sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Desafio dos 50 Dias

Dia 3: Uma foto da sua cantora/cantor preferido

Esse nem precisava de foto, né? Vocês sabem da minha admiração quase obsessiva pelo Dinho Ouro Preto.



quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Desafio dos 50 dias

Dia 2: Uma foto do seu momento preferido da História (da sua ou em geral)
O marinheiro Glenn McDuffie e a enfermeira Edith Shain, na Times Square, ao saber que a Segunda Guerra Mundial tinha terminado.


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Que Me Tocam

Às vezes, me pego perdida no pai dos desocupados,o Youtube, assistindo vídeos que me tragam lembranças boas ou que eu possa cantar junto. E a partir de agora, quando isso acontecer, vou postar os vídeos aqui. Cada um deles tem um significado muito especial pra mim, que não será explicado, logo, essa coluna nova servirá também como um teste pra ver quem é que me conhece de verdade. Ou não.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Música

Quando era criancinha, eu ganhei um MP3 daqueles ovais, vermelhos, assim. Coloquei nele a música que meu pai cantava pra me fazer dormir, a preferida da vovó e uma que fazia minha mãe chorar. Um dia, sentei na frente do computador e descobri que existiam muitas músicas no mundo. Intermináveis. A comparação que eu fazia era que o mundo da música era tão enorme quanto o mundo em que eu vivia, talvez até maior, porque ele estava em constante expansão. Eu incorporava uma música por dia ao meu repertório, sempre de um artista diferente. Cresci e ganhei MP4, MP5, iPod. E a música me ensinou métrica, idiomas novos, rimas e uma infinidade de outras coisas. O melhor que aprendi foi a jogar tudo o que se passava na minha cabeça em um papel e botar uma melodia bonita - o que acontecia era que as pessoas amavam escutar meus problemas e dúvidas. Fiz amigos, com a música. Amigos que tinham os mesmos problemas e dúvidas que eu. Arranjei namorada cantando. Quando casei, entreguei à minha noiva a lista de músicas pronta, todas especiais. Diferentes. Devo tudo a ela, à música. A palavra, em si, e o seu significado. Ah, a música. Ela é tão sonora.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Instintos

Acordei suando. Liguei para a minha namorada às 3h da manhã, e ela estava na casa de uma amiga. "Saiam daí agora", esbravejei. Ela não entendia. Ficou brava comigo por eu ter sido grosso, me chamou de superprotetor, controlador, doentio e muitas outras coisas. Pedi com carinho, implorei, ela não me ouviu. Saí de samba-canção do meu prédio e pedi emprestado o carro da vizinha (que também não ficou muito feliz por eu tê-la acordado). Dirigi como um louco, sem respeitar nenhuma lei de trânsito. A vizinha, que tinha insistido em ir comigo, para acompanhar o carro, estava em prantos porque eu dirigi de olhos fechados o caminho inteiro. "Onde estamos indo?", ela perguntava, aflita, e eu respondia, com honestidade, que não fazia idéia. Quando os instintos mandaram, parei o carro e puxei o extintor de incêndio debaixo do banco. Esmurrei a porta até a maçaneta ser quebrada, subi as escadas. Abri a porta do quarto de onde o barulho vinha. Minha namorada e suas duas amigas gritaram e ela brigou comigo. Quando me disseram que estavam sozinhas em casa, mandei que todas entrassem no carro, rápido, e entrei também. "Confiem em mim, só dessa vez", pedi. Dei a partida e me afastei o máximo que pude.
Gritaram quando ouviram a explosão. É, acho que, a partir daquele dia, elas não duvidariam mais dos meus instintos.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Imutável

Morava sozinha na Alemanha. Longe dos pais, irmãos, primos, amigos. Longe da feijoada dos sábados e do churrasco dos domingos. Longe das peladas com os meninos da vizinhança durante as férias. Longe das gírias idiotas e dos cajueiros. Falava outra língua, tinha outros amigos, trabalhava para garantir a faculdade. Estudava para garantir que algum dia voltaria ao Brasil e depositaria na conta bancária dos pais todo o dinheiro que eles investiram na mudança de continente da filha. Sentia falta do céu azul e das pessoas de bermudas Mormaii e Havaianas. Mas a gente sempre arranja paliativos pra saudade.. Toda sexta-feira, ela fazia uma pequena xícara de café Pilão, que trazia, em grande quantidade, cada vez que ia para casa, e se acomodava na cama para assistir no YouTube um samba, um episódio do Jô ou umas vídeo-cacetadas. Aquele era o prazer garantido, fixo, confortável. Imutável. Café quente, lençol limpo, vida renovada.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Sobre Cotas

