorir e lápis-de-cor do Variguinho. Aeromoças essas, que, por sinal, eram lindas, educadas e tinham o inglês perfeito. O único detalhe é que Boa Vista - São Paulo, nessa época, custava cinco mil reais. Hoje em dia se consegue por até duzentos, mas, por outro lado, os talheres e livrinhos de colorir foram substituídos por guardanapos finos, barrinhas de cereal e bebidas de má qualidade. Comparando o público, também, percebe-se que, antigamente, as viagens de avião eram só para a crème de la crème brasileira, a alta sociedade. Hoje, qualquer um pode viajar. Houve uma popularização dos preços e da aviação de tal modo que a falta de educação que se vê nos aviões é revoltante e não é, de modo algum, justificável, mesmo que o Brasil seja um país de terceiro mundo. Ser de origem humilde é bem diferente de ser porco e mal-educado.
Isso nos traz a um outro assunto importante: a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos que o Brasil sediará. Na minha opinião, antes de reformar os estádios de futebol e pensar se deveríamos ou não autorizar a venda de cachaça neles, deveríamos nos preocupar em reformar a aviação. Os turistas não vão chegar no Brasil pelo Maracanã, eles vêm de avião. Eles precisam entender o inglês que as aeromoças falam - se é que aquilo pode ser chamado de inglês - e precisam conseguir se mover nos aeroportos, sem mudanças súbitas de portões (e os idosos e deficientes? Já vi muitos que perderam voos porque não se locomovem rápido o suficiente), sem maus tratos dos tripulantes e, principalmente, sem atrasos, cancelamentos e overbooking. Quanto às ruas das grandes cidades e blá blá blá, pouco me importa; o que sei é que aconselho todos os brasileiros a comprarem vassouras para viajar em 2014 e 2016.

sábado, 21 de abril de 2012

Sábados

Quando a chuva bate forte na janela, quando meus pés ficam gelados, quando o travesseiro não me abraça de volta. Quando acordo de manhã, quando chego na escola, quando volto para casa. Quando estou no trânsito. Quando sinto cheiro de tinta fresca. Quando alguém me fala de futuro. Quando passo o dia inteiro me arrumando e experimento um milhão e meio de roupas (previamente escolhidas) antes de sairmos e digo que, ah, tomei um banho rápido e vesti qualquer coisa. Quando ensaio conversas. Qualquer minuto que eu passe sozinha. Quando as flores desabrocham, quando as manhãs são de sol, quando o vento faz os cabelos voarem. Quando quase reclamo da vida. Quando estou na internet e ninguém está cantando para mim. Nos sábados à noite, nos sábados de manhã, nos sábados à tarde, bem como em todos os outros dias, e em todas as outras horas, eu me lembro de você.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Mateusinho

Há alguns dias, na academia, encontrei uma velha amiga dos meus pais, que conheço desde que... Desde que me conheço por gente. Ela tem três filhos, uma menina e dois meninos, dos quais me lembro perfeitamente, há dez, treze anos atrás, correndo no meio do mato que a cidade era. Infelizmente, eu e essa família perdemos o contato, já faz algum tempo, até que (não tão) coincidentemente, o caçula, Mateus, foi meu colega de sala, em 2008. Ele fazia natação, eu me lembro, e, durante esse ano, fomos bons amigos.
Ele foi morar em Natal, em 2009. Fiquei sabendo que, agora, mora no Rio de Janeiro, em uma república, porque foi contratado para nadar profissionalmente pelo Botafogo. Não nos falamos mais, então achei que ficaria meio estranho dar os parabéns do nada, mas estou muito, muito feliz por ele. Mateusinho sempre foi um ótimo nadador, ótima pessoa, ótimo amigo. Ele merece isso tudo e muito mais. E esse "muito mais", sei que vai conseguir.

sábado, 3 de março de 2012

Catedral

São 3956 metros quadrados, construídos pelos incas em 1560, em ouro, prata e bronze. As cadeiras do Coral que canta em quíchua, dialeto peruano, vieram da França, feitas em mármore e veludo. A maior parte do material para esculpir e pintar os magníficos quadros tridimensionais veio da Europa. Os padres mais importantes têm seus ossos guardados em uma câmara no interior da Catedral de Cusco, a igreja mais bonita a que já fui. Precisei me levantar antes das cinco da manhã e aguentar o vento frio, mas não houve nenhum lugar que sobrasse. Até cachorros e galinhas (!) compareceram à missa naquela manhã na capital peruana. Eu não entendi uma palavra do que foi dito, mas era simplesmente arrepiante. Fotos não são permitidas, então tenho apenas a lembrança.
Mas há uma coisa, em especial, que chama a atenção de todos. Uma pessoa, na verdade. Uma santa, em um quadro. Ela é rodeada por ouro e seus olhos acompanham movimento. Eles são tridimensionais. Nunca vou conseguir descrever a experiência de andar ao redor dela, olhando em seus olhos, e ter meu olhar sustentado. Não fui para rezar, sabe? Fui para sentir. Não precisei acreditar nem desacreditar em nenhum tipo de divindade, nem nada, mas acho que deixei parte de mim naquela igreja. Tomara que algum dia possa voltar lá para fazer tudo de novo.

