sábado, 15 de dezembro de 2012

Mundar o Mundo - parte III


Um adolescente enraivecido e rebelde, que queimou todos os seus livros, comprou, um dia, tinta colorida em spray. "Livros não mudam o mundo!", ele escrevia nas paredes. "LIVROS NÃO MUDAM O MUNDO!", ele gritava para que todos escutassem. Tantas vezes ele o fez, que acabou acreditando na própria pregação. Assistia filmes dublados para não ter que ler legendas e dispensou a faculdade para tocar numa bandinha de alguma coisa alternativa chamada Mundanos Imundos.
Um dia, andando pela rua, o protagonista dessa história foi parado por um executivo. Ele era negro, alto e forte o suficiente para ser boxeador. "Dei um soco em você uma vez", o homem falou.
Os dois partilharam a história, da parede na frente do banco, de uma gangue pichando sobre livros nas paredes de São Paulo. "Livros não mudam o mundo", era o que o protagonista se lembrava.
"Uma pena que a frase estivesse incompleta", lamentou-se o executivo.

Mundar o Mundo - parte II

A história continua alguns anos depois, quando a criança sedentária acabara de se transformar em um adolescente preocupado em mudar o mundo, engajado em projetos sociais. Ele estava sentado em uma calçada, lendo Kafka, quando viu cinco marginais picharem em uma parede branca recém-pintada:
"Livros não"
Como todo bom adolescente preocupado em mudar o mundo e engajado em projetos sociais, este veio explicar aos marginais que não se deve pichar paredes. Depois de um leve soco no nariz que o derrubou no chão, ele ficou sozinho com a parede pichada.
"Livros não mudam o mundo!"
A lembrança veio forte como se tivesse acontecido no dia anterior, de uma parede na frente do banco, de cinco marginais, da mãe reclamando do Brasil. A charada da infância inteira! Era aquilo? Que livros não mudam o mundo?
Kafka acabou ficando jogado aos pés da parede.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Mundar o Mundo - parte I

Essa é a história de uma criança obesa, sedentária, dessas que pensam que livros são feitos para grudar meleca de nariz e as palavras são de enfeite. Ele acordava, dirigia-se à sala de estar e assistia televisão. Depois do almoço, jogava, em seu videogame de última geração, alguma coisa violenta em que ele fosse o dono do mundo.
Um dia, essa criança estava fazendo bolinhas de meleca de nariz e grudando no banco do carro enquanto esperava a mãe voltar do banco. Cinco marginais apareceram e picharam a parede:
"Livros não"
A mãe voltou, sentiu repulsa da cena e comentou que por causa de gente como eles o Brasil não ia para a frente. Ela ficou feliz de ver que o ato de vandalismo tinha sido interrompido por policiais e a frase que seria pichada ficou incompleta. Na cabeça daquela criança, formou-se uma charada.
Ele anotou as palavras num papel que ficou colado na porta do quarto.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Sentido

Acordar seria dormir, e dormir seria acordar; não os conceitos trocados, só o significado relativo. Acordar seria entrar em um estado de sonho, onde somos donos das nossas vontades, temos ambições e vemos as coisas irem e virem, e dormir seria a realidade, em que as coisas sempre acontecem de um jeito diferente. Faz sentido, a vida não ter que passar tão rápido. Faz sentido, o céu nem sempre ter que ser azul, e a gente poder morrer mais de uma vez. Faz sentido não fazer sentido nenhum. Uma vez escutei alguém dizer que o sonho é a vida e a vida é o sonho, e, parando para pensar, por que não?

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A Diabólica Comédia

Nasceu loira, de olhos azuis, bochechas rosadas. Sempre foi a primeira da turma. Virou modelo. Cursou medicina, fez mestrado, doutorado, pós-doutorado e ganhava facilmente meio milhão por mês. Casou, teve dois filhos, comprou um cachorro, morou em sete países, aprendeu vários idiomas e gostava de passar férias na Riviera Francesa. Quando atingiu os cinquenta anos, linda, rica e realizada, descobriu que era esquizofrênica e sofria do mal de Alzheimer. Todos os dias, as vozes que escutava em sua cabeça tinham que lembrá-la de quem era. Um dia ela era advogada, mãe de três e viúva, e no dia seguinte, era engenheira, solteira, sem filhos; no outro, era uma empresária divorciada que criava uma filhinha, e assim passava os anos. Perdeu os pais ("Mas meus pais morreram quando eu era bebê!"/ "Santo Deus, minha mãezinha.."/ "Eu tenho certeza de que eles foram assassinados!"). Tentou matar o filho mais velho, acusando-o de servir carne humana no jantar ("Sou médica há 30 anos e você quer que eu acredite que isso é carneiro?"). Decidiu parar de tomar banho porque o chuveiro pingava minhocas ao invés de água. Quebrou todas as louças. Virou viúva de verdade, mas nunca parou de conversar com o marido que sentava na cadeira de balanço da varanda (nem quando a cadeira de balanço não estava mais lá). Um dia, aos oitenta e três anos, decidiu que estava sendo perseguida, encontrou a perseguidora e deu vários tiros nela. No dia seguinte, um dos filhos encontrou um espelho quebrado, uma arma descarregada e a mãe morta no chão.

domingo, 7 de outubro de 2012

Procurado

Era procurado em todos os lugares do mundo. Negro, alto, forte e gatuno, ele assassinava as vítimas a sangue frio e ia embora como se nada tivesse acontecido. Sem rastros. Não pensava em estratégias - essa era a melhor estratégia, em sua opinião. Anos e anos se passavam, e a coleção de casos arquivados cometidos por ele crescia. Como ele se safava de todas as autoridades? Voltando onde elas já tinham procurado. Nesse momento, ele está fumando em cima do gramado onde desovou sua primeira vítima. Era procurado em todos os lugares do mundo, menos no exato lugar onde estava.

domingo, 16 de setembro de 2012

Mãe dos Ventos, Serra do Caju

Lá estava, um dia, Deus, bolado na madruga tarde, deitado em uma rede, em algum lugar do universo que os humanos não conseguem imaginar. Ele tinha frio. Estava cansado do frio. Já tinha criado muitos países frios no mundo, e não gostava do branco da neve. Ele queria cores.
Então, um papel voou até sua rede. Era uma receita de bolo. Seus olhos bateram nas últimas linhas: "assar no forno a 280º durante 40 minutos" e "servir quente". Deus teve uma ideia.

Ingredientes:

Trigo do Oriente Médio
Água quente
Iguanas da América Central
Tamanduás do Belize
Ouro da Suméria
Diamantes a gosto
Arroz da Ásia
Buriti a gosto
10 litros de magma recém-colhido
Vento

Modo de preparo

Massa

Bata a água e o trigo no liquidificador até formar uma massa homogênea. Despeje no local desejado da Terra de Vera Cruz e espalhe uniformemente (cuidado para não formar Pelotas). Acrescente iguanas, arroz, buriti e tamanduás aos poucos. Asse ao forno a 280º durante 30 anos.

Cobertura

Bata o ouro com os diamantes e misture com magma. Acrescente poderes divinos para que o magma e a temperatura do forno se mantenham aquecidos eternamente.

Foi uma receita bem-sucedida. Os campos ficaram dourados, o sol parecia ser mais quente e o vento era incessante. O sol era escaldante, e o céu, sempre azul. As iguanas e cajueiros reinaram nas terras durante muitos anos e o povo que foi colocado naquele local vivia de arroz e buriti. O título da receita, ele adicionou depois de viver tudo isso:

Roraima

Dizem que, se você olhar com calma para o céu, pode ver a rede de Deus balançando enquanto ele se bronzeia.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O certo

Hoje ensina-se a posição dos planetas e a composição química dos organismos. Ensina-se a deduzir fórmulas para obter valores. "Latim é uma língua extinta", "Plutão é pequeno demais para ser considerado um planeta", "algarismos romanos não são mais usados convencionalmente". Ensina-se o certo: há alguns anos atrás, ensinava-se que a Terra era quadrada, que os outros planetas giravam em torno da Terra e que a democracia era uma forma falha de governo. Ensinava-se o outro certo. E mais alguns anos atrás, ensinava-se a guerra como forma de demarcar limites e que povos com outras culturas eram bárbaros. Já se ensinou que o modo certo de honrar alguém após a morte é a mumificação, e que o nomadismo é a forma certa de viver, e que os homens devem ser caçadores, e as mulheres, colhedoras. Em todas essas épocas, desde o surgimento do homem até os dias de hoje, os ensinamentos são o certo. O certo, que está e sempre esteve em constante mutação.
Hoje, exige-se que as pessoas saibam distinguir o certo do errado. E os métodos usados para determinar o que é certo e o que é errado são palavras e números que a própria humanidade inventou.
Daqui a dez mil anos, ensinar-se-á o certo. "Todos os 1540 planetas da via láctea giram em torno de Plutão, o planeta mais quente do sistema Plutonar", "Inglês é uma língua extinta", "Naquela época, os carros tinham rodas".
Somos uma sociedade estudiosa, aprendendo o certo sem questionar. Temos dentes na boca porque esse é o certo. E se, amanhã, alguém descobrir que o certo de verdade é ter só a gengiva, e que os dentes são uma anomalia da nossa geração? E se alguém descobrir que água é uma substância tóxica? E se todos os estudos sobre química e física forem falhos?
E se ninguém nunca descobrir nada que contradiga o que sabemos hoje, o certo ainda será considerado mutável?

