Ela tinha ido acampar com os amigos. Estava no meio do nada, em uma fazenda a algumas horas de casa, deitada em uma lona estendida na grama do lado de sua barraca. Jogava no celular.
Ele saiu da barraca e perguntou por que ela estava deitada do lado de fora se estava jogando no celular. Ela respondeu que gostava do céu.
- Como pode você gostar do céu e estar virada de costas pra ele bem na hora em que as estrelas aparecem?
- ...Estrelas?
Ele se deitou ao lado dela. Ela guardou o celular e ficou maravilhada na hora em que viu o céu, repleto de estrelas. Não era o céu preto que se via em São Paulo. Era um céu com pontinhos brancos e brilhantes e que se estendia até o infinito.
- Isso é bem melhor que um celular - ela disse.
- Se existir vida em outro planeta, esse céu que estamos vendo agora é o mesmo que as pessoas de lá vêem. Essa é a beleza de olhar pro céu: não saber onde acaba, saber que nunca acaba.
sábado, 17 de setembro de 2011
Prélude à L'Après-midi d'un Faune
Ela tinha acabado de ler Crepúsculo e só queria ser que nem a Bella. Passou a usar shampoo de morango e queria gostar de Claude Debussy. Estava numa farmácia que tinha uma prateleira de CDs e resolveu botar pra tocar um deles. Não era nada demais, só música clássica. Só um compositor.
E aí ela ouviu Prélude à L'Après-midi d'un Faune. E Debussy deixou de ser um compositor para se tornar mágico. A música clássica deixou de ser só isso para se tornar emoção. E hoje em dia, toda vez que ela escuta essa música, chora.
Debussy, sim, é um artista. Essa é a verdadeira arte: saber emocionar. Não é só uma melodia bonita, é uma música que arrepia. E quem tem alma de artista sabe reconhecer os verdadeiros artistas.
E aí ela ouviu Prélude à L'Après-midi d'un Faune. E Debussy deixou de ser um compositor para se tornar mágico. A música clássica deixou de ser só isso para se tornar emoção. E hoje em dia, toda vez que ela escuta essa música, chora.
Debussy, sim, é um artista. Essa é a verdadeira arte: saber emocionar. Não é só uma melodia bonita, é uma música que arrepia. E quem tem alma de artista sabe reconhecer os verdadeiros artistas.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
A Árvore e a Coruja
Era uma vez uma árvore solitária e uma coruja errante.
Um dia, a coruja pousou na árvore, que convidou-lhe a morar lá. A coruja negou e disse que apenas pernoitaria, porque ia para a casa da prima. A árvore se ofereceu para contar-lhe uma história para dormir. A coruja aceitou. A história era assim:
"Era uma vez uma árvore solitária e uma coruja errante.
Um dia, a coruja pousou na árvore, que convidou-lhe a morar lá. A coruja negou e disse que apenas pernoitaria, porque ia para a casa da prima. A árvore se ofereceu para contar-lhe uma história para dormir. A coruja aceitou. A história era assim..."
Quando a coruja perguntou pelo fim da história, a árvore disse que ela teria que ficar para saber, porque era uma história de vida e a vida não pode ser contada antes de ser escrita. Assim, a árvore ganhou uma companheira e a coruja ganhou uma lição de vida.
Um dia, a coruja pousou na árvore, que convidou-lhe a morar lá. A coruja negou e disse que apenas pernoitaria, porque ia para a casa da prima. A árvore se ofereceu para contar-lhe uma história para dormir. A coruja aceitou. A história era assim:
"Era uma vez uma árvore solitária e uma coruja errante.
Um dia, a coruja pousou na árvore, que convidou-lhe a morar lá. A coruja negou e disse que apenas pernoitaria, porque ia para a casa da prima. A árvore se ofereceu para contar-lhe uma história para dormir. A coruja aceitou. A história era assim..."
Quando a coruja perguntou pelo fim da história, a árvore disse que ela teria que ficar para saber, porque era uma história de vida e a vida não pode ser contada antes de ser escrita. Assim, a árvore ganhou uma companheira e a coruja ganhou uma lição de vida.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Desmoronamento
Eles estavam juntos há dois meses - aquele começo fresquinho e super apaixonado. Não faziam outra coisa além de pensar um no outro.
Trabalhavam juntos, no terceiro e último andar de um prédio. Um escritório. Naquela manhã, eles não se falaram - haviam brigado na noite anterior. Apenas se entreolhavam.