Foi aqui, sentada nesses bancos.

(Essa é ela, e, sim, isso é ouro puro, entalhado à mão.)


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Miados





Estou sozinha em casa e já são quase 22h. Quer dizer, estaria sozinha, se não fosse pelo felino que todos sabem que me acompanha desde 2002, Van Gogh, e esse post é sobre isso: ele esteve aqui do meu lado o tempo todo desde a hora em que meus pais saíram, às 18h.
Não só desde as 18h, ele esteve do meu lado todos os dias desde 2002. Todas as manhãs, nós nos sentamos na varanda para tomar café da manhã. Às vezes, dormimos juntos, à tarde, e, quando dou banho nele, bem.. Ele faz o mesmo comigo.
As pessoas têm essa ideia de que gatos roubam comida e são sujos e agressivos com as pessoas, e muitos dos meus amigos tinham aversão a gatos, até conhecer o meu. Quem não gosta de gatos, certamente nunca teve um, é o que sempre digo. E ter um gato não quer dizer saber que um gato de rua revira seu lixo todas as noites, e sim ter um em casa, como o seu animal de estimação.
Ficamos no quarto a tarde toda. Eu estudei enquanto ele dormia do meu lado, e, quando levantei para lavar a louça, ele estava sentado perto de mim. Não acho, então, que o melhor amigo do homem seja necessariamente o cachorro. Pode ser um gato, passarinho, camaleão, qualquer animal com o qual o homem consiga interagir. Só queria deixar aqui, eternizado, o quanto sou grata pelo meu melhor amigo felino e pelos seus miados estridentes de bom dia.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Morte

Estava sentada em um dos cantos do banheiro minúsculo e sujo de um hotel ruim em uma cidade que não aparecia no mapa e cujo único hospital encontrava-se fechado, desidratada e desorientada. Minha mãe estava na minha frente, chorando e me pedindo para continuar acordada. Pedi desculpas.
Fechei os olhos. Ainda a ouvi gritar meu nome, mas não consegui voltar. Estava indo embora. Houve luzes, som. E eu não sentia mais nada, não tinha mais dor e nem desconforto, estava curada de todos os males mundanos. Alguém cantava uma música de um filme que eu gostava muito e eu fazia parte da cena. Sentei-me em uma mesa com meus amigos da escola, meu namorado e meus atores preferidos e conversamos como se não nos víssemos há muito tempo. Era uma ótima sensação.
Acordei em cima de uma cama com meu pai tentando me fazer voltar a respirar e minha mãe em prantos.
Eu acabara de voltar da morte.


História real.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Preocupações em Relação ao Futuro

Acho que, ao chegarmos em certo ponto da vida, temos a tal da Síndrome de Peter Pan. Não querer crescer.
Eu, particularmente, tive isso no começo desse ano, de olhar pra mim mesma e dizer "caramba, eu cresci rápido demais!"; as brincadeiras de Barbie com as amigas deram lugar a tardes em que nem eu mesma sei o que faço acompanhada delas. Aliás, sei, sim: comer brigadeiro, tirar fotos, fofocar, ir à piscina, comer mais brigadeiro, fofocar mais. Achei que quando crescesse, eu seria muito mais cheia de ocupações e tal, mas virei uma adolescente displicente e desocupada. E aí eu queria que as aulas voltassem logo pra ver meus amigos e não pra estudar. A animação que eu tinha de comprar material escolar acabou, não passo mais horas batendo boca com a minha mãe pra levar os cadernos do He-Man. Isso deu lugar a uma pessoa que entra em qualquer loja e compra coisas básicas e sóbrias para não enjoar dos desenhos da capa do caderno, do design da borracha ou da cor da lapiseira.
Acho que, ao chegarmos em certo ponto da vida, nos tornamos indecisão e receio. Em relação à escolha de profissão, a querer tomar as rédeas da própria vida, a ter vontade de se livrar dos pais e conquistar independência, mas não querer nunca ir pra longe deles. Me tornei susto ao ver que meu ensino médio praticamente acabou e que, daqui a dois anos (que passarão em um piscar de olhos), eu estarei ingressando na vida adulta. E o que tem guardado pra mim lá na frente?
Eu sempre quis ir fazer o terceiro ano em uma daquelas escolas super-conceituadas de São Paulo, mas, querendo ou não, criei raízes aqui. Roraima nunca vai me trazer tudo o que quero, mas já trouxe metade disso. Ou não. Acabei de encontrar um nó na minha linha de pensamento, e estou divagando, porque não vou conseguir restabelecer ela. Eu estava ficando maluca pensando nisso, até que percebi que não há basicamente nada que eu possa fazer, então lavo minhas mãos em relação ao meu futuro. O que for pra ser, será, e eu estou de olhos fechados e torcendo para que a minha vontade coincida com o que estão guardando para mim.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Um Vôo Para Chamar de Meu

