quarta-feira, 12 de abril de 2017

O zoológico do tempo

Poucas pessoas sabem, mas hoje me senti à vontade para compartilhar a história da pior forma de tortura que já existiu: o zoológico do tempo.
Foi uma ideia peculiar... 
Acho que uma boa introdução seria dizer que, em vez de carrinhos de comida, algodão doce e lembrancinhas, o zoológico do tempo vendia atendimento psicológico e psiquiátrico, lenços, remédios para dor de cabeça, chocolate e abraços.
Isso, porque, apesar de parecer um zoológico comum, as jaulas onde deveria haver animais guardavam algo que prendia muito mais a atenção. O que havia dentro delas era uma imagem individual e íntima: cada um via a si mesmo, nas cenas em que fez alguma coisa da qual se arrependia. A diferença era que, dentro dessa jaula, o indivíduo optava por outra opção.
Podia ser um insulto a um colega ou um assassinato: em cada jaula, havia um arrependimento diferente, em ordem cronológica: mais perto da entrada, os arrependimentos mais antigos, e, perto da saída, os mais recentes.
As cenas se repetiam dolorosamente enquanto o indivíduo aguentasse ver. Eram poucos minutos de duração, suficientes apenas para mostrar exatamente o que afligia o espectador. Entretanto, não era possível ver como o futuro teria sido caso se tivesse tomado a decisão mostrada na jaula.
O zoológico era todo construído em linha reta, mas o caminho psicológico era extremamente tortuoso, e a penosa caminhada poderia durar minutos ou horas - dependia do quanto cada um estivesse disposto a revisitar seus fantasmas mais profundos.
Mas o mais forte eu deixei pra contar no final. A última jaula não era bem uma jaula: ela era um túnel, pelo qual era necessário passar para poder chegar à saída do zoológico.
Era a única visão diferente das outras. Em vez de ver os arrependimentos, cada pessoa via um resumo de todas as coisas boas que resultaram das decisões contrárias às que as jaulas mostraram, as decisões que haviam sido tomadas na vida real e geravam arrependimento. Entretanto, novamente, não era possível saber se essas coisas teriam se tornado reais caso as escolhas ao longo da vida tivessem sido outras.
No portão de saída, em letras douradas, estava escrita a frase:
"Você está onde deveria estar"
Apesar de ser torturante e perturbador, o zoológico do tempo não foi imaginado para fazer mal a ninguém. Ele foi idealizado por um psiquiatra que pensava não ter arrependimentos, que, genuinamente, acreditava ser o senhor de suas condições emocionais.
Um dia, porém, este homem decidiu entrar no zoológico, por pura exploração de seus próprios limites. 
Os fantasmas do psiquiatra fizeram com que o zoológico fosse fechado à visitação no dia seguinte; depois de três semanas, o homem que acreditava ser o senhor das próprias condições emocionais cometeu suicídio. 
E cá estou eu, depois de descobrir que ninguém nunca domina a si mesmo. 
Criei o Zoológico para que as pessoas pudessem revisitar suas dores mais profundas e perceber que as coisas que acontecem são aquelas que devem acontecer.
Mas minha ideia nunca funcionou, e, tivesse eu sido um pouco mais perspicaz, saberia que meu experimento jamais poderia funcionar.
Isso, porque cada decisão, desde o momento infantil em que se decide comer ou deixar de comer a papinha que a mãe oferece, até as decisões de adulto, como casar-se, divorciar-se, demitir-se e outras da mesma sorte, influencia demais em todas as outras.
Só quando fui atacado e vencido pelos meus próprios fantasmas, eu entendi que o mundo não é de sim-ou-não. Assim, as decisões se multiplicavam em infinitas vezes para cada jaula. Havia infinitas combinações. 
A alma humana não foi feita para infinitas combinações, essa é a minha conclusão final.
E só então, eu pude compreender o que realmente significava a frase "você está onde deveria estar", que eu mesmo escolhi para o portão.
A combinação que foi feita (mesmo que não tenha sido a que você escolheu), no fundo, era a única combinação possível. E essa é a lição póstuma que eu aprendi como psiquiatra.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Significados