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Mães, Filhos e Quase-Filhos

"Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

(...) Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei (...)"

Este é o Artigo 5º da Constituição Federal. Ela assegura a todos os cidadãos brasileiros o direito de escolha, o livre arbítrio.
O Código Penal Brasileiro aponta o aborto como atentado contra a vida humana, sem direito de defesa por parte da vítima (o feto abortado).
E é aí que eu vejo o conflito.
Uma mulher que tem dentro de si um feto que ela não quer, e que se tornará um ser humano totalmente dependente dela, na minha opinião, deveria ter a opção de escolher se ela quer ou não dar à luz. Só considero assassinato se o coração já estiver batendo, e isso ainda é repensável.
Uma mulher não quer um filho por dois motivos: 1) Ela não tem condições de criá-lo e 2) Ela simplesmente não quer filhos.
Se for o último motivo, duas coisas podem acontecer: 1) A criança vai para adoção e 2) Ela passa a querer o bebê na hora em que o vê, por questões de instinto.
Se uma criança vai para adoção, ela corre o risco de passar o resto da vida nesta casa de caridade e nunca ser adotada. Ela nunca terá amor paterno. Estas crianças tendem a ter sérios distúrbios psicológicos. Uma mãe que tem condições de criar o filho indesejado não aguenta: ela vai beber, se drogar, e, no fim, vai precisar de cuidados da criança, em vez de cuidar dela. E se ela quiser o bebê, quais são as chances de uma mulher que pensou em abortar criar adequadamente este filho? E se ela não tiver condições financeiras/psicológicas de criá-lo? Quantas crianças, daquelas que vão para lares adotivos, são realmente adotadas? Qual é a dignidade que uma mãe pobre, que não teve condições de pagar um aborto, tem em criar um filho com vermes, que mora na rua e vive abaixo da linha da pobreza? Qual é a dignidade que existe na miséria?
O Brasil é este país onde 4,2 milhões de crianças trabalham, 1,1 milhão não vão à escola e 16,27 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, e a legalização do aborto tem uma grande chance de modificar drasticamente essas estatísticas. Ser mãe não é para qualquer mulher e dar o filho para adoção não vai tirar a maternidade dela. A maternidade é eterna, esteja a mãe com o filho ou não. Na minha opinião, a proibição do aborto fere o livre-arbítrio das mulheres.

O outro gume da faca está aqui.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Dia da Avó

Minha bisavó paterna me contava histórias da viagem de carro do Rio Grande do Sul pra Roraima, nos anos 70, e eu acho que seria capaz de narrar com perfeição esses dezessete dias que nem vivi, se alguém me perguntasse. Ela me servia montanhas de comida no prato e sempre me dava muito chocolate. Ela me alfabetizou e dividimos a paixão por palavras cruzadas.
Minha avó materna é a pessoa que mais me ajuda. Sem ela, haveria situações que eu realmente nunca conseguiria contornar. Ela é bióloga (casa de ferreiro, espeto de pau) e toca piano. Parece rígida, mas, na verdade, é uma manteiga derretida. Nenhuma de nós duas tem senso de direção e, quase sempre, quando saímos juntas, acabamos perdidas.
Minha bisavó materna faleceu quando eu tinha dois anos de idade e a avó paterna faleceu antes que eu a conhecesse, mas tenho certeza que se tivesse convivido com elas veria muitas coisas em comum. Assim como relatei nos parágrafos anteriores.
Bem, tem problemas que os pais não resolvem e situações em que os pais não bastam. É pra isso que servem as avós, aqueles colinhos infinito e cheios de experiência com os quais a gente sempre pode contar.
(Tenho certeza que minha vó não vai ver isso, porque ela só usa o computador pra jogar paciência e fazer pesquisa, mas o que vale é a intenção. Feliz dia da avó!)

sábado, 21 de julho de 2012

Destreza

Tratava-se de uma renomada bailarina clássica, que rodava o mundo em piruetas-promenade; de um virtuoso pianista, que mudava de tom para tom na hora em que quisesse, e de uma fatídica noite em que suas artes se encontraram.
Ela entrou no palco, solitária, de nariz empinado, coque feito e encantos distribuídos.
Ele estava sentado num canto, escondido do público, acariciando com a ponta dos dedos o piano de cauda e contentando-se em moldar a dança dela.
Da ponta das sapatilhas, a bailarina encontrou, atrás do piano, o olhar do músico.
Aquele foi um dia em que o espetáculo não tratava de balé clássico, e muito menos de notas musicais. Sustentando os olhares um do outro, a bailarina girava freneticamente e o pianista tremia os dedos com velocidade pelas infinitas combinações de tecla do piano.
Ao final do espetáculo, a bailarina recebeu uma visita do pianista. Foi tocada por dedos de pianista. Foi complementada por música de pianista. E ela passava as pontas dos pés pelas teclas. Pés de bailarina, mãos de pianista. Porque dois corpos, juntos, têm muito mais destreza do que um só.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Salva-praias

Lá pelos meados da década de 2040, as pessoas perceberam que as marés traziam lixo demais às praias e causavam acidentes demais aos banhistas. O turismo do Rio de Janeiro tornou-se quase inexistente, já que não se podia mais ir à praia, fazendo com que o Brasil e o mundo entrassem em crise econômica e biológica, porque os animais também estavam morrendo com tanta poluição.
Uma mente brilhante inventou os salva-praias, que se tornaram mais importantes do que os salva-vidas. Eram milhares de pessoas que recolhiam, todos os dias, incansavelmente, todo e qualquer lixo humano que fosse trazido pela maré. Era um cargo remunerado pelo governo e que qualquer um que soubesse nadar e enxergasse bem podia exercer.
Logo, as pessoas voltaram às praias e os animais marinhos voltaram a se reproduzir. A economia mundial foi se estabilizando. Os salva-praias continuaram lá, mesmo depois que a maré parou de trazer lixo, para fiscalizar o que os turistas faziam. Elaborou-se uma nova Constituição que incorporou um artigo sobre isso: por lei, cada lixo que qualquer um deixasse na areia da praia equivalia a uma multa de 500 reais (as pessoas só sentem dor no bolso).
Durante essa crise mundial, algumas pessoas achavam que a humanidade nunca se recuperaria, mas estavam erradas. Nos recuperamos por pouco. A partir da década de 2040, os índices de pessoas que praticavam hábitos sustentáveis aumentaram drasticamente para 98%, sem nunca diminuir (em 2099, 100% da população aderiu). A moral da história? A gente só dá valor às coisas quando sabe o quanto nos custaria perdê-las.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Lugar Melhor

Imagine que você pode abrir sua cabeça como se ela fosse uma caixinha, tirar tudo o que é ruim e deixar lá, para só voltar a se preocupar depois. Imagine que você pode encostar em algum lugar e fazer o tempo ficar quietinho e se esquecer de passar.
Bem, eu posso.
Existe um lugar único no mundo, que encontrei há uns meses, onde tudo é possível, e, se não for, não me importa, porque eu poderia passar o resto da vida ali e nunca me incomodar. Não é muito grande, nem muito pequeno; o espaço é o encaixe perfeito para mim, parece ter sido feito sob medida. E tem um cheiro que (nossa senhora!) desafia tudo o que é mundano: cheiro de segurança. O melhor de tudo é que ele reage: me (re)conforta, me esquenta, cuida de mim, me abraça, me enche de beijos e sorri. Um sorriso bem bonito, daqueles de iluminar tudo. Não encontrei ainda lugar melhor do que abraço de namorado!