Por algum tempo, houve o barulho do vento forte nas minhas orelhas e a adrenalina de estar em queda livre a onze mil pés de altitude. Não houve medo, eu já havia feito isso uma vez. Houve apenas a êxtase. É a melhor sensação que eu já conheci - aliás, passaria o resto da vida em queda livre, tranquilamente.
E houve a melhor parte do trajeto avião - solo: a parte em que a queda livre acaba e você, bruscamente, para de cair e se encontra seguro pelo pára-quedas. Só aí você percebe o quanto a adrenalina foi grande e gargalha incontrolavelmente. E rodopia no ar. A paz é enorme, incomparavelmente enorme. E todo o resto do mundo que você conhece está longe, porque você está no céu, e nada pode te atingir.
Eu não fazia idéia da distância do chão a que nós estávamos, mas não conseguia ver nem os carros passando nas ruas. Via o lago, que, do alto, era verde-esmeralda, e a enorme fazenda, que parecia um cenário de filme. Aos poucos, comecei a ver os pontinhos se movimentando: pessoas e carros. Vi a grama, o vento esquentou, recebi um sinal para levantar as pernas, outro para pisar no chão, e o vôo acabou. Tudo isso em 5 minutos.
Acho que todo ser humano já quis voar. Acho, também, que o maior erro de design dos humanos é não ter asas. E outra coisa que acho é que voar é muito bom. Aliás, afirmo: voar é maravilhoso.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Sobre Cotas

Não sou negra, sou branca. Não sou deficiente, nem física e nem mental. Não sou indígena. Em hipótese alguma, as leis federais me concedem o direito de ingressar numa faculdade fazendo o uso de cotas. Também não sou pobre e nem estudo em escola pública. E se eu fosse negra, mesmo sendo rica e tendo um alto nível de potencial, poderia usar as cotas para entrar em uma faculdade, só para me valer dessa facilidade. Se me faltasse um dedo, se eu tivesse uma perna mais curta que a outra, eu poderia usar as cotas também. Mas se eu fosse uma pessoa branca, em perfeitas condições físicas, e pobre, sem condições para pagar uma escola ou faculdade particular, não teria direito a cotas.
Não sei qual é o sentido que isso faz. Tem gente por aí que estuda nas escolas públicas do interior, e, independente da cor e da quantidade de dedos ou comprimento das pernas, é muito mais bem instruída do que gente que tem todas as condições financeiras necessárias para ter um nível de instrução astronomicamente maior. Porque quem quer estudar estuda em qualquer lugar.
As cotas devem existir, sim. Mas não do jeito que existem agora, para todos os negros e todos os indígenas e todos os deficientes. Desse jeito, elas não estão ajudando, e sim, atrapalhando. Estão abrindo brechas para quem quer se aproveitar da facilidade de não precisar passar em um vestibular para estar na faculdade. As cotas devem ser separadas de acordo com a renda mensal de cada um, independente da cor, porque não existem escolas próprias para negros ou brancos. E nem todo tipo de deficiência deveria ser admitido, pelo simples fato de que certas deficiências são sinônimos de incapacidade, e outras não. Se eu tivesse uma perna mais comprida que a outra, seria deficiente e teria minha vaga em muitas universidades garantida, sem ter nenhuma incapacidade. E isso seria extremamente injusto com quem realmente tem algum tipo de deficiência e que precisa das cotas.
A última frase do parágrafo anterior me fez pensar que ninguém realmente precisa de cotas. Afinal, deficientes mentais, que seriam incapazes de passar em um vestibular, seriam capazes de passar em todas as matérias da faculdade? E, mesmo se passassem, seriam eles capazes de exercer serviços de qualidade no mercado profissional? E os negros, que nunca tiveram condições de pagar por cursos de inglês e escolas particulares, não seriam capazes de pegar emprestados os livros de uma biblioteca municipal e estudar com base neles? Nos Estados Unidos, tem gente que nunca foi à escola, que foi educada em casa, e cresceu na vida tanto quanto ou até mais que quem foi. No Brasil, isso só não acontece porque é proibido.
Só posso afirmar, com certeza, uma coisa: quando as cotas não existiam, todo mundo ingressava na faculdade pelos mesmos meios, e só conseguiam os que eram capazes. E o nível de escolaridade e as condições financeiras não determinam o nível de informação.