Ela estava preparando café para o chefe e ele estava arrumando a papelada. De repente, escutaram um barulho alto. Um estrondo. Uma nuvem de poeira. Gritos. Tudo ficou cinza.
Ouviram o chamado para evacuar o prédio. Correram para as escadas. Ela bem na frente, ele entre os últimos a sair. O prédio começou a tremer quando algumas pessoas já tinham saído, mas os dois ainda estavam lá dentro.
Ele correu para baixo de uma mesa de aço. Ela se viu sozinha no meio da recepção do prédio prestes a desmoronar. Em uma fração de segundos, tudo caiu. Ela fechou os olhos e esperou a morte.
Quando ela abriu os olhos, estava nos braços dele. Se abraçaram. Foi eterno.
Trabalhavam juntos, no terceiro e último andar de um prédio. Um escritório. Naquela manhã, eles não se falaram - haviam brigado na noite anterior. Apenas se entreolhavam.
Ela estava preparando café para o chefe e ele estava arrumando a papelada. De repente, escutaram um barulho alto. Um estrondo. Uma nuvem de poeira. Gritos. Tudo ficou cinza.
Ouviram o chamado para evacuar o prédio. Correram para as escadas. Ela bem na frente, ele entre os últimos a sair. O prédio começou a tremer quando algumas pessoas já tinham saído, mas os dois ainda estavam lá dentro.
Ele correu para baixo de uma mesa de aço. Ela se viu sozinha no meio da recepção do prédio prestes a desmoronar. Em uma fração de segundos, tudo caiu. Ela fechou os olhos e esperou a morte.
Quando ela abriu os olhos, estava nos braços dele. Se abraçaram. Foi eterno.
sábado, 10 de setembro de 2011
(Sacaneando com) Cristóvão

Oi, eu sou o Cristóvão. No post anterior, contei a vocês a versão da minha história que é fiel à história que contam pra vocês na escola. Bem, aquela história é pra rinoceronte dormir. Vou contar a história de verdade e, bem, prometam que não vão colocar isso nas provas de vocês.
Eu nasci em Gênova, na Itália. Queria tornar-me navegador e descobrir outro continente, então sugeri aos governantes do meu país que me deixassem navegar alguns meses em linha reta, já que a Terra era redonda. Algum dia chegaria em algum lugar. Eles riram na minha cara e me mandaram ir dormir. Fiquei puta-revolts e vazei pra Espanha. A linda da rainha de lá vendeu as jóias dela e me deu três caravelas.
Fui.
A viagem demora, sabe como é não, não sabe porque hoje existem aviões. A gente tem tempo pra pensar em coisas absurdas. Mas eu, homem centrado e futuro descobridor de continente, pensei em que nome daria à minha descoberta. Pensei em Colômbia, pra combinar com meu sobrenome. Pensei em Colombo. Mas "descobrir Colombo" não fica muito sonoro. Cristoviana, Novo Cristóvão, Cristóvã. Cristóvã, a terra do futuro. Cristóvã, o novo mundo. Cristóvã. Poderia repetir isso mil vezes por dia.
O tempo passou, a comida acabou, um monte de gente morreu. Estavam organizando um motim. E daí? Eu seria o descobridor da Cristóvã. FO-DAM-SE.
Eles iam me matar mesmo e tal! Mas aí um dos manos gritou "Terra à vista!" e tudo mudou. Alguém perguntou se tinham jogado areia nos olhos dele. DELS, que piada péssima.
Descemos, comemos umas frutas e umas minas, cheiramos umas coisas, bebemos água pura e cristalina. Eram selvagens valentes que viviam de caça, pesca, frutas, raízes e sementes. E talz. Bando de pretos.
Parei e dei um grito. "BEM-VINDOS AO NOVO MUNDO! VOCÊS ESTÃO PRESENCIANDO O DESCOBRIMENTO DA CRISTÓVÃ!" /UAAAAAL, vomitei arco-íris
Aí, do nada, chegou um branco.
"Olá, bem-vindos à América."
COMAÇIM AMÉRICA? É CRISTÓVÃ, MERMÃO
"Como assim, senhor? Meu nome é Cristóvão Colombo e eu acabei de descobrir a Cristóvã."
"Bem, seu Calombo, como pode o senhor ter descoberto um novo continente se eu já estava aqui e já cartografei as áreas próximas? Meu nome é Américo Vespúcio e eu descobri a América, que por acaso é esse continente que o senhor está agora."