Hoje faço 8 meses de brodagem com o Vitor.

sábado, 30 de junho de 2012

Dona Silvana




Eu não gosto do Luciano Huck, de jeito nenhum. Mas hoje, assisti ao quadro "Lar, Doce Lar" do programa dele, que estava em visita à família Rodrigues. E isso me fez repensar toda a vida que levo.
Dona Silvana, a matriarca, chorou quando viu o apresentador. As filhas também. Até aí, normal. Mas ele deu uma olhada pela casa e encontrou metas a cumprir, por exemplo "ser mais educada, mais pontual" ou "transformar meu carrinho de açaí num quiosque", e eu, sentada, no bem-bom, reclamando da vida. Dona Silvana contou que perdeu a mãe e foi abandonada pelo marido, catava papelão na rua, e, para se alimentar, pegava as frutas que sobravam no final da feira ("Tenho muita sorte de morar em um país onde sobra muita comida.."). Hoje, a situação melhorou, mas ela cria duas filhas com 300 reais por mês. E as duas vão à escola, uma toca violino, e a outra, violoncelo, e têm noções básicas de inglês. Dona Silvana não tem dinheiro para tratamento dentário, mas tem duas filhas que têm noções básicas de inglês.
Luciano Huck pode ser o que for, mas ele transformou a vida dessas mulheres. Ele reformou a casa onde elas viviam, forneceu tratamentos dentários e oftalmológicos para as três, e agora, elas vivem com um pouco mais de dignidade.
Prometo a quem estiver lendo, e a mim mesma, que vou ajudar as pessoas que são como a família Rodrigues, ou piores. Não mereço o que tenho, e elas não têm o que merecem. Dona Silvana é o tipo de pessoa da qual o Brasil devia se orgulhar.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A menina e o Leão

Uma criancinha de uns seis, sete anos, em uma visita ao zoológico, encarava o leão adormecido, com o rosto encostado no vidro. O Rei da Selva (leia-se da jaula) acordou, deu uma ajeitada na juba ruiva e veio sentar-se para encarar a menina.
Ela era tão pequena, tão dependente e tão indefesa, e ele, tão grande, imponente, independente e forte. E ela estava tão livre, e ele, tão preso. A jaula do Rei da Selva, aquele quadrado de vidro com uma vaga lembrança que ele tinha das selvas verdadeiras, e a jaula daquele filhote de humano que, mesmo adulto, nunca chegaria ao seu tamanho, tão grande e infinita.
Devia haver algum motivo verdadeiro para prender um Rei em um quadrado de vidro, o leão pensava consigo mesmo. Encostou sua enorme pata nos dedinhos dela e pensou se algum dia os animais estariam observando, com curiosidade, humanos presos, em visitas a antropológicos.
Ela beijou o vidro e foi embora. E o Rei voltou a dormir em um dos cantos do quadrado de vidro.



Cada Rei na sua selva. Prender animais silvestres é crime!

Gato versus Monstros Verdes

Só pra rir!



Mais vídeos de gatos, aqui.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Onde os sonhos se tornam realidade



Estavam na Disneylândia, presente dele de seis anos de namoro. Vinte e cinco dias, dos quais oito haviam passado. Houve a briga, cada um foi para um canto do parque. Ela, chorando, e ele, chutando as latinhas jogadas pelo chão. Trocaram silêncio durante algumas horas, ao voltar para o hotel, e a cama de casal pareceu grande demais naquela noite. Acordar sem um beijo de bom-dia era como estar na Antártida e não ter um casaco. De novo, não andaram juntos.
Ela estava na frente do Castelo quando sentiu o abraço por trás.
- Sabe por que eu te trouxe aqui? - Ele perguntou.
Não houve resposta.
- É onde os sonhos se tornam realidade. Casa comigo.

domingo, 17 de junho de 2012

Opções

Deixar a pele queimar, o cabelo ressecar, as cutículas ficarem quase do tamanho das unhas e ter preguiça de fazer depilação, ou fazer as unhas, hidratar o cabelo e esfoliar a pele? Rabo-de-cavalo ou trança? Trança raiz ou trança espinha-de-peixe? Short, saia, calça ou vestido? Macaquinho ou macacão? Tênis ou salto? Pulseira ou relógio? Duas latas de brigadeiro ou um prato de salada? Samba ou valsa? Lente ou óculos? Namorar ou ficar? Malhar ou dormir? Vestido tubinho, baloné ou acinturado? Salto anabela, fino, quadrado ou plataforma? Biquíni ou maiô? Unhas desenhadas, foscas ou lisas? Ah, ser mulher é ter infinitas opções e ficar bem com todas.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Dia dos Namorados

Feliz dia dos namorados! O post de hoje é curtinho, porque já, já, vou sair com o meu. Vagabundando pesquisando na internet, encontrei isso:



Achei lindo, fim do post. Aqui tem bem mais, todos lindos.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Abrir a Caixa

Um homem qualquer, um dia, acordou com vontade de colocar um gato dentro de uma caixa. Dentro dessa caixa, havia um contador Geiger com substância radioativa, que, dependendo das circunstâncias, liberaria uma descarga, que soltaria um martelo, que estilhaçaria um pequeno frasco de ácido cianídrico. Dependendo das circunstâncias novamente, o gato estaria morto. Ou vivo. Ou os dois, simultaneamente.
Este homem, então, criou um termo chamado entrelaçamento. Todas as circunstâncias dependem uma da outra e todos os acontecimentos resultam da combinação de todas as circunstâncias: tudo está entrelaçado. Ele escreveu, sobre isso, que uma incerteza antes somente relacionada a um felino dentro de uma caixa poderia se transformar em uma indeterminação macroscópica, e o único jeito de descobrir o que acontecera era abrir a caixa.
O contador seria acionado, ou não. O martelo bateria ou não no frasco e o frasco se quebraria, ou não. O gato morreria ou continuaria vivo. E abrir a caixa alteraria a possibilidade de vida do gato. E se não se pode identificar o estado de um corpo, diz-se que ele está em todos os estados, já que seria impossível que ele não estivesse em estado nenhum, uma vez que está dentro da caixa e não pode ter desaparecido magicamente.
Uma indeterminação macroscópica. Qualquer indeterminação. Qualquer incerteza pode ser relacionada a este gato. As coisas acontecem, ou não. Elas têm consequências, ou não. Arca-se com as consequências, ou não. E o único jeito de saber é fazer as coisas. E, bem, se o gato estiver morto, basta enterrá-lo, não é mesmo?

Construção do Mundo

Como pedreiros constroem casas, os Deuses construíram o mundo, só que em maiores dimensões. Primeiro, um pouquinho de pó-de-estrela. Depois, mágica; não mágica mundana, mágica que era realmente mágica. Juntou-se matéria verde e matéria azul. Ficou como uma massinha de modelar, mole; então, um sopro mágico endureceu a verde até que sua superfície ficasse crocante, e a azul até que ficasse cremosa.
O próximo passo foi fazer seres viventes. Primeiro, o molde foi errado. Ficaram pequenos demais, então, ganharam barbatanas e se chamaram peixes. Depois, ficaram grandes demais, então juntaram-se à massa de modelar crocante e tornaram-se montanhas. Deuses também erram, sabe?
Finalmente, fizeram seres no tamanho certo. Eles podiam se desenvolver dentro do corpo de uma progenitora e atingir um tamanho adequado depois. Podiam interagir, podiam dar continuidade a todo o trabalho dos Deuses. Então foram lançados ao mundo.
As primeiras raças desses seres eram mutáveis até demais. Aquelas que pegaram sol ficaram da cor da terra, e aqueles que vieram da neve ficaram claros, da cor das nuvens de chuva. Os que viviam nas florestas ficaram vermelhos, para que pudessem se camuflar; por fim, a raça do oriente do recém-criado mundo ficaram amarelos, da cor do sol nascente.
Os Deuses desceram ao mundo que criaram para supervisionar e acabaram se tornando parte desta criação. Eles esqueceram de dar aos seres humanos o dom de ser imortais, de ter para sempre sua carne. Sofreram do mesmo mal. Seus corpos mundanos faleceram e eles voltaram a ser Deuses, prometendo aos humanos que sempre estariam por perto observando. Então, tornaram-se estrelas.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Baleia