O outro gume da faca está aqui.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Para 2012




É de praxe que, no final de cada ano, a gente olhe pra trás e filosofe um pouquinho sobre como foi, pra gente, o que passou. O que a gente fez, o que deixou de fazer, do que se arrepende e do que se orgulha.
Esse ano de 2011, pra mim, foi como se fossem dois anos. O primeiro, eu me lembro de ter começado chorando. Não foi um jeito muito bom de começar o ano. Chorei bastante no primeiro ano de 2011. E aí me desfiz do que me fazia chorar. Chorei por isso também, mas há males que vêm para o bem da gente. Aí, depois, comecei um outro ano. Do zero. Resolvi mudar tudo em relação a mim, relaxar e contar com meus amigos. Foi uma fase em que eu só me preocupava comigo, e pronto. Daí veio a capacidade de me preocupar com as outras pessoas também. E de recomeçar, quando chegou a hora. Só que, dessa vez, corrigindo os erros passados. Cuidando pra que tudo fosse diferente. E, até agora, consegui; meu segundo ano de 2011 foi maravilhoso, cheio de sorrisos e com cheirinho de vitória.
Na escola, 2011 foi um ano perdido. Não vou nem falar sobre isso, pra não me estressar.
Dizem que, quando o ano passa rápido, é porque a gente não fez nada, e que, quando ele passa devagar, é porque deu tempo de fazer muita coisa. Acho que é o contrário. Esse ano passou tão rápido, que alguns dias pareciam durar minutos. É porque me diverti muito. Apesar dos apesares, desde 2009, venho notando que os anos estão melhorando, então tenho muitas esperanças pra 2012. Tenho medo do futuro, mas também fico ansiosa pra que ele aconteça.
Einstein dizia que quanto mais a gente se diverte, mais rápido o ano parece passar. Tomara que 2012 passe voando!

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Sobre Relacionamentos

O único momento em que devemos esperar um homem é o primeiro. Logo após a troca de olhares. Você tá a fim? Legal, se ele tiver, ele que venha. Senão, não era pra ser e pronto. E se ele veio, ótimo. Só se deve esperar que ele faça isso e observar o comportamento se ele vier, porque é o único jeito de levar pra frente. Não precisa esperar pra mandar a primeira mensagem, nem pra adicionar em todas as redes sociais, nem pra ligar, nem nada. Se a gente se colocar no lugar deles, sempre vamos saber o que eles querem. Homem é assim, que nem massinha de modelar, no começo, mas depois endurece. Por isso que é ele que tem que vir, porque nós somos damas e não vamos ficar atrás de alguém cujo único interesse pode ser pegar na nossa bunda. Se você ligar quinhentas vezes por dia no começo, ele pode até gostar, mas, quando você cansar, ele não vai entender. Temos que modelar nossos próprios homens. E se eles forem malcriados, temos que cortar o mal pela raiz. Qualquer sinal de violência verbal ou física requer abandono imediato, que fique claro. E sem volta. Se ele fez uma vez, pode pedir desculpas, prometer que não faz de novo e tal, mas faz, sim. E com a gente, a mesma coisa. Mulher não pode ser violenta. Pode ser, no máximo, persuasiva. Antes de fazer qualquer coisa pra eles, a gente tem que se perguntar: "eu gostaria se ele fizesse isso comigo?" e pronto.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Ideais de Felicidade

Amanhecer chuvoso. Sol repentino e alaranjado. Levantar na hora. Banho morno. Café com leite e pão francês. Conversar com os amigos. Aprender alguma coisa nova. Perder-se em devaneios. Rir até a barriga doer. Dividir balinhas de menta com a turma. Reclamar por ter que escrever muito. Almoçar. Sobremesa. Rever os amigos. Voltar a estudar. Sensação de dever cumprido ao ouvir o professor dizer "parabéns". Ficar de bobeira. Sorvete. Fofoca! Banho frio. Jantar. Sobremesa. Cama quentinha e abraço reconfortante. Enxurrada de beijos. Sorriso estonteante. Fechar de olhos.