Há muito se fala em paixão como um momento inicial que pode levar ao amor. Que o amor, mesmo na falta de paixão, mantém os casais juntos.
Por não gostar de acreditar que possa haver amor sem paixão, nem que uma paixão possa começar se não houver algum tipo de amor, hoje trago uma nova teoria.
A teoria da inquietude e da constância.
A inquietude seria o momento inicial, as famosas borboletas no estômago, o coração acelerado, toda aquela ciência relatando a atuação do sistema nervoso simpático, da liberação de endorfinas. 
A constância... Amigues, a constância... Essa é na verdade um sinônimo do amor (com os meus olhos de hoje, que talvez estejam terrivelmente enganados, mas no momento enxergam isso como verdade absoluta). Não pode haver amor sem constância. Constantemente, querer a companhia, o cheiro, as palavras e a liberdade de analisar desde o formato das unhas do pé até os movimentos dos músculos dentro da pele de alguém. 
Constantemente, querer cancelar todos os compromissos quando alguém pede companhia. Constantemente, trocar toda a vida lá fora por mais 15 minutos dentro do abraço de alguém... Constantemente se perguntar o porquê de não podermos congelar o tempo em qualquer momento em que estejamos com alguém.
A constância e o amor, amigues, acredito, vivem uma condição sine que non recíproca.
Muito se tenta explicar sobre o amor. Mas minha visão, com simplicidade, com olhos de quem muito recentemente o descobriu escondido em um turbilhão de coisas que eu acreditava que o eram, mas que na verdade o mascaravam, é pequena. Minha visão não é sobre fogo que arde sem se ver, nem de livro, sorte, pensamento ou teorema. Minha visão é que o amor é constante. 
Assim como se define qualquer coisa, acredito que no dicionário essa definição deveria constar, e que isso seria suficiente para fazer-se entender.

Amor /ô/ substantivo masculino
1. Constante

Biologia de você

Tudo na sua vida vai ser sobre você.
As suas papilas gustativas têm uma percepção diferente de todas as outras do planeta. Assim como seus olhos, seu nariz e cada receptor da sua pele. 
A sua mente se organiza diferente de todas as outras do planeta.
Mesmo quando parecer que você entende alguém - e você entenderá se estiverem falando o mesmo idioma -, você nunca vai compreender exatamente o que aquela pessoa quis dizer. E o mesmo vale para você.
As discussões por pontos de vista não vão nunca chegar a uma resposta certa, porque a cor é uma característica da luz e não do corpo; a luz, por sua vez, depende dos olhos de quem vê. É física. 
Tudo na sua vida vai girar em torno de você. A sua percepção sobre os seus pais, sobre os seus filhos, sobre todas as pessoas que um dia cruzaram seu caminho torna impossível que você conheça alguém por completo em todo o decorrer da sua vida. Você é incapaz de olhar para os outros sem a lente dos seus olhos. A lente do seu eu. 
Ainda assim, como Voltaire, não concordar com o outro não te impede de defender o direito do outro de emitir a opinião. E as suas lentes em nada interferem no seu altruísmo, na sua solidariedade. As suas lentes, suas papilas gustativas, seu nariz, seus receptores, nada disso se sobrepõe à sua capacidade de percepção da única coisa em que você é igual a todas as pessoas do planeta, a sua humanidade.
A sua boca tem a mesma origem embrionária da pessoa ao seu lado e carrega os mesmos genes independente de que informações esses genes trazem.
E isso é verdade para o seu corpo todo.
Incluindo o seu cérebro.
O que você vai fazer com a sua mente?