É COLOMBO, PORRA. CALOMBO É O QUE EU VOU FAZER NESSA SUA BOCHECHA ROSADA
Fazer o que, né? Gente civilizada - leia-se "gente daquela época" - não ia pra porrada. Aceitava e xingava a mãe, as tias, primas, avós, avôs, papagaio, periquito, basilisco e/ou dragão bem baixinho.
Então, eu voltei da viagem obsoleta com minhas caravelas obsoletas, minha tripulação obsoleta e a minha bosta de vida obsoleta que não fazia mais sentido, já que aquele português do Américo Vespúcio roubou meu continente.
Americanos, a partir de agora, saibam que essa é a história de verdade. Autodenominem-se Cristovianos. Assumam suas origens. Mas, de novo, não coloquem isso nas provas de vocês.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Cristóvão
Meu nome é Cristóvão e eu nasci na Itália. Na minha época, mal se sabia que a Terra era redonda. Eu cresci admirando o mar e tornei-me um navegador.
Queria descobrir novas terras - quando isso acontecesse, minha missão na Terra estaria completa. Dirigi-me aos governantes de meu país.
- Sabemos que a Terra é redonda e os continentes são cheios de curvas. Ninguém nunca tentou navegar em linha reta para ver o que acontece - eu expliquei a eles.
- Isto é um absurdo. Se você navegar em linha reta, vai acabar chegando do outro lado da Itália.
Passei anos pensando no que poderia fazer. Decidi me mudar para a Espanha. Cheguei lá em 1492.
Fui ao encontro dos reis Fernando e Isabel, casados desde 1469.
- Sabemos que a Terra é redonda e os continentes são cheios de curvas. Ninguém nunca tentou navegar em linha reta para ver o que acontece.
- Está sugerindo que exista mais um continente a ser encontrado?
- Sem dúvida, Majestade.
- Você parte em alguns meses - A rainha Isabel me encorajou.
A rainha vendeu as próprias jóias e montou para mim uma frota com três lindas caravelas. Dia 3 de agosto do mesmo ano, eu estava partindo.
Foram meses navegando em linha reta. Meses que poderiam ter sido anos, séculos, milênios. Enfrentamos tempestades e calmarias, assistimos o sol nascer e se pôr. Muita gente morreu. Muita gente adoeceu. Várias vezes achei que as autoridades italianas estavam certas em dizer que não havia mais nada - afinal, já estavamos em 1492! O que mais poderia haver para se descobrir? - e pensei em desistir. Mas quando o sol nascia de novo, eu mudava de idéia.
O tempo infinito, por fim, passou. A comida estava acabando, as pessoas, adoecendo e morrendo, e a água potável, cada vez mais escassa.
- Vamos voltar - diziam meus marinheiros. Eu negava. Precisava haver alguma coisa. Mas os meses passavam e nada acontecia. Um dia, o bucaneiro João Henrique veio conversar comigo.
- Capitão, não há mais comida nem água.
- Eu sinto muito.
- Devemos voltar.
- Até chegarmos, estaremos mortos. Eu recuso-me a voltar sem descobertas.
- Voltará morto.
- Antes morto que fracassado.
- Seu desejo é uma ordem, Capitão.
Os outros formaram um círculo em volta de mim e eu percebi: era um motim.
Como se fosse cronometrado, quando eu estava prestes a experienciar a morte, ouvimos o grito:
- Terra à vista!
Todos ficaram imóveis, chocados.
A rebelião acabou e nós chegamos a uma ilha com árvores frondosas e latifoliadas, com frutas coloridas e animais de todos os tamanhos. Os nativos pintavam os rostos e dançavam alegremente. Mas a característica mais marcante era o ouro. Ouro e diamantes, tão comuns naquele lugar quanto pedras em Portugal. Mulheres curvilíneas. Eram humanos a alfabetizar e catequizar.
Coletamos riquezas, água e comida. Voltamos para casa. Fomos recolhidos com glória pelos reis. Doamos as riquezas a quem precisava. Não houve reconhecimento por parte da população.
Morri em 1506, no anonimato. Mas minha missão no planeta estava cumprida, porque eu descobri a América.
Queria descobrir novas terras - quando isso acontecesse, minha missão na Terra estaria completa. Dirigi-me aos governantes de meu país.
- Sabemos que a Terra é redonda e os continentes são cheios de curvas. Ninguém nunca tentou navegar em linha reta para ver o que acontece - eu expliquei a eles.
- Isto é um absurdo. Se você navegar em linha reta, vai acabar chegando do outro lado da Itália.
Passei anos pensando no que poderia fazer. Decidi me mudar para a Espanha. Cheguei lá em 1492.