Era enorme e tinha o corpo liso. Ficava olhando aquelas criaturinhas coloridas que andavam fora d'água e faziam todo o possível para serem aquáticas também. Às vezes, ela as via no céu, imitando os pássaros. Eles se chamavam humanos, ela sabia, e ficava ofendidíssima quando a chamavam de "baleia": uma tonelada e meia é um ótimo peso quando se tem cinco metros de comprimento.
Lá estava uma humana, voando, voando, planando. Mas o espaço aéreo pertence aos pássaros e não foi surpresa que um deles cruzasse o tecido que a mantinha no ar. E ela estava caindo, caindo, girando e esperneando. A baleia nadou, nadou e abriu a boca. A coisinha colorida e frágil caiu em cima de sua língua - caberiam mais umas setecentas daquela dentro da boca da baleia.
Ela se contorcia na boca da baleia, que não sentia nada além de cócegas e nadava tranquilamente em direção à costa, e às vezes ia até a superfície e abria a boca para que a moça pudesse ver que ainda estava viva e respirar um pouco. Foram alguns minutos de viagem, e a enorme baleia branca abriu a boca para que a moça pudesse sair em segurança na praia e ir embora, seguir em frente com a vida.
Mas o espaço terrestre pertence aos humanos e não foi surpresa que alguém com uma tonelada e meia e cinco metros de comprimento ficasse encalhada. E ela estava barbataneando (poderia espernear, mas não tinha pernas). A moça correu, correu e abriu os braços. Se esfregou no corpo molhado da baleia, e, em poucos minutos, vários humanos coloridos e frágeis estavam fazendo a mesma coisa. Vários, muitos, inúmeros.
Quando ela finalmente poderia ser levada pela correnteza, a moça mostrou todos os dentes. Não como faziam os tubarões, para morder; a baleia sabia que humanos faziam isso de felicidade (sempre ao contrário, esses humanos).
É sempre bom ver que alguns humanos se mancam de tentar dominar o mundo, pensou a baleia. Afinal, cabiam umas setecentas coisinhas daquela dentro de sua boca.

domingo, 20 de maio de 2012

Cinderela




Os pais de Nícolas e Júlia já eram amigos muitos anos antes de eles nascerem, e, coincidentemente, tornaram-se vizinhos. Os filhos nasceram na mesma época e cresceram juntos; passaram por todas as fases que crianças de sexos opostos passam: primeiro, a de não saber a diferença, depois, a de ter nojinho, e, aos poucos, a de perceber que pode vir muito a calhar ter um amigo do sexo oposto.
No aniversário de 5 anos de Júlia, ela ganhou de Nícolas uma casinha de plástico com a Cinderela e seu príncipe. Brincaram juntos com ele até os 12. Depois, brincavam de videogame, depois, de passear pela cidade, e um dia, finalmente, brincaram de se apaixonar. E noivaram.
Ela resolveu se casar de azul, sempre lembrando da Cinderela e do Príncipe, que faziam parte da história dos dois. Os meses se passaram, e uma semana antes do casamento, a única coisa que faltava era o enfeite do bolo. Júlia cansou de chamar e ficou magoada; que tipo de marido seria um noivo que não estava nem um pouco preocupado em comprar um enfeite para o bolo do próprio casamento? (Como toda mulher quando se chateia, ficou calada, zangada por ele não adivinhar o motivo.)
No dia do casamento, os noivos mal se falaram. Ele saiu cedo de casa e ela foi ao salão de beleza com as madrinhas e a mãe. Chorou desesperadamente porque não teria um enfeite para o bolo. Às oito da noite, mesmo assim, ela estava chegando à igreja, os cabelos loiros num coque e um vestido azul que fariam a verdadeira Cinderela ter uma crise de identidade. Dissimulava-se como Capitu, fingindo que estava totalmente realizada.
Juro a vocês que foi coincidência, que ninguém sabia de nada. Quando Júlia-Cinderela entrou pela porta, espantou-se tanto quanto Nícolas-Príncipe: Ele, ao ver a personificação da Cinderela; ela, ao ver que o bolo tinha um enfeite, mas não qualquer enfeite: os noivinhos eram os bonecos de plástico com os quais ele a presenteara dezoito anos antes, a surrada Cinderela e o desbotado Príncipe. Naquele momento, eles souberam que pertenceriam um ao outro para sempre.

domingo, 13 de maio de 2012

Mãe

O que eu sou, há quinze anos, seis meses e sete dias, é da minha mãe, sou dela; tenho sido dela durante todo esse tempo, sempre fui e sempre serei. Minha mãe merece todo o amor desse mundo - nada mais justo, já que essa é a quantidade de amor que ela me dá - e muito mais. Eu a levaria para todos os lugares aonde fosse, todos. Eu a teria sempre do meu lado, sempre numa redoma, imortal, intocável, imune a qualquer tipo de dor e qualquer coisa que não fosse linda, perfumada e colorida. Eu a protegeria de tudo e de todos. Desejo que nada nunca possa machucar, incomodar ou entristecer minha mãe. Desejo que ela realize todos os desejos e seja a pessoa mais feliz desse mundo e que ela se orgulhe de mim como me orgulho dela, meu norte, minha heroína, meu parâmetro. Há quinze anos, seis meses e sete dias, ela tem sido minha mentora; desde o dia em que meu coração bateu pela primeira vez até o dia em que ele bater pela última vez.
E quando eu não tiver mais a companhia dela, não sei como vou viver. Como dormir sem mil beijos de boa noite? Como acordar sem mil beijos de bom dia? Quem eu vou chamar quando alguma coisa der errado? Com quem vou comemorar quando alguma coisa der certo? Pelo que eu viveria se não houvesse a minha mãe pra me dar um abraço quando eu chegasse em casa?
Minha mãe não vai viver pra sempre (pensar nisso me faz chorar, desde sempre), mas eu fui educada de acordo com os princípios dela, sou sangue, sotaque e trejeitos dela, e isso vai ficar pra sempre. Quinze, vinte, cem anos. Minha mãe não vai viver pra sempre, mas ela é eterna.



(Feliz dia das mães às mães, avós e às filhas que um dia serão mães e avós)

domingo, 29 de abril de 2012

Aviação

A aviação sempre foi um dos ramos mais glamourosos de todos, ou deveria ser. Principalmente no Brasil, onde há uma deficiência de pilotos. Isso acontece porque o curso de ciências aeronáuticas é caro, e as horas de voo, mais caras ainda. O fato de o Brasil ser um país em desenvolvimento, com alta circulação de turistas nos grandes centros, torna ridículo o fato de que a aviação e os aeroportos brasileiros são grandes bostas.
Quem conhece o aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília, sabe a raiva que se passa lá, quando, 100% das vezes, o portão de embarque é trocado na última hora, sabe que os horários dos voos são tão mal administrados, que, muitas vezes, as pessoas não têm onde sentar. O aeroporto de Santa Genoveva, em Goiânia, é outro grande lixo. Isso sem falar no aeroporto Atlas Brasil Cantanhede, de Boa Vista, em que a quase inexistente praça de alimentação fecha às 2h da madrugada e um dos dois (sim, DOIS!) voos diários chega às 4h e os passageiros ficam sem ter o que comer.
Quando se compara a aviação brasileira dos anos 80 e 90 e a atual, é vergonhoso. Eu me lembro de comer em louça de verdade, com talheres Tramontina de aço inoxidável cunhados com o símbolo da Varig em dourado e de ganhar, das aeromoças, livrinhos de colorir e lápis-de-cor do Variguinho. Aeromoças essas, que, por sinal, eram lindas, educadas e tinham o inglês perfeito. O único detalhe é que Boa Vista - São Paulo, nessa época, custava cinco mil reais. Hoje em dia se consegue por até duzentos, mas, por outro lado, os talheres e livrinhos de colorir foram substituídos por guardanapos finos, barrinhas de cereal e bebidas de má qualidade. Comparando o público, também, percebe-se que, antigamente, as viagens de avião eram só para a crème de la crème brasileira, a alta sociedade. Hoje, qualquer um pode viajar. Houve uma popularização dos preços e da aviação de tal modo que a falta de educação que se vê nos aviões é revoltante e não é, de modo algum, justificável, mesmo que o Brasil seja um país de terceiro mundo. Ser de origem humilde é bem diferente de ser porco e mal-educado.
Isso nos traz a um outro assunto importante: a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos que o Brasil sediará. Na minha opinião, antes de reformar os estádios de futebol e pensar se deveríamos ou não autorizar a venda de cachaça neles, deveríamos nos preocupar em reformar a aviação. Os turistas não vão chegar no Brasil pelo Maracanã, eles vêm de avião. Eles precisam entender o inglês que as aeromoças falam - se é que aquilo pode ser chamado de inglês - e precisam conseguir se mover nos aeroportos, sem mudanças súbitas de portões (e os idosos e deficientes? Já vi muitos que perderam voos porque não se locomovem rápido o suficiente), sem maus tratos dos tripulantes e, principalmente, sem atrasos, cancelamentos e overbooking. Quanto às ruas das grandes cidades e blá blá blá, pouco me importa; o que sei é que aconselho todos os brasileiros a comprarem vassouras para viajar em 2014 e 2016.