Não sou negra, sou branca. Não sou deficiente, nem física e nem mental. Não sou indígena. Em hipótese alguma, as leis federais me concedem o direito de ingressar numa faculdade fazendo o uso de cotas. Também não sou pobre e nem estudo em escola pública. E se eu fosse negra, mesmo sendo rica e tendo um alto nível de potencial, poderia usar as cotas para entrar em uma faculdade, só para me valer dessa facilidade. Se me faltasse um dedo, se eu tivesse uma perna mais curta que a outra, eu poderia usar as cotas também. Mas se eu fosse uma pessoa branca, em perfeitas condições físicas, e pobre, sem condições para pagar uma escola ou faculdade particular, não teria direito a cotas.
Não sei qual é o sentido que isso faz. Tem gente por aí que estuda nas escolas públicas do interior, e, independente da cor e da quantidade de dedos ou comprimento das pernas, é muito mais bem instruída do que gente que tem todas as condições financeiras necessárias para ter um nível de instrução astronomicamente maior. Porque quem quer estudar estuda em qualquer lugar.
As cotas devem existir, sim. Mas não do jeito que existem agora, para todos os negros e todos os indígenas e todos os deficientes. Desse jeito, elas não estão ajudando, e sim, atrapalhando. Estão abrindo brechas para quem quer se aproveitar da facilidade de não precisar passar em um vestibular para estar na faculdade. As cotas devem ser separadas de acordo com a renda mensal de cada um, independente da cor, porque não existem escolas próprias para negros ou brancos. E nem todo tipo de deficiência deveria ser admitido, pelo simples fato de que certas deficiências são sinônimos de incapacidade, e outras não. Se eu tivesse uma perna mais comprida que a outra, seria deficiente e teria minha vaga em muitas universidades garantida, sem ter nenhuma incapacidade. E isso seria extremamente injusto com quem realmente tem algum tipo de deficiência e que precisa das cotas.
A última frase do parágrafo anterior me fez pensar que ninguém realmente precisa de cotas. Afinal, deficientes mentais, que seriam incapazes de passar em um vestibular, seriam capazes de passar em todas as matérias da faculdade? E, mesmo se passassem, seriam eles capazes de exercer serviços de qualidade no mercado profissional? E os negros, que nunca tiveram condições de pagar por cursos de inglês e escolas particulares, não seriam capazes de pegar emprestados os livros de uma biblioteca municipal e estudar com base neles? Nos Estados Unidos, tem gente que nunca foi à escola, que foi educada em casa, e cresceu na vida tanto quanto ou até mais que quem foi. No Brasil, isso só não acontece porque é proibido.
Só posso afirmar, com certeza, uma coisa: quando as cotas não existiam, todo mundo ingressava na faculdade pelos mesmos meios, e só conseguiam os que eram capazes. E o nível de escolaridade e as condições financeiras não determinam o nível de informação.

O outro gume da faca está aqui.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Uma Mente Brilhante


Por favor, cliquem no player acima para escutar a canção All You Need Is Love e aguardem alguns segundos para ler o texto enquanto a escutam. Obrigada!