Fui ao encontro dos reis Fernando e Isabel, casados desde 1469.
- Sabemos que a Terra é redonda e os continentes são cheios de curvas. Ninguém nunca tentou navegar em linha reta para ver o que acontece.
- Está sugerindo que exista mais um continente a ser encontrado?
- Sem dúvida, Majestade.
- Você parte em alguns meses - A rainha Isabel me encorajou.
A rainha vendeu as próprias jóias e montou para mim uma frota com três lindas caravelas. Dia 3 de agosto do mesmo ano, eu estava partindo.
Foram meses navegando em linha reta. Meses que poderiam ter sido anos, séculos, milênios. Enfrentamos tempestades e calmarias, assistimos o sol nascer e se pôr. Muita gente morreu. Muita gente adoeceu. Várias vezes achei que as autoridades italianas estavam certas em dizer que não havia mais nada - afinal, já estavamos em 1492! O que mais poderia haver para se descobrir? - e pensei em desistir. Mas quando o sol nascia de novo, eu mudava de idéia.
O tempo infinito, por fim, passou. A comida estava acabando, as pessoas, adoecendo e morrendo, e a água potável, cada vez mais escassa.
- Vamos voltar - diziam meus marinheiros. Eu negava. Precisava haver alguma coisa. Mas os meses passavam e nada acontecia. Um dia, o bucaneiro João Henrique veio conversar comigo.
- Capitão, não há mais comida nem água.
- Eu sinto muito.
- Devemos voltar.
- Até chegarmos, estaremos mortos. Eu recuso-me a voltar sem descobertas.
- Voltará morto.
- Antes morto que fracassado.
- Seu desejo é uma ordem, Capitão.
Os outros formaram um círculo em volta de mim e eu percebi: era um motim.
Como se fosse cronometrado, quando eu estava prestes a experienciar a morte, ouvimos o grito:
- Terra à vista!
Todos ficaram imóveis, chocados.
A rebelião acabou e nós chegamos a uma ilha com árvores frondosas e latifoliadas, com frutas coloridas e animais de todos os tamanhos. Os nativos pintavam os rostos e dançavam alegremente. Mas a característica mais marcante era o ouro. Ouro e diamantes, tão comuns naquele lugar quanto pedras em Portugal. Mulheres curvilíneas. Eram humanos a alfabetizar e catequizar.
Coletamos riquezas, água e comida. Voltamos para casa. Fomos recolhidos com glória pelos reis. Doamos as riquezas a quem precisava. Não houve reconhecimento por parte da população.
Morri em 1506, no anonimato. Mas minha missão no planeta estava cumprida, porque eu descobri a América.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Mais um Momento
Hoje eu sonhei com você. Um sonho assim, tranquilo, que me trouxe paz.
Estávamos em algum lugar com umas piscinas, e tinha um mar bravo e azul. Você me abraçava e nós conversávamos. Eu estava com a cabeça encostada no seu ombro, de modo que meu nariz ficasse em seu pescoço - como habitualmente.
Eu chorava em silêncio. Não era um choro de desespero, e sim de saudade. Um genuíno e dolorido choro de saudade. Molhei sua camiseta.
Você estava incrivelmente paciente e encarava o mar, apenas me abraçando. Então, rompeu o silêncio:
- Você já chorou todas as suas lágrimas?
Eu fechei os olhos, apreciando o som da sua voz.
- Ainda não.
Você encostou a cabeça em meu pescoço e vivemos juntos mais um momento.
Estávamos em algum lugar com umas piscinas, e tinha um mar bravo e azul. Você me abraçava e nós conversávamos. Eu estava com a cabeça encostada no seu ombro, de modo que meu nariz ficasse em seu pescoço - como habitualmente.
Eu chorava em silêncio. Não era um choro de desespero, e sim de saudade. Um genuíno e dolorido choro de saudade. Molhei sua camiseta.
Você estava incrivelmente paciente e encarava o mar, apenas me abraçando. Então, rompeu o silêncio:
- Você já chorou todas as suas lágrimas?
Eu fechei os olhos, apreciando o som da sua voz.
- Ainda não.
Você encostou a cabeça em meu pescoço e vivemos juntos mais um momento.
domingo, 28 de agosto de 2011
Mistérios
Alice acorda, depois de algumas horas inconsciente. Está sozinha no esconderijo de seu sequestrador. Depois de ponderar muito, ela resolve não se deixar sucumbir como a maioria de crianças sequestradas faz. Sebastian não penetraria em seu escudo psicológico. Como a melhor defesa é o ataque, ela resolve se comportar da única maneira que ele não esperaria: sendo simpática e mantendo-se calma.