sábado, 21 de abril de 2012

Sábados

Quando a chuva bate forte na janela, quando meus pés ficam gelados, quando o travesseiro não me abraça de volta. Quando acordo de manhã, quando chego na escola, quando volto para casa. Quando estou no trânsito. Quando sinto cheiro de tinta fresca. Quando alguém me fala de futuro. Quando passo o dia inteiro me arrumando e experimento um milhão e meio de roupas (previamente escolhidas) antes de sairmos e digo que, ah, tomei um banho rápido e vesti qualquer coisa. Quando ensaio conversas. Qualquer minuto que eu passe sozinha. Quando as flores desabrocham, quando as manhãs são de sol, quando o vento faz os cabelos voarem. Quando quase reclamo da vida. Quando estou na internet e ninguém está cantando para mim. Nos sábados à noite, nos sábados de manhã, nos sábados à tarde, bem como em todos os outros dias, e em todas as outras horas, eu me lembro de você.

sábado, 31 de março de 2012

Sete - Parte V

Deu um pulo da cama, e, em cinco minutos, estava no escritório, sozinha. Mais alguns minutos, e estava tocando a campainha de Serafim desesperadamente.
- Carolina, o que é que você quer? São oito da manhã, pelo amor de Deus!
- Elas passaram o Carnaval em Salvador. Juntas, no mesmo hotel.
- Chame as mães.
Luísa fora sozinha, tinha família na cidade. Mariana estava acompanhada de duas amigas que haviam sido interrogadas, mas não se lembravam de muita coisa, porque passaram a noite do Carnaval bebendo como se não houvesse amanhã. Mesmo assim, Carolina fez questão de chamar Maria Clara, uma delas, que parecia um tanto omissa.
- Já disse que não lembro de nada - ela rebatia todas as perguntas com a mesma resposta.
- Você não bebe. Seu namorado disse que você não bebe. Ou você está mentindo para ele, ou para nós, e, se for para nós, isso é crime.
- Não lembro muito bem que horas saímos do hotel. Eu, Mariana e Letícia. A gente foi à praia e depois foi direto pular carnaval. Tinha muita gente, mal dava pra ficarmos juntas, então resolvemos que a primeira que chegasse ao hotel de volta ligaria para as outras. Eu não bebo, mesmo, fiquei dançando até amanhecer. Mas teve uma hora em que fui passear um pouco e saí do meio da multidão. Encontrei Letícia, ela estava meio bêbada, mas continuava sozinha. Nenhuma de nós viu Mariana, até o amanhecer, mais ou menos cinco e meia, seis horas.. Já estávamos juntas de novo, mas ela tinha sumido. Fomos comprar umas bebidas e ouvimos ela gritando. Quando nos aproximamos, ela estava brigando com um homem e uma mulher, não sabíamos quem eram, não interferimos. Fomos embora, voltamos pro hotel e ligamos pra ela. Uma hora depois, ela chegou e contou que estava de rolo com ele pela internet há alguns meses, e eles tinham combinado de se encontrar em Salvador no carnaval, mas quando ela o reconheceu ele estava ficando com outra garota.
- Ela disse o nome dessa outra garota?
- Acho que era Luísa.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Mateusinho

Há alguns dias, na academia, encontrei uma velha amiga dos meus pais, que conheço desde que... Desde que me conheço por gente. Ela tem três filhos, uma menina e dois meninos, dos quais me lembro perfeitamente, há dez, treze anos atrás, correndo no meio do mato que a cidade era. Infelizmente, eu e essa família perdemos o contato, já faz algum tempo, até que (não tão) coincidentemente, o caçula, Mateus, foi meu colega de sala, em 2008. Ele fazia natação, eu me lembro, e, durante esse ano, fomos bons amigos.
Ele foi morar em Natal, em 2009. Fiquei sabendo que, agora, mora no Rio de Janeiro, em uma república, porque foi contratado para nadar profissionalmente pelo Botafogo. Não nos falamos mais, então achei que ficaria meio estranho dar os parabéns do nada, mas estou muito, muito feliz por ele. Mateusinho sempre foi um ótimo nadador, ótima pessoa, ótimo amigo. Ele merece isso tudo e muito mais. E esse "muito mais", sei que vai conseguir.

domingo, 25 de março de 2012

Poema

Andando na rua, conheci um poema. Ele era muito organizado e estava sempre em forma. Falava em rimas e me fazia refletir. Tornamo-nos bons amigos e ele me apresentou para muitos outros poemas. Alguns eram tão organizados que pareciam ter algum tipo de TOC, e outros, nem tanto. Havia os gagos, os cultos, os antigos, os bem novinhos, alguns inacabados e outros enormes. Moravam todos juntos, em um livro, que os humanos chamavam de "coletânea", mas que eles chamavam de "república". Depois que conheci todos os poemas daquela república, eles me apresentaram aos amigos estrangeiros. Conheci franceses, holandeses, alemães, neozelandeses, mexicanos. Eles se gabavam: "fui escrito por Shakespeare", "fui escrito por Camões", "sou de Lorenzo de Médici". Às vezes, enquanto conversava com algum deles, eu me cansava e dormia em seu colo. Viajávamos juntos, frequentemente; eles me mostravam coisas, pessoas e lugares incríveis, e depois, me deixavam de volta na república. Vagarosamente, eu voltava à realidade.
Andando na rua, conheci uma canção..

Sete - Parte IV

Não parecia haver qualquer conexão entre Luísa e Mariana, a segunda vítima. Não moravam no mesmo bairro, não estudavam na mesma escola, não tinham amigos em comum, não frequentavam os mesmos lugares.. Nada. Mas ninguém faz nada aleatoriamente, pensava Carolina.
Não houve mais bilhetes, nem houve mais vítimas.
O delegado geral, chefe dos detetives, Eduardo Mendonça, entrou, batendo as portas.
- Teles, Fontes, venham até a minha sala.
A porta se fechou sozinha depois que os dois entraram.
- Há alguma relação entre os casos Sete? - ele falou, referindo-se a Luísa, Mariana e ao assassino.
- Até agora, não descobrimos nada, mas estamos procurando - Serafim respondeu prontamente.
- O caso será arquivado. Já faz seis semanas e temos outros casos para investigar.
- Mas o que diremos às famílias?
- Isso não é meu trabalho, é, Teles?
E ele saiu da sala e bateu a porta de novo. Carolina estava com uma cara horrível, como se, a qualquer momento, fosse sair atrás dele e lhe passar um sermão.
O dia seguinte era um sábado, que passou vazio, assim como o domingo, já que o caso Sete estava arquivado. A segunda-feira foi um dia chuvoso daqueles em que a cama parece bem mais aconchegante do que habitualmente. Carolina levantou, relutante, tomou banho, se vestiu e pegou uma maçã. Quando abriu a porta, um bilhete caiu aos seus pés.
"Sete"
Ela decidira ser detetive por causa de horas como aquela, em que a adrenalina percorria seu corpo. Encontrou Serafim no escritório e eles se sentaram para analisar o papel.
Havia uma digital. O banco de dados a associou a um presidiário, Marcos Gomes. Ele fora declarado morto havia dois dias.