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Polissíndeto

Criança com imaginação fértil que era, Laura imaginava uma história para tudo o que aprendia, tudo o que via.
Com o passar dos anos, suas experiências imaginárias poderiam tornar-se livros de crônicas. Ela havia viajado e conhecido intrigas e conquistas de todas as aulas de história que assistira, e conhecido histórias do descobrimento de cada detalhe da geografia, da invenção de cada fórmula da construção de toda a tabela periódica, dos filósofos, sociólogos e havia se colocado no lugar de cada pintor que conhecera nas aulas de artes, tentando sentir o que eles haveriam sentido em suas épocas.
Porém, ela não gostava de português.
Eram só regras, cada qual com suas muitas exceções, análises sintáticas que julgava inúteis. Não entendia como poderia haver uma interpretação correta para cada texto - já que acreditava que cada texto era uma autointerpretação do autor,e assim, de interpretação subjetiva para cada leitor.
Até o dia em que teve uma aula sobre figuras de linguagem.
E ela descobriu que cada figura de linguagem era um resumo da vida em si.
Quantas metáforas cabem em uma frase apaixonada dos antigos escritores barrocos para tentar descrever seu amor? Quantas comparações faz uma criança tentando explicar seu mundo dentro de seu conhecimento? Quantos pintores nos trazem à mente a sinestesia? Quantas catacreses nos fazem esquecer o real nome dos objetos? Quantas vezes não nos importa o nome do livro, desde que ele seja um Machado de Assis?
E a vida, e sua continuação infinita, e a finitude de cada ciclo de existência, e cada viagem imaginária ou não, e as dores, e os amores, quantos polissíndetos se encaixam neles?

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Reflexão

É uma coisa engraçada, a nossa confusão. Nossos conflitos internos. Como metade da gente diz que alguma coisa não é nada e a outra metade quer pegar qualquer coisa que estiver pela frente e tacar no chão. Como metade da gente só quer deixar passar e a outra metade quer espernear. Como o humor muda ao longo do dia, como o pensamento devaneia, como tudo parece pior para a metade dramática. Por outro lado, a metade desapegada parece ser aquela em que todo mundo se confia para sacanear... Então a dramática passaria de dramática para justa, porque apesar de devermos ser altruístas, isso não quer dizer que devemos nos tornar tapetes.
Porém, não ficar no chão não quer dizer também que devemos ser telhados. É difícil encontrar um meio-termo de resolução do conflito interno na hora de externalizá-lo, porque tapetes e telhados não chamam atenção. Como são engraçados os nossos conflitos internos.

domingo, 2 de agosto de 2015

Quem você é

Escrever é um trabalho de lavagem da alma. Com as palavras, você tem o poder de convencer o cético, educar o leigo, cativar a todos. Ao mesmo tempo, porém, a escrita pode se virar contra o escritor e se tornar um fado, uma angústia, um sofrimento. É que muita gente não entende como se dá o processo de amar as palavras - e que escrever nada mais é do que interpretar a si mesmo.
A ideia brota como uma plantinha regada e depois toma formas variáveis como fumaça de incenso. Então, ela passa a ser uma grande árvore, talvez... Talvez uma acácia, enorme, majestosa. O largo tronco é a ideia principal. Os muitos galhos são os possíveis caminhos que as palavras podem seguir. Depois de decidir por onde conduzir o texto, ele perde as variáveis. Nesse ponto, veja a ideia como se estivesse vendo um filme. Ela precisa passar na sua cabeça em todos os detalhes sobre os quais você pensou.
Quando se escreve a ideia - atente aqui à minha intrínseca sugestão de só fazê-lo depois de ter todo o texto pronto na cabeça, e digo isso porque, na fase de árvore, é muito fácil se perder nos galhos e depois olhar para um texto que não desenvolveu todo o seu potencial - ela passa a ser um diamante bruto. Diamantes brutos podem ser valiosos, mas ainda não o são. São opacos quando retirados da terra como as ideias quando retiradas da sua mente.
O seu texto, depois do ponto final, precisa ser lido e imaginado várias vezes antes de estar pronto. Essa parte é como escolher feijões: exige atenção e paciência.
Lapidar o diamante, ao pé da letra, significa reduzir sua rugosidade, mas o processo exige que se saiba onde ele pode ser alterado. Assim acontece com o seu texto, que precisa ficar lisinho, agradável, e com você, que precisa ter todo o cuidado do mundo para não lapidá-lo no lugar errado.
Para escrever, além, claro, de todas as regras e dicas que se aprende na escola, existe uma condição sine qua non: ler. Para desenvolver o faro das ideias boas, aguçar a sensibilidade às palavras, aprender a lapidar textos com maestria, é preciso ler. É uma tarefa de humanidade aprender para si a arte que transformou a pré-história em História e tornou possível acumular conhecimento infinitamente.
Por fim, batize seu texto. Conheça-o profundamente e escolha um título que sintetize a ideia principal, mas que, ao mesmo tempo, não a entregue (saber o final do filme antes de assisti-lo estraga tudo, não é?), para instigar curiosidade no seu leitor. Escolha o nome do seu texto com o cuidado que você escolheria o nome dos seus filhos. É um caminho sem volta.
No fim das contas, escrever exige compreensão. As ideias são fugazes, a inspiração nem sempre vem quando você chama, as palavras podem trair. Porém, uma vez entendida a arte, olhar para o texto pronto e lapidado, galanteador, convincente e poderoso, forte como um diamante, brilhante sob qualquer ângulo, causa uma certa pompa. Quem se impressiona com suas palavras, no fundo está admirando quem você é.