Sebastian acordou e foi ao mercado. Ele comprou algumas frutas e refeições semi-prontas, como nunca aprendera a cozinhar. Tranquilamente, andava pelos corredores, quando se lembrou que sua refém estava no esconderijo e a qualquer hora acordaria. Ela fugiria, avisaria à polícia o que aconteceu e, em horas, ele e seu pai seriam presos. Não, isso não podia acontecer. Largou a sacola de compras no chão e saiu correndo de volta ao esconderijo.
Ele abriu a porta com força e desceu as escadas como se deslizasse. Em questão de segundos, estava empurrando a porta que o levaria ao flat subterrâneo onde havia deixado Alice.
Quando abriu a porta, tudo estava silencioso. O cheiro de mofo de quando chegaram havia sido substituído por um delicioso aroma de lavanda e... Comida? Havia uma música leve tocando ao fundo. Sebastian entrou, desconfiado e atônito.
Reconheceu a música que ouvira tantas vezes em sua casa, na Inglaterra. "Je T'Aime Moi Non Plus" de Serge Gainsbourg.
Ele encontrou palavras, que saíram meio distorcidas.
- Alice?
A música parou.
- Sim?
Ele entrou e a encontrou com um violão.
- O que você... De onde esse... Violão? E a... Lavanda? Você... Fez comida?
- Eu limpei a casa. Tinha detergente no armário branco da cozinha. O violão estava embaixo da cama. E a comida estava toda congelada na geladeira, eu só a preparei. Não aguentava mais o cheiro de mofo, o tédio e a fome. - Ela falou, como se fosse uma situação normal. - Ela se levantou. - Achei que você estaria com fome.
Sebastian ficou, por um momento, sem saber o que fazer. Nunca havia sequestrado uma pessoa antes. E Alice era uma vítima muito complicada. Decidiu, então, apelar para a violência e mostrar a ela que ainda estava no comando.
Ele a agarrou violentamente pelo braço.
- Você vai fazer o que eu mandar. Não sei se ainda não ficou claro, mas você foi sequestrada. Pessoas sequestradas não limpam a casa, nem fazem comida, nem tocam violão! O cheiro de mofo, o tédio e a fome farão parte do seu dia-a-dia agora, e eles serão o mínimo que você terá que suportar! Parece até que você não sente medo.
- Mas eu não estou com medo, mesmo.
- Quem é você? Uma psicopata?
- Se todas as perguntas tivessem respostas, o que seria dos mistérios?
Adaptado de Entre Amor e Morte.
Sebastian acordou e foi ao mercado. Ele comprou algumas frutas e refeições semi-prontas, como nunca aprendera a cozinhar. Tranquilamente, andava pelos corredores, quando se lembrou que sua refém estava no esconderijo e a qualquer hora acordaria. Ela fugiria, avisaria à polícia o que aconteceu e, em horas, ele e seu pai seriam presos. Não, isso não podia acontecer. Largou a sacola de compras no chão e saiu correndo de volta ao esconderijo.
Ele abriu a porta com força e desceu as escadas como se deslizasse. Em questão de segundos, estava empurrando a porta que o levaria ao flat subterrâneo onde havia deixado Alice.
Quando abriu a porta, tudo estava silencioso. O cheiro de mofo de quando chegaram havia sido substituído por um delicioso aroma de lavanda e... Comida? Havia uma música leve tocando ao fundo. Sebastian entrou, desconfiado e atônito.
Reconheceu a música que ouvira tantas vezes em sua casa, na Inglaterra. "Je T'Aime Moi Non Plus" de Serge Gainsbourg.
Ele encontrou palavras, que saíram meio distorcidas.
- Alice?
A música parou.
- Sim?
Ele entrou e a encontrou com um violão.
- O que você... De onde esse... Violão? E a... Lavanda? Você... Fez comida?
- Eu limpei a casa. Tinha detergente no armário branco da cozinha. O violão estava embaixo da cama. E a comida estava toda congelada na geladeira, eu só a preparei. Não aguentava mais o cheiro de mofo, o tédio e a fome. - Ela falou, como se fosse uma situação normal. - Ela se levantou. - Achei que você estaria com fome.
Sebastian ficou, por um momento, sem saber o que fazer. Nunca havia sequestrado uma pessoa antes. E Alice era uma vítima muito complicada. Decidiu, então, apelar para a violência e mostrar a ela que ainda estava no comando.