sábado, 10 de março de 2012

Sete - Parte III

O bilhete do segundo dedo dizia "o sétimo dia", e Serafim supôs que deveria esperar até que sete dias houvessem se passado desde que Luísa morrera, mas foi repreendido por Carolina, que disse que detetives nunca esperam e que aquilo podia ser a data da morte da próxima vítima. Sem sucesso, eles passaram os cinco dias seguidos procurando mais pistas.
Quando o sétimo dia chegou, Serafim recebeu uma visita da mãe de Luísa, Eloá, que falava palavras sem nexo e estava em prantos. Depois de algum tempo, ela revelou aos detetives que entrara no quarto da filha para fazer uma faxina e encontrara um dedo decomposto embaixo do travesseiro. Em minutos, estavam de volta à casa, Carolina recolhendo o dedo e Serafim procurando o terceiro bilhete.
"7"
- Esse cara deve ter uma fixação pelo número sete - ele resmungou. - Que diabos ele quer que eu entenda com isso aqui?
- Venha, vamos voltar, deve haver alguma explicação racional e eu aposto como você vai sonhar com ela hoje.
Deixaram a casa e voltaram ao escritório, entregando o dedo ao legista e sentando-se para analisar o bilhete. Carolina foi até sua mesa buscar uma lupa, e, ao abrir a gaveta - a mesma em que encontrara o primeiro dedo - encontrou uma folha de papel inteira, ao contrário das outras.
"6"
- Para ter colocado isso aqui, ele deveria saber que eu voltaria ao escritório e que abriria essa mesma gaveta - refletiu. Analisaram o bilhete e levantaram hipóteses improváveis por mais algum tempo, até que Serafim se cansou e resolveu ir tirar o atraso de sono. Abriu o armário para buscar o casaco, e o que encontrou foi outra folha de papel.
"5"
- CAROLINA!
Então ela entendeu tudo.
- Quanto tempo faz desde que saímos da casa de Eloá?
- Hum.. Duas horas.
- Há duas horas encontramos o número sete. Então, encontramos o seis. E agora, suponho que tenha se passado mais uma hora, o cinco. Ou tem alguém brincando com a gente e tentando se passar pelo assassino, ou ele está aqui dentro.
- E se ele estiver aqui dentro e contando as horas, alguma coisa deve acontecer em cinco horas.
- A próxima vítima, só pode ser isso. Já temos os três dedos que faltavam em Luísa. Mas onde?
- Na sétima a partir da sétima! Na rua Maria Antonieta!
Dirigindo como um ás do volante, Serafim levou Carolina ao local onde encontrara o segundo dedo, mas a rua não estava mais lá. A rua Maria Antonieta sumira? Mas estivera ali, ele não podia tê-la imaginado, porque foi onde encontrou o segundo dedo de Luísa. Voltou, confuso, ao cruzamento da rua que descia o rio com a sétima, onde Luísa fora encontrada. Ia dobrar. À esquerda, não havia sete ruas. Dobrou à direita. Desceu até a quinta e última rua antes do rio, a av. Eurípedes B. Milano, e contou mais duas. A sétima. Estavam no Parque dos Aguateiros. Desceram, com as armas em punho.
E lá estava, nu, entre algumas árvores e embaixo de algumas folhas, enrolado em seus próprios cabelos e sem dois de seus dedos, o corpo da segunda vítima.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Sete - Parte II

Carolina esqueceu de toda a postura de detetive de Homicídios e soltou um grito estridente, tremendo e telefonando para Serafim.
O dedo viera acompanhado de um bilhete que dizia "a sétima a partir da sétima", em letras porcamente escritas, e, após uma análise, sem nenhuma digital, nem nada que levasse os detetives a chegar um pouco mais perto da solução do caso.
Estavam sentados no tapete do apartamento de Serafim, tomando uma(s) taças de vinho.
- Mas o que será "a sétima depois da sétima"? - Serafim pensava.
- Talvez seja a sétima vítima.
- Então é um assassino em série? Ele pretende matar catorze pessoas?
- Catorze?
- Sete, a partir da sétima. Contar sete vítimas a partir da sétima?
- Será que a décima quarta seria eu? - Carolina desesperou-se.
- Não sabemos ainda, calma, amanhã, procuraremos mais pistas.
Uma amizade de mais de oito anos dava a Carolina a obrigação de ajudar Serafim a arrumar a casa. Depois, despediram-se e ela desceu (convenientemente, moravam no mesmo prédio). Ele, solteiro e sozinho, se deu ao luxo de pular as fases de tomar banho e escovar os dentes e simplesmente se atirou na cama.
Acordou com um terrível pesadelo, às cinco da manhã. Ele estava dirigindo por cima da ponte Borges de Medeiros da av. Ibicuí, quando sentiu o carro dar um pulinho. Achou que houvesse atropelado alguma coisa e desceu para ver. Encontrou um dedo.
De repente, ele se sentiu como se houvesse encaixado uma peça dificílima em um quebra-cabeças. Na verdade, fizera exatamente isso. Dirigiu-se imediatamente à avenida, e, como não havia ninguém na rua, diminuiu a velocidade e começou a contar:
- Uma. Duas, três, quatro, cinco. Seis.. Sete.
Rua Coronel Cabrita. Luísa havia sido encontrada ali. Ele não parou, mas teve certeza de havia descoberto o sentido do bilhete que acompanhava o dedo.
- Uma. Duas, três, quatro.. Cinco.. Seis..
Mas não havia uma sétima rua depois da rua Nelci Fontoura Pedroso. Ela acabava em um beco, que, por instinto, Serafim resolveu investigar. Desceu do carro, armado e acompanhado da inseparável lanterna, já que ainda não amanhecera. O beco o levou a uma pequena aglomeração de árvores, que escondiam, sim, exatamente o que ele pensara: outra rua. Que não está nos mapas de lugar nenhum. Uma rua pequena, escura, sem casas, e que não leva a nada. Rua Maria Antonieta.
Serafim sorriu, orgulhoso. A lata de lixo estava lá, e estaria vazia, se não fosse pelo segundo dedo.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Sete - Parte I

A ligação chegou às 07h 07 da manhã ao departamento de Homicídios. Em poucos minutos, os detetives Serafim Teles e Carolina Fontes estavam no local do crime, onde uma adolescente nua e enrolada nos próprios cabelos estava, nada cuidadosamente, jazindo embaixo de uma das latas de um lixão abandonado.
O lugar já estava isolado, embora houvesse (não tão) pequena aglomeração de pessoas querendo saber o que acontecera. A mulher que parecia ser a mãe da vítima chegou, logo depois, aos prantos, no local. Serafim odiava esses momentos desconfortáveis em que era obrigado a ir conversar com ela, embora preferisse examinar a vítima.
Um dos peritos do local, algumas horas depois, entregou o relatório aos detetives.
- Ela só tem sete dedos. Não apresenta sinais de nenhum tipo de violência física. Está morta há, pelo menos, sete horas - disse Carolina, notando a perfeita e, provavelmente, recém-feita, francesinha nas unhas da vítima.
- Isso quer dizer que foi assassinada em torno da meia-noite. Ela se chamava Luísa. A última vez que a mãe a viu foi perto das três da tarde, quando deixou a filha na escola. A mãe diz que ela saiu com os amigos à noite, mas não sabe que amigos eram. Isso quer dizer que procuramos por fios de cabelo, digitais, sinais de envenenamento ou estupro e lesões internas.
O corpo cor de vela de Luísa foi levado ao necrotério para que o médico legista, Leandro, pudesse avaliá-la. Fora a mãe, ninguém a procurou. Serafim ficou investigando o local do crime, e Carolina voltou ao escritório para tentar reunir mais informações, em redes sociais, sobre a vítima.
Carolina, já exausta, quase meia-noite, decidiu que não sairia do escritório até encontrar alguma coisa para dizer à desamparada mãe no dia seguinte. Ia fazer café, tomar uma aspirina para curar a dor-de-cabeça e continuar procurando. Esse era o plano, e ele teria sido executado, se, ao abrir a gaveta, ela não houvesse encontrado um dedo humano com unhas quadradas e pintura à francesinha.

terça-feira, 6 de março de 2012

Desafio dos 50 Dias

Dia 50: Uma foto de alguém por quem você arriscaria sua vida

Nada mais justo que arriscar a minha vida pelas pessoas que me deram ela. E aqui acaba o desafio. (Finalmente, estava floodando o blog.)