Fugitivo de alta periculosidade, Kurt tinha só vinte e três anos, mas era, sem dúvida, uma das mentes mais brilhantes que os policiais já tinham visto. É que, quando mentes brilhantes são voltadas a propósitos ruins, elas se tornam muito mais perigosas do que mentes normais. Kurt era procurado em todos os cinquenta estados americanos, mas ninguém nunca sabia onde ele estava. Não seguia um padrão, talvez fosse esse o grande problema. Ia de um lado para o outro, como se fizesse sorteios para saber onde seriam os próximos crimes e como e contra quem eles seriam cometidos.
Um dia, por coincidência do destino, ele apareceu no lugar errado, e na hora errada. Tentou assassinar a esposa de um policial, que, por acaso, faltara ao trabalho naquela noite. Em minutos, Kurt estava preso.
Como não se sabia ao certo por quantos assassinatos culpá-lo, ele foi submetido a trabalho voluntário e dez anos. Se o comportamento fosse bom, o tempo diminuiria. O começo, claro, foi um pouco difícil. Houve alguns olhos roxos, alguns dentes quebrados, algumas violações de privacidade. Mas Kurt era uma mente brilhante, e não um exímio lutador, então, com o tempo, aprendeu a evitar esse tipo de problema e isolar-se um pouco mais. Os anos se passaram; cinco, seis, sete.
Os presos estavam fazendo fila para descer ao pátio e capinar o mato, e ele correu escadas acima, até o terraço do prédio, com um alto-falante.
O caos instalou-se. Os agentes carcerários chamaram reforços, e, logo, o presídio estava cercado por carros da polícia, tiras armados e helicópteros. Só não houve tiros porque uma autoridade que estava presente deu ordens para que todos esperassem para ver o que Kurt faria. E ele cantou, batendo os pés no chão com ritmo:
"All you need is love! All you need is love! All you need is love, love, love is all you need.."
Cantou a música inteira, de olhos fechados, batendo os pés e sem se importar se seria condenado a prisão perpétua por aquilo. Aos poucos, todos começaram a cantar também. Foi um evento único. As pessoas que passavam por ali paravam e ficavam fascinadas. Todos cantaram junto, e tudo em volta do presídio tornou-se música.
O presidiário soltou o alto-falante no chão, desceu as escadas e voltou ao trabalho, como se nada tivesse acontecido. Os reforços e visitantes curiosos foram embora, os agentes carcerários ficaram relaxados e os outros presos passaram o dia inteiro com a música na cabeça. Ele aproveitou a descontração para cantar junto, bater com um tijolo em um dos agentes, trocar de roupa com ele, sair pelo portão principal e desaparecer de novo.
Fugitivo de alta periculosidade, Kurt tinha só vinte e três anos, mas era, sem dúvida, uma das mentes mais brilhantes que os policiais já tinham visto.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Quintal

Tratava-se de um universo onde pequenos homenzinhos com sapatos octogonais andavam de skate em folhas de cajueiro. Eles enfiavam canudinhos nos cajus que os passarinhos traziam de cima das árvores para poder almoçar. Viviam só de frutas, no caso, aquelas que o dono da cidade que habitavam cultivava: caju, goiaba, ata e jambo. Tratava-se de um universo onde tanto fazia o tom de pele, a crença e a religião, essas eram coisas que não se discutia. Todos eram iguais, feitos de carne e osso e trabalhando em prol da mesma coisa: o bem de Quintal.
Eles fugiam quando vinham aqueles gigantes dar banho nas plantas com um tubo que soltava água. Escondiam-se quando aquele monstro marrom ficava solto, à noite, cavando buracos e desenterrando as leguminosas que os homenzinhos plantavam. Entravam em seus prédios, situados dentro da casca de cada árvore, e esperavam a chuva passar. Alguns colhiam a água em folhas para armazená-la: aquelas gotas eram tão grandes que cada uma delas servia a população inteira por uns 3 ou 4 dias.
Para o Natal, eles enchiam as árvores de vaga-lumes, e, para o ano novo, se vestiam com pétalas de jasmim.
Um dia, um homenzinho curioso andou até além dos limites de Quintal. Ele descobriu um chão duro, branco, que os gigantes chamavam de Varanda. Uma cidade vizinha. Que tipo de leguminosas se plantava naquilo? Ele continuou indo adiante, e viu uma grande estrutura de um material desconhecido que parecia abrir e fechar, quando necessário. O monstro marrom estava lá, e alguém gritou "tirem o Tigre do portão!", o que o ajudou a constatar que aquela estrutura chamava-se Portão.
O homenzinho passou por baixo de Portão. E não houve palavras para descrever a surpresa dele quando passou uma coisa enorme e vermelha, com rodas. E havia mais uma cidade, com o chão quente, que, como ele ouviu, se chamava Rua.
Ele passou um tempo nessa cidade longínqua, chamada Rua, desvendando seus mistérios e aprendendo suas manhas. Quando voltou a Quintal, ele inventou o Dispositivo de Rolagem, em Rua conhecido como "roda". Nome muito simples para objeto muito complexo. Inventou, também, o Aparador de Chuva Multifuncional, em Rua conhecido como "guarda-chuva". Em Quintal, usava-se esse objeto para 1) proteger-se da chuva 2) armazenar gotas de água e 3) defender-se de Tigre.
Aquele homenzinho tornou-se o novo governante de Quintal, e governou durante toda a sua vida. Quando estava prestes a morrer, levou um pupilo a Varanda e a Rua para que ele aprendesse como se faz no mundo afora. Ensinou que não importa o quanto a gente imagine, ainda tem muito mais pra imaginar. Considerando o tamanho do universo, seria uma boa idéia expandirmos um pouco a nossa visão.