Ele a agarrou violentamente pelo braço.
- Você vai fazer o que eu mandar. Não sei se ainda não ficou claro, mas você foi sequestrada. Pessoas sequestradas não limpam a casa, nem fazem comida, nem tocam violão! O cheiro de mofo, o tédio e a fome farão parte do seu dia-a-dia agora, e eles serão o mínimo que você terá que suportar! Parece até que você não sente medo.
- Mas eu não estou com medo, mesmo.
- Quem é você? Uma psicopata?
- Se todas as perguntas tivessem respostas, o que seria dos mistérios?
Adaptado de Entre Amor e Morte.
Espiritualidade
Eu estava assistindo um programa sobre fantasmas. A equipe estava no Orleans Inn, um hotel muito conhecido porser assombrado. Havia duas mulheres e uma lanterna muito sensível ao toque, e elas estavam procurando por uma entidade chamada Hannah. Expicaram a Hannah a brincadeira, dizendo que iam fazer perguntas e pedindo-lhe que acendesse a lanterna caso a resposta fosse sim.
As investigadoras chamaram-na pelo nome e a lanterna acendeu. Depois de algumas piscadas, elas descobriram que se tratava de uma prostituta que havia sido assassinada por um de seus clientes. Então, elas foram embora.
Para mim, o programa perdeu a graça naquela hora. Como elas puderam conversar com um fantasma e não lhe fazer mil perguntas?
Comigo, seria bem diferente. "Você sente amor, toques, dor, calor, frio, cheiros? Você dorme? Você encontrou na sua pós-vida alguém que tenha conhecido antes de morrer e que desencarnaram antes de você? Existe mesmo um Deus?
Sempre tive medo de fantasmas, mas sempre os achei fascinantes. Se eu estivesse lá naquela noite, na situação das investigadoras - Amy Bruni e Kris Williams, de Ghost Hunters -, teria passado a noite inteira conversando com Hannah. Gravaria tudo. Faria um filme, escreveria um livro, publicaria artigos.
Minha bisavó - que Deus a tenha - perdeu a filha num acidente, trinta anos antes de eu nascer, e sempre me dizia que, quando ela era viva, as duas fizeram um acordo: a que morresse primeiro viria avisar a outra caso houvesse algo depois da morte. Ela me contava, com cem por cento de certeza, que a filha voltara.
Eu nunca acreditei muito na minha bisavó enquanto ela era viva, mas, depois que ela morreu, em algumas noites em que eu sentia sua falta como se houvessem arrancado um pedaço de mim, eu acreditei. Porque eu conversava com ela. Não quero parecer louca, mas, quando fazia isso, a paz de espírito que me inundava era tal que fazia todo o medo passar. E eu entrava em um estado de quase-transe. Nunca havia acreditado nisso antes, mas agora acredito. Que ela voltou para me avisar que existe, sim, uma pós-vida. Acredito que, assim como Hannah, minha alma continuará viva após a morte física. E que, finalmente, vou conhecer minha avó paterna, rever minha bisavó, dar-lhe o tão sonhado último abraço e viver uma pós-vida feliz.
Fantasmas sempre me fazem pensar em espiritualidade. E, depois dessa noite, eu deixo nesse blog um tópico a mais na minha lista de coisas a fazer antes de morrer: ir ao Orleans Inn e conversar com Hannah. E então eu volto para contar a vocês um pouco mais sobre minhas noções de espiritualidade.
As investigadoras chamaram-na pelo nome e a lanterna acendeu. Depois de algumas piscadas, elas descobriram que se tratava de uma prostituta que havia sido assassinada por um de seus clientes. Então, elas foram embora.
Para mim, o programa perdeu a graça naquela hora. Como elas puderam conversar com um fantasma e não lhe fazer mil perguntas?
Comigo, seria bem diferente. "Você sente amor, toques, dor, calor, frio, cheiros? Você dorme? Você encontrou na sua pós-vida alguém que tenha conhecido antes de morrer e que desencarnaram antes de você? Existe mesmo um Deus?
Sempre tive medo de fantasmas, mas sempre os achei fascinantes. Se eu estivesse lá naquela noite, na situação das investigadoras - Amy Bruni e Kris Williams, de Ghost Hunters -, teria passado a noite inteira conversando com Hannah. Gravaria tudo. Faria um filme, escreveria um livro, publicaria artigos.