domingo, 4 de março de 2012

Vice-versa

Ontem, quando acordei, meu cabelo estava de cabeça para baixo. Na verdade, a cama estava no teto e o lustre estava no chão. Isso significa que o chão agora era o teto e vice-versa. Calcei os sapatos nas minhas mãos e coloquei luvas nos pés, porque estava muito quente. Para evitar ficar molhada do sol, usei um enorme guarda-chuva. Os peixes estavam estressadíssimos dentro de seus carros por causa do engarrafamento e as camas reclamavam porque estavam se sentindo usadas pelas pessoas. Os telefones não aguentavam mais a vida em cima de mesas ou grudados em paredes e a loja de motos estava lotada, porque eles estavam fazendo empréstimos. Os pinguins da Antártida estavam dando uma grande festa, à qual compareceram todos os leões da África, araras do Brasil e pandas da China. Os iPods colocaram suas pessoas para carregar e passaram o dia escutando elas, enquanto os óculos de grau estavam fazendo bronzeamento artificial para ficar mais parecidos com os óculos de sol. A Lua começou a tomar suplementos e malhar para ficar do tamanho do Sol e Plutão resolveu trocar de lugar com Mercúrio. Os chinelos começaram a ter cadarços e os tênis resolveram ser feitos de borracha. O poste mudou seu nome para telefone e o telefone preferiu se chamar alho. O azul agora era verde, e o verde era amarelo, e qualquer cor podia ser o preto. Tartarugas dançavam ciranda-cirandinha em cima da mesa, que era feita de uvas enfileiradas, e bolinhas de gude resolveram morar em formigueiros. As nuvens eram coloridas e o céu também mudava de cor. Chovia chocolate. Alguém pichou uma carinha feliz no sol e colocou pulseiras em seus raios. O normal resolveu que queria ser diferente e vice-versa.

Desafio dos 50 Dias

Dia 48: Uma foto que represente algo que gostaria de cortar na sua vida

Gordura.


sábado, 3 de março de 2012

Catedral

São 3956 metros quadrados, construídos pelos incas em 1560, em ouro, prata e bronze. As cadeiras do Coral que canta em quíchua, dialeto peruano, vieram da França, feitas em mármore e veludo. A maior parte do material para esculpir e pintar os magníficos quadros tridimensionais veio da Europa. Os padres mais importantes têm seus ossos guardados em uma câmara no interior da Catedral de Cusco, a igreja mais bonita a que já fui. Precisei me levantar antes das cinco da manhã e aguentar o vento frio, mas não houve nenhum lugar que sobrasse. Até cachorros e galinhas (!) compareceram à missa naquela manhã na capital peruana. Eu não entendi uma palavra do que foi dito, mas era simplesmente arrepiante. Fotos não são permitidas, então tenho apenas a lembrança.
Mas há uma coisa, em especial, que chama a atenção de todos. Uma pessoa, na verdade. Uma santa, em um quadro. Ela é rodeada por ouro e seus olhos acompanham movimento. Eles são tridimensionais. Nunca vou conseguir descrever a experiência de andar ao redor dela, olhando em seus olhos, e ter meu olhar sustentado. Não fui para rezar, sabe? Fui para sentir. Não precisei acreditar nem desacreditar em nenhum tipo de divindade, nem nada, mas acho que deixei parte de mim naquela igreja. Tomara que algum dia possa voltar lá para fazer tudo de novo.

Foi aqui, sentada nesses bancos.

(Essa é ela, e, sim, isso é ouro puro, entalhado à mão.)


Desafio dos 50 Dias

Dia 47: Uma foto de alguém com quem você trocaria de vida, pra sempre

Acho que ser eu mesma tá bom.


Desafio dos 50 Dias

Dia 46: Alguma foto de onde você gostaria de morar

LA.


Desafio dos 50 Dias

Dia 45: Uma foto do seu jogo preferido

The Sims!


Desafio dos 50 Dias

Dia 44: Uma foto de sua comida preferida

Mate limão com biscoito Globo. Eu poderia viver só disso!

Desafio dos 50 Dias

Dia 43: Alguma figura que represente algo que você nunca faria

Fisiculturismo.


Desafio dos 50 Dias

Dia 42: Uma foto que represente sua música preferida

Basta ser deles.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Miados





Estou sozinha em casa e já são quase 22h. Quer dizer, estaria sozinha, se não fosse pelo felino que todos sabem que me acompanha desde 2002, Van Gogh, e esse post é sobre isso: ele esteve aqui do meu lado o tempo todo desde a hora em que meus pais saíram, às 18h.
Não só desde as 18h, ele esteve do meu lado todos os dias desde 2002. Todas as manhãs, nós nos sentamos na varanda para tomar café da manhã. Às vezes, dormimos juntos, à tarde, e, quando dou banho nele, bem.. Ele faz o mesmo comigo.
As pessoas têm essa ideia de que gatos roubam comida e são sujos e agressivos com as pessoas, e muitos dos meus amigos tinham aversão a gatos, até conhecer o meu. Quem não gosta de gatos, certamente nunca teve um, é o que sempre digo. E ter um gato não quer dizer saber que um gato de rua revira seu lixo todas as noites, e sim ter um em casa, como o seu animal de estimação.
Ficamos no quarto a tarde toda. Eu estudei enquanto ele dormia do meu lado, e, quando levantei para lavar a louça, ele estava sentado perto de mim. Não acho, então, que o melhor amigo do homem seja necessariamente o cachorro. Pode ser um gato, passarinho, camaleão, qualquer animal com o qual o homem consiga interagir. Só queria deixar aqui, eternizado, o quanto sou grata pelo meu melhor amigo felino e pelos seus miados estridentes de bom dia.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Desafio dos 50 Dias

Dia 41: A foto de um carro que gostaria de ter

Renault Twizy! Fofíssimo, ecológico e fácil de estacionar.


sábado, 25 de fevereiro de 2012

Desafio dos 50 Dias

Dia 40: Uma foto de alguma celebridade que você escolheria como futuro marido/esposa

Tem muitas, mas, bem.. *suspiros*


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O Dono da Lua - Parte I


Há muito, muito tempo atrás, em uma noite de lua cheia, viu-se um brilho fora do comum. E no meio da selva, em um amontoado de gramíneas, apareceu um bebê. Era um menino. À primeira vista, pensava-se que ele era careca, mas, na verdade, tinha cabelos claros demais para enxergar de longe. Seus olhos eram cinza-prateados, da cor da lua. Foi encontrado por um casal que o chamou de Luca e criou-o como se fosse seu próprio filho, apesar de não serem nem um pouco semelhantes.
Os olhos de Luca acompanhavam as fases da lua, ficando mais escuros quanto menos ela aparecesse no céu. Nas noites de lua cheia, ele era dono de duas esferas prateadas cintilantes. Nunca se viu olhos como os dele, nem cabelos, e nem entendeu-se o porquê de ele falar latim fluente antes mesmo de aprender a língua que os pais adotivos lhe ensinaram.
Ele ficava ainda mais claro quando pegava sol. Parecia ficar bronzeado quando tomava banhos de lua. O mais curioso era que, quando visitava o local aonde os pais diziam tê-lo encontrado, seu coração batia muito forte e seu corpo enchia-se do que pareciam ser letras prateadas com dizeres em latim, aparentemente ensinando-lhe a controlar as marés.

Desafio dos 50 Dias

Dia 37: Uma foto de algo que tenha dificuldade em fazer

Me concentrar!




terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Desafio dos 50 Dias

Dia 35: Alguma habilidade, representada em foto

Domínio das palavras.


Ritual Quase Fúnebre

Estava tão deprimida ao acordar naquele dia cinza. Andou o dia inteiro, incessantemente, pelo apartamento de trinta metros quadrados. Não comeu nada, nem um grãozinho de arroz. Não atendeu nenhum dos telefonemas, seja lá de quem fossem. Não abriu a porta quando bateram. Não falou uma única palavra.
Às sete horas da noite, o pôr-do-sol iluminava em alaranjado a grande banheira branca, que ela deixou cheia de água fumegando. Estava com frio. Perfumou o cômodo com sua colônia preferida, de rosas, e jogou algumas pétalas na banheira.
Foi ao quarto e trouxe um secador de cabelos preto, grande e pesado. Ligou-o na tomada e deixou-o em cima da pia. Soltou o laço vermelho do fino robe de algodão branco com o qual passara o dia e ele caiu no chão do banheiro. Respirou fundo.
Não sei se existe um Deus, mas se existir, com certeza, foi Ele quem provocou o apagão na cidade inteira no exato momento em que ela puxou o secador de cabelos, ligado, para dentro da banheira, interferindo seu ritual quase fúnebre.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Dominó

Estou sentada em um sofá, na frente de um notebook, digitando este texto. E se, há uma dezena e meia de anos atrás, meus pais não tivessem se conhecido, não estaria. Não estaria em lugar nenhum. E se, há três dezenas e meia de anos atrás, minha avó não tivesse dado a luz à minha mãe, ela também não estaria aqui. Muito menos eu. Em quantas cidades meu pai já morou? Quantas namoradas teve? Quantas mulheres ele conheceu? Ou quantas poderia ter conhecido? Ele é gaúcho, minha mãe, carioca, e se encontraram em Roraima. Acho engraçado observar todas essas coincidências que causaram o efeito dominó que me trouxe até aqui, e como o dominó seria totalmente diferente se um desses passos não tivesse sido dado. Isso me faz pensar que, talvez, em algum lugar, exista uma espécie de roteiro, e uma espécie de diretor, coordenando todos os nossos passos para que o dominó não seja derrubado e para que tudo saia dentro dos conformes.