sábado, 1 de agosto de 2015

Uma comprida história

É um dia de sol na São Paulo que é lar de mais de 11 milhões de pessoas. Olhando mais de perto, encontramos uma Helô - que costuma ser serelepe e radiante - triste e confusa a ponto de esbarrar em várias pessoas na rua por desatenção.
Depois de finalmente chegar na estação certa (tendo errado duas vezes a entrada e ainda tentado embarcar no metrô com o bilhete do trem), ela se senta em uma cadeira e chora em silêncio para o celular. 
Para sua surpresa, depois de alguns soluços, recebe um cutucão delicado no ombro.
- Desculpe. Estou te vendo muito triste. Queria dizer que se você precisar conversar estou aqui.
(É importante salientar que ela não conhecia esse homem.)
- Desculpe, não me sinto à vontade para chorar minhas dores a um estranho.. Mas obrigada.
Após mais um tempo de angústia, foi interrompida de novo.
A tristeza de Helô encontrou conforto para transbordar nessas palavras. Assim, ela contou ao estranho como se deram todos os seus problemas e tudo o que parecia ser importante para que ele pudesse tentar ajudá-la. Por coincidência, os dois desceram na mesma estação do metrô e tiraram mais alguns minutos para essa sessão terapêutica. Quando ela conseguiu parar de chorar, ganhou um perfumado abraço, agradeceu e cada um pôde seguir seu caminho.
Todas as noites que se seguiram trouxeram a Helô a curiosidade de saber o que faria um anjo como aquele estranho se interessar em ouvir uma mulher se queixar da vida (um homem! Com vontade de ouvir uma mulher se queixar da vida!) sem perguntar detalhes que um sequestrador perguntaria caso quisesse feri-la posteriormente. Sem julgar, sem banalizar, ouvindo atentamente e tentando ajudar. E cada dia mais, ela sentia vontade de saber algo sobre ele, de fazer dele algo mais além do estranho do metrô. Porém, em uma cidade tão grande, quais as chances de rever uma pessoa ao acaso?
As semanas se passaram e se tornaram meses.
E agora vamos para uma São Paulo de chuva, onde, a pé, anda o sem sorte Eduardo, que esqueceu de sacar dinheiro e não conseguiu comprar capa de chuva com cartão de crédito. Além disso, ele está atrasado para o trabalho, não consegue pegar um táxi porque ninguém quer levar um homem ensopado e sua mochila não é impermeável - e guarda um computador.
Eduardo entra na primeira cafeteria que vê, para se proteger da chuva, se esquentar com um café e tentar secar o computador. Senta em uma mesinha no canto, abaixa a cabeça e massageia as têmporas.
- Acredito que de todas as pessoas para as quais poderíamos chorar as nossas dores, uma estranha disposta seja a melhor. Vou te escutar, te acalmar e depois nunca mais vamos nos ver.
Dessa vez olhamos para uma Helô decidida a fazer da última frase uma mentira, um Eduardo disposto a aceitar e uma comprida história começando.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Dentro da porta