Minha bisavó - que Deus a tenha - perdeu a filha num acidente, trinta anos antes de eu nascer, e sempre me dizia que, quando ela era viva, as duas fizeram um acordo: a que morresse primeiro viria avisar a outra caso houvesse algo depois da morte. Ela me contava, com cem por cento de certeza, que a filha voltara.
Eu nunca acreditei muito na minha bisavó enquanto ela era viva, mas, depois que ela morreu, em algumas noites em que eu sentia sua falta como se houvessem arrancado um pedaço de mim, eu acreditei. Porque eu conversava com ela. Não quero parecer louca, mas, quando fazia isso, a paz de espírito que me inundava era tal que fazia todo o medo passar. E eu entrava em um estado de quase-transe. Nunca havia acreditado nisso antes, mas agora acredito. Que ela voltou para me avisar que existe, sim, uma pós-vida. Acredito que, assim como Hannah, minha alma continuará viva após a morte física. E que, finalmente, vou conhecer minha avó paterna, rever minha bisavó, dar-lhe o tão sonhado último abraço e viver uma pós-vida feliz.
Fantasmas sempre me fazem pensar em espiritualidade. E, depois dessa noite, eu deixo nesse blog um tópico a mais na minha lista de coisas a fazer antes de morrer: ir ao Orleans Inn e conversar com Hannah. E então eu volto para contar a vocês um pouco mais sobre minhas noções de espiritualidade.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
A Resposta
O nome dela era Tábata e desde que me conheço por gente na escola onde estudavávamos, todos os meninos e algumas meninas a queriam. Ela era, realmente, muito bonita. Carioca, alta, com cabelos e olhos negros como a noite e a pele clara como a lua.
Dançamos juntas uma vez, e eu preciso admitir que ela dança muito bem. Simpática, ela me elogiou. Fiquei maravilhada. Começamos a nos falar casualmente.
Um dia desses, ela apareceu com um namorado. Só sei porque olhei seu Facebook. Ele era bonito e descendente de alemães.
Um dia desses eu entrei em um curso de reforço. No primeiro dia, ela estava lá. De vestido amarelo, à la Crème de la Crème carioca, discutia com uma amiga sobre química.
De repente, um cara de camiseta azul, jeans e Havaianas puxou uma cadeira e sentou do lado dela, já desmotivada. Ele sorriu.
- É tetravalente. Ele faz quatro ligações.
Ela apagou a conta quilométrica e recomeçou.
- Obrigada.
A partir daquele momento, ele começou a lhe dar uma aula sobre química, cheia de sorrisos. Tratavam-se por "amor". Um relacionamento visivelmente novo.
Chegou um momento em que a sala estava lotada e a concentração estava ausente. Ele observava atento como um pai que observa uma filha andando de bicicleta pela primeira vez. Ela escreveu e apagou. E escreveu de novo. E apagou. Fez isso várias vezes. Perto da nona vez, ele segurou a borracha.
- Você esqueceu um elétron.
- Onde?
- O nox do manganês aumenta, e o número de elétrons diminui. Mas, no cloro, o nox diminui e o número de elétrons aumenta. Você esqueceu esse elétron aqui - ele explicou, fazendo um desenho na folha.
- Nossa, eu não acredito. Como pude ser tão estúpida?
Naquele momento, eu vi que o olhar daquele homem mudou. Quase que instintivamente, ele beijou os cabelos negros de Tábata.
- Não diga isso, você não é estúpida. Einstein ficou reprovado em matemática.
- Einstein não tinha o pai que eu tenho.
- De qualquer jeito, seu pai não vai ter motivos para brigar com você, porque você vai tirar uma nota muito boa em química. Eu estou aqui para isso.
Ela corou e sorriu.
- Só que essa conta está errada, amor.
- Não, ela não está.
- Está sim. Isso aqui é penteno.
- Pentano. Não teime comigo..
Ela apagou a conta e rabiscou um pouco. Ele ficou calado, observando. Ela desistiu.
- É, estava certa.
- Eu sei. Você precisa confiar mais em mim. Eu disse que essa conta estava certa e você se apressou em refazê-la. Podíamos ter feito uma prova real e te poupado de todo esse trabalho. Qual o sentido de uma relação sem confiança?
- Eu discordei de você e recomecei o cálculo e você quer discutir a relação..?
- Porque eu te amo e, se não firmarmos nossa base agora, daqui a dez anos é que não vai ser.
- Você o quê? - As palavras saíram meio distorcidas por causa do enorme sorriso.
- Porque.. Eu te amo. - Ele repetiu, hesitante.
Sem dúvida, era a primeira vez que ela ouvia isso. Dele, pelo menos.