Desafio dos 50 Dias

Dia 33: A foto de algo/alguém que fez valer seu ano passado

Eu dizia tanto que não gostava deles, mas, no fundo, amava. Ainda amo.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Meu Mundo

Resolvi morar dentro de uma saboneteira. Empacotei um grão de feijão, caso sentisse fome, e forrei o plástico com um lenço de bolso. Lá, nada poderia me incomodar, afinal, saboneteiras têm tampas. Não haveria insetos, nem som de obras, nem impostos a pagar. Afinal, quanto se paga por um imóvel que custou 5 reais? Jamais me incomodaria com vagas para estacionar o carro e muito menos com mau-cheiro do esgoto. Saboneteiras são alguns dos objetos mais cheirosos que conheço. Não ia precisar de faxineira, afinal, minha casa agora media 8 centímetros. O novo carro era muito pequeno e fácil de estacionar. Não era um Mitsubishi, nem um Fiat, nem um Renault: era um Hot Wheels. Assim, pequeno, azul, rápido como uma bala e muitíssimo econômico. Diminuí a escala do meu mundo para que ele ficasse um pouco maior.

Desafio dos 50 Dias

Dia 30: Uma foto que fale muito sobre você


Desafio dos 50 Dias

Dia 29: Uma figura que represente um hobby


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Morte

Estava sentada em um dos cantos do banheiro minúsculo e sujo de um hotel ruim em uma cidade que não aparecia no mapa e cujo único hospital encontrava-se fechado, desidratada e desorientada. Minha mãe estava na minha frente, chorando e me pedindo para continuar acordada. Pedi desculpas.
Fechei os olhos. Ainda a ouvi gritar meu nome, mas não consegui voltar. Estava indo embora. Houve luzes, som. E eu não sentia mais nada, não tinha mais dor e nem desconforto, estava curada de todos os males mundanos. Alguém cantava uma música de um filme que eu gostava muito e eu fazia parte da cena. Sentei-me em uma mesa com meus amigos da escola, meu namorado e meus atores preferidos e conversamos como se não nos víssemos há muito tempo. Era uma ótima sensação.
Acordei em cima de uma cama com meu pai tentando me fazer voltar a respirar e minha mãe em prantos.
Eu acabara de voltar da morte.


História real.

Desafio dos 50 Dias

Dia 25: Uma foto de quem te faça rir

Prirmã!


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Desafio dos 50 Dias

Dia 24: A figura que represente algum presente que você gostaria de ganhar

Algum dia mando fazer um vestido desses.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Felicidade

Eu o via rapidamente a cada duas horas e meia, em média, mas especialmente naquele dia, ficaríamos quase uma hora juntos. Às vezes eu tinha essa sorte. Trocávamos poucas palavras, por serem elas tão dispensáveis. Estávamos sentados, um ao lado do outro, em silêncio, em meio a dezenas de outras pessoas, assistindo uma adulta falar sobre qualquer coisa à qual não prestávamos atenção. Às vezes nos olhávamos, mas eu sempre o observava. Estendi minha mão e a coloquei sobre a perna esquerda dele. Senti a mão gelada dele vir, rapidamente, ao encontro da minha, e me afagar. Sorrindo, transbordei felicidade.

Desafio dos 50 Dias

Dia 22: A foto de quem você quer passar a vida inteira junto

Tomara que eu sempre escute a mim mesma.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Desafio dos 50 Dias

Dia 20: Uma foto que represente um arrependimento

Sempre fui muito acomodada, desinteressada, relaxada, e acabei perdendo algumas boas oportunidades com isso.


domingo, 5 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Uma Pequena Viagem

Aconteceu quando eu tinha 8 anos. Estava na escola e fui abrir minha mochila, que era enorme, quase do meu tamanho, com rodas vermelhas, quando minhas mãos ficaram cheias de purpurina assim que toquei o zíper. "Mas nem tem purpurina em casa", pensei. Despreocupada, como sempre fui, só percebi que estava encrencada quando fui puxada para dentro da mochila e descobri nela um universo paralelo. É, isso saía um pouco do comum. Fui recebida por um centauro enorme, que me deu um abraço e me levou para passear, enquanto me contava da vida em seu mundo. Almoçamos com um fauno e depois eu cavalguei num unicórnio. Joguei Uno com a Medusa e pratiquei meu nado borboleta com uma sereia. Depois, voei num grifo, fiz carinho na cabeça de um lobisomem e presenciei a morte e o renascimento de uma fênix. Quando o dia acabou, um dragão acendeu uma lareira para mim. Jantamos, acompanhados de ninfas, e, quando constataram que estava muito tarde para uma criança de 8 anos, meu amigo centauro me trouxe de volta ao universo de fora da minha mochila; então, finalmente, peguei o caderno para copiar a tarefa do dia.

Desafio dos 50 dias

Dia 16: Uma foto de quem te ensinou muitos valores

Irmãe.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Desafio dos 50 dias

Dia 15: A foto de um irmão/irmã de alma

Igor!




O Peregrino de Almas

Era um enorme mistério: pessoas que levavam vidas tristes e medíocres, de repente, viravam pessoas felizes e de bem com a vida. Gargalhavam o dia inteiro, ficavam sempre de bom humor, prestativas, e nunca mais apresentavam sinais de tristeza novamente. Os médicos achavam que tratava-se de uma condição mental, os espíritas diziam que eram espíritos bons que os curavam da tristeza e os cientistas pesquisavam freneticamente uma explicação no corpo humano. O mais curioso era o fato de que isso só acontecia com uma pessoa por vez, e, aos poucos, a tristeza do mundo foi acabando.
Descobriu-se o Peregrino de Almas. Ele era um disco prateado que habitava as íris dos olhos dessas pessoas, e nenhum profissional nunca encontrou qualquer indício biológico de que ele estivera lá. O "doente" acordava um dia com o disco nos olhos, e melhorava aos poucos. Quinze dias depois, o disco ia embora. Essa história permaneceu sem explicação durante todos os anos durante os quais o Peregrino de Almas atuou.
Se ele ainda atua, o que era, o que mudava nas pessoas, ninguém sabe. Nem se sabe, na verdade, se ele existiu; nossas mentes nos pregam tantas peças..

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

domingo, 29 de janeiro de 2012

Desafio dos 50 dias

Dia 12: Uma foto que define sua faculdade, ou a que quer fazer

Cinema. A foto não podia deixarde ser do mestre Roman Polanski.


sábado, 28 de janeiro de 2012

Que Me Tocam

Essa música se chama Till There Was You, é do filme The Music Man, e pode ser assistida em sua versão original aqui.

Desafio dos 50 dias

Dia 11: Uma foto de algo que lembre seu Ensino Fundamental

Da esquerda pra direita: Giovanna, eu, Nathália, Nabil (ou Wallid), Mariana, Juliana, Ana Paula e Wallid (ou Nabil).

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Desafio dos 50 dias

Dia 10: Uma foto antiga da sua família

É só da família por parte de mãe, mas tá valendo.


Filha do Justus

Síndrome de Crouzon (Rafaella Justus)




Quem fez isso, certamente não viu as próximas imagens:

Síndrome de Patau


Síndrome de Edwards


Síndrome de Apert


Síndrome de Down


Síndrome de Cloverleaf


E aí, quando vocês acharem que ela é feia, lembrem que tem sempre alguém pior. Acho isso aqui ridículo, só pra constar.