Era uma vez uma porta no meio do nada, que não estava apoiada em parede alguma. Ninguém sabia quanto tempo fazia que ela estava ali e nem como lá chegara: desde que o mundo era mundo, aquela porta estava calmamente equilibrada sobre sua fina madeira e resistente a todo tipo de catástrofe natural como se fosse protegida por material invisível. Ao encostar na maçaneta e puxar a porta para ver aonde ela levava, cada pessoa via uma coisa diferente. Os boatos contavam que seriam universos paralelos, ou alucinações de quem tocasse a porta, espíritos, magia negra, ilusão ótica, buracos de minhoca (para os fãs de Stephen Hawking).
Os anos se passaram e as imagens que as mesmas pessoas tinham de dentro da porta foram mudando. Cada um via uma coisa diferente.
O segredo era que cada um via um universo onde todas as pessoas se comportavam como o observador. 
Todo tipo de inferno já foi visto por através daquela porta. Também todo tipo de paraíso. Essas afirmações se tornam verdadeiras a partir do momento em que se considera o inferno e o paraíso subordinados aos conceitos de cada um.
O que você gostaria de ver se puxasse a maçaneta?

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Codinome

Inspiração 
É o beijo de bom dia,
É o olhar profundo que diz
Coisas que nenhum outro diz,
Que relampeja sentimentos
No coração 

Inspiração são mãos dadas
Perguntar se tudo está bem
E se certificar de que,
Se não estiver,
Ficará
De que ela sempre esteja acompanhada 

Inspiração é o sorriso
De sol,
Que, dos marinheiros perdidos,
Navegantes de águas temerosas,
Seria o tão esperado
Farol

Inspiração é o beijo no pescoço,
Que faz fechar os olhos,
Que causa arrepio...
É expirar pesadamente
Com a boca
Sem sentir frio

Inspiração é o encaixe
Perfeito do abraço, 
É o desafio estabelecido
A todas as condições 
De tempo e espaço 

Inspiração 
É dormir abraçado,
E abraçar dormindo,
E acordar sem levantar
Pra passar o dia na cama,
Abraçado e sorrindo

Inspiração é o combustível 
Do escritor
Para viver os dias,
É a palavra mais linda
Que já se disse
Sobre amor




domingo, 5 de julho de 2015

Um caso de amor

Era uma vez um alpinista. Ele amava o que fazia mais do que tudo dentre todas as coisas que conhecia e as que poderia vir a conhecer.
Depois de ter sofrido um sério acidente e ter passado meses acamado se recuperando, ele decidiu parar de buscar aventuras, mesmo sabendo que algum dia voltaria a escalar (porque quem ama precisa praticar o amor). 
Então, uma montanha nova começou a tentá-lo. Ela parecia ser gentil, apesar de ele saber que seria uma caminhada inóspita e cansativa. Ele resistiu. A montanha parecia chamá-lo, tentando-o, brincando com seus sentimentos como uma mulher ingrata seduz um homem sem intenção de ceder, sabendo que ele a ama. 
Como todo homem apaixonado, este também se deixou seduzir. Aceitou a ingrata montanha de braços abertos, juntou equipamento e começou um longo caminho. 
Nos primeiros dias de escalada, o alpinista se perguntou por que em algum momento ele deixou de escalar. Aquele sentimento era de liberdade, de segurança, força e potência. Escalando aquela montanha, ele poderia fazer qualquer coisa. 
Porém, em qualquer relacionamento, nem tudo são rosas. A neve era densa e a comida, escassa. O cansaço chegou e o relacionamento com a montanha deixou o alpinista, antes apaixonado, confuso, fraco e com esperança de ser levado pela morte o mais logo possível para que aquele sofrimento finalmente tivesse um fim.
Na impossibilidade de morte, ele não teve outra saída senão continuar escalando, vagarosamente e cheio de dúvidas e incertezas. E assim, os dias se seguiram. 
Como alguém sempre tem que ceder, um dia, isso aconteceu. Ao chegar em determinado ponto, o alpinista entendeu o porquê de ter sido enviado àquele lugar e de ter sobrevivido em meio à insalubridade. O céu se abriu e mostrou a que altura aquele homem estava, em uma profundidade intangível e soprado pelo vento feroz, puro e gelado, acariciando o maltratado rosto do alpinista emocionado. Era como se a montanha estivesse se redimindo, como se ela estivesse lhe oferecendo rosas, pedindo compromisso, esperançosa de ser perdoada pela malcriação.
Naquele momento, não se tratava mais de um esportista trabalhando. Era uma história sobre um homem apaixonado e uma fera domada. Alguém que, por definição, é alpinista, só pode receber de braços abertos o pedido de desculpas de uma montanha outrora indelicada.