A sala tinha quarenta pessoas e um professor bravo com o barulho e ela não pensou duas vezes antes de lhe dar um beijo agradecido.
- Tábata! - O professor gritou - Se você e seu namorado querem continuar na aula, lembrem-se que isso não é um motel.
- Certo, desculpe. - Ela respondeu.
Os dois viraram as cabeças para baixo e riram juntos.
E eles foram felizes juntos, conversando juntos, aprendendo química juntos, e, às vezes, ela ganhava um beijo na cabeça. Vendo coisas assim, a gente pensa como é fácil ser feliz. O mundo podia desabar, enquanto existissem aqueles dois e o caderno de química de Tábata. Eu imagino.. Será que o amor e a felicidade andam de mãos dadas?
Para eles, estava clara a resposta.
Dançamos juntas uma vez, e eu preciso admitir que ela dança muito bem. Simpática, ela me elogiou. Fiquei maravilhada. Começamos a nos falar casualmente.
Um dia desses, ela apareceu com um namorado. Só sei porque olhei seu Facebook. Ele era bonito e descendente de alemães.
Um dia desses eu entrei em um curso de reforço. No primeiro dia, ela estava lá. De vestido amarelo, à la Crème de la Crème carioca, discutia com uma amiga sobre química.
De repente, um cara de camiseta azul, jeans e Havaianas puxou uma cadeira e sentou do lado dela, já desmotivada. Ele sorriu.
- É tetravalente. Ele faz quatro ligações.
Ela apagou a conta quilométrica e recomeçou.
- Obrigada.
A partir daquele momento, ele começou a lhe dar uma aula sobre química, cheia de sorrisos. Tratavam-se por "amor". Um relacionamento visivelmente novo.
Chegou um momento em que a sala estava lotada e a concentração estava ausente. Ele observava atento como um pai que observa uma filha andando de bicicleta pela primeira vez. Ela escreveu e apagou. E escreveu de novo. E apagou. Fez isso várias vezes. Perto da nona vez, ele segurou a borracha.
- Você esqueceu um elétron.
- Onde?
- O nox do manganês aumenta, e o número de elétrons diminui. Mas, no cloro, o nox diminui e o número de elétrons aumenta. Você esqueceu esse elétron aqui - ele explicou, fazendo um desenho na folha.
- Nossa, eu não acredito. Como pude ser tão estúpida?
Naquele momento, eu vi que o olhar daquele homem mudou. Quase que instintivamente, ele beijou os cabelos negros de Tábata.
- Não diga isso, você não é estúpida. Einstein ficou reprovado em matemática.
- Einstein não tinha o pai que eu tenho.
- De qualquer jeito, seu pai não vai ter motivos para brigar com você, porque você vai tirar uma nota muito boa em química. Eu estou aqui para isso.
Ela corou e sorriu.
- Só que essa conta está errada, amor.
- Não, ela não está.
- Está sim. Isso aqui é penteno.
- Pentano. Não teime comigo..
Ela apagou a conta e rabiscou um pouco. Ele ficou calado, observando. Ela desistiu.
- É, estava certa.
- Eu sei. Você precisa confiar mais em mim. Eu disse que essa conta estava certa e você se apressou em refazê-la. Podíamos ter feito uma prova real e te poupado de todo esse trabalho. Qual o sentido de uma relação sem confiança?
- Eu discordei de você e recomecei o cálculo e você quer discutir a relação..?
- Porque eu te amo e, se não firmarmos nossa base agora, daqui a dez anos é que não vai ser.
- Você o quê? - As palavras saíram meio distorcidas por causa do enorme sorriso.
- Porque.. Eu te amo. - Ele repetiu, hesitante.
Sem dúvida, era a primeira vez que ela ouvia isso. Dele, pelo menos.
A sala tinha quarenta pessoas e um professor bravo com o barulho e ela não pensou duas vezes antes de lhe dar um beijo agradecido.
- Tábata! - O professor gritou - Se você e seu namorado querem continuar na aula, lembrem-se que isso não é um motel.
- Certo, desculpe. - Ela respondeu.
Os dois viraram as cabeças para baixo e riram juntos.
E eles foram felizes juntos, conversando juntos, aprendendo química juntos, e, às vezes, ela ganhava um beijo na cabeça. Vendo coisas assim, a gente pensa como é fácil ser feliz. O mundo podia desabar, enquanto existissem aqueles dois e o caderno de química de Tábata. Eu imagino.. Será que o amor e a felicidade andam de mãos dadas?
Para eles, estava clara a resposta.
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