quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Destino Final

Eu já não tinha mais medo, receio ou curiosidade. Estava conformada com o destino que julgava ser meu. Andava, decidida, com passos firmes e frios. Aproveitava todos os meus sentidos. Meus pés tocavam com carinho a areia, meu nariz ardia um pouco com o cheiro salgado, meus olhos se aproximavam do enorme despenhadeiro e meus ouvidos percebiam, a cada passo, o fim me chamando. Cheguei ao fim do caminho, entre a areia e o mar, só havia meu corpo. Despi-me, para que alguém, que, no futuro, me procurasse, soubesse onde eu estava. Balancei-me perigosamente, peguei todo o impulso possível e saltei, cheia de malícia.
Eu estava voando, o vendo era gelado e o barulho da velocidade era inconfundível. O dourado de meus cabelos não se misturava bem à paisagem cinzenta. Aproveitei o vento e a queda livre para me mexer um pouco e soltar uma última gargalhada. Por fim, retesei o corpo e fechei os olhos. A água era meu destino final.

Difícil

Luísa e Murilo estavam sentados na calçada, enrolados em sorrisos e conversas cheias de indiretas. O pôr-do-sol era violeta e dava espaço a uma lua cheia e amarela.
Luísa tentou abraçar Murilo, e ele se afastou, brincando. Ela se virou, torceu o nariz e disse que, ah, não queria, mesmo. Ele a deitou em seu colo e beijou seu pescoço.
Da janela, Celso assistia. Esperou os dois irem embora e, quando Luísa estava sozinha, ele a abordou. Falou de sua ex-namorada, e que, na presença de Luísa, a esquecia. Disse que queria vê-la de novo, mas não daquele jeito. Não rapidamente, com comprometimento. Queria que ela estivesse disponível para ele. Colocou seu rosto entre as mãos e encenou uma tentativa de beijo. Ela o empurrou e correu. Por que tudo tinha que ser tão difícil?

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Retrospectiva

BEM VINDOS À CENTÉSIMA POSTAGEM DO BLOG!

Estou morta de orgulho. Prometi que, quando chegasse a 100 postagens, ia fazer uma retrospectiva das outras 99 e tal, e aqui estou eu.
O blog começou porque eu tenho, e sempre tive, mania de blog. Até um dia desses, tinha 5 blogs. Estava na casa da Virgínia - toda vez que ia lá criava um novo - e resolvi criar o Bianca Quintella. Mas um blog com meu nome ficaria sem graça, então, me espelhei no nome do dela, I'll Keep it With Mine, e batizei de I'll Share it With You.
Com um blog criado e batizado, só faltava uma postagem pra chamar de minha. A Virgínia tava lendo o Ñ Intendo, e abrimos o joguinho da semana, NerveJangla. Acabamos nos viciando, eu não queria esquecer o link nem o nome do jogo, e criei a postagem chamada Game!. Como vocês podem ver, o nível de conteúdo dela é um pouco baixo. As postagens eram um tanto escassas, assim como minha inspiração, até que, em meados desse ano, eu conheci meu heartbrother, Felipe Cruz, e seus contos. Ele me inspirou a reativar meu blog. Obrigada, irmão!
Nunca imaginaria ter mais de 30 visualizações em um dia só - muito menos, em mais de uma postagem por semana. Setecentas visitas em um mês? Nossa, nem nos meus mais profundos sonhos. E não quero dar uma de famosa, mas obrigada a quem lê. Graças a vocês, eu fico toda emocionada quando abro a página de estatísticas e vejo meu gráfico todo cheio de curvas. Ainda tenho muito a crescer e a postar, mas adoro quando a inspiração vem e eu tenho algum lugar pra escrever que não seja uma folha de papel. Adoro partilhar idéias e opiniões sem me preocupar se alguém vai prestar atenção e depois ver que todo mundo prestou. Um acerto em cheio na minha vida é esse blog. Prometo continuar tornando públicas as minhas palavras.

Passado

É muito, muito bom, olhar pra trás e ver o que deixei no passado. Eu acreditava que vivia uma coisa, enquanto, na verdade, vivia outra, e, só agora, enxergo isso. Bem que as pessoas me diziam, mas é que a minha realidade era outra. Hoje eu estava me lembrando, e tenho um conselho para dar a vocês: coloquem-se no lugar das outras pessoas. Se todo mundo fizesse isso, o mundo seria totalmente diferente. Nada é melhor para entender uma pessoa do que ver a vida através dos olhos dela. A gente deve encarar a vida com brandura, aceitar se curvar, e, ao mesmo tempo, ser confiante. Acho incrível fazer uma retrospectiva dos últimos anos e ver o quanto eu mudei, o que deixei passar, as coisas que encarei. Meu passado foi bom, feliz, mas eu não quero ele de volta de jeito nenhum. Estou numa fase muito 'eu'. Amo a mim mesma, cuido de mim, vivo para mim. Não vou mais construir minha vida em torno da vida dos outros, e sim do lado dela. Nada do que se funde é bom, porque uma hora tem que difundir. O passado passou e eu estou superando, se é que não já superei. E o que deixei lá, deixei por um motivo. Meu passado nunca, jamais, se tornará presente de novo. E eu acabo, aqui, com todas as esperanças vivas, de qualquer um, que, um dia, meu passado volte a ter um futuro promissor - ele não tem. O passado é história pra contar.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Que seja Doce

Lúcia era tão doce quanto o nome que recebera. Vivera a vida à procura do homem da sua vida, o primeiro beijo que se tornasse o primeiro namorado, e que, alguns anos depois, se tornaria marido, fruto de um singelo casamento à beira-mar. Achou, e não foi bem como ela esperava. Depois disso, decidiu que não planejaria mais nada: se o coração batesse mais forte, ela deixaria de ser teimosa e obedeceria a ele. Como Caio Fernando Abreu, repetiu sete vezes "que seja doce, que seja doce, que seja doce..." e se jogou à nova experiência que acabara de encontrar.
Abraçada à... Experiência... Ela imaginava como era bom não ter planejado nada, não ter um roteiro, não saber exatamente o que vai acontecer. Amava o descontrole súbito, sem ter ensaiado antes, sem saber como ia ser, improvisando. Aprendeu a preferir espontaneidade. "Que seja doce", pensou. Estava sendo doce como uma balinha de menta.

Depois da chuva

O céu se abriu num estio da chuva que caíra a madrugada inteira e deixara a cidade toda molhada. Peguei a mão de Fábio e saímos correndo pelas poças - amávamos o cheiro de grama molhada. Acabara de amanhecer e o sol ainda estava alaranjado, relutante, saindo detrás das nuvens vagarosamente. Aposto como as pessoas dentro dos carros não entendiam o que eu e meu irmão estávamos fazendo. Elas estavam ocupadas demais com suas vidas caóticas, falando nos celulares, buzinando, indo em direção ao trabalho, se desentendendo no meio das ruas e cheias de stress por causa da correria diária. Eu ria de ter um momento de correria calma com meu irmão. Tinha tanta gente apressada e que há tanto tempo não sabia o que era aproveitar as coisas simples da vida, que me senti muito mais do que privilegiada. Às vezes, é bom sair por aí, sem destino, molhando os pés e achando graça no ato de estar vivo. É bom sempre se lembrar que, depois da chuva, vem o sol.

sábado, 8 de outubro de 2011

Único

Eram olhos negros profundos e enigmáticos que eu vivia tentando decifrar. Eles estavam sempre tão perto de mim! Às vezes fechados, às vezes abertos, às vezes revirados ou me analisando - mas nunca falhavam em me deixar imaginando o que enxergavam. Olhos únicos.
Era um rosto que eu reconheceria a vários quilômetros de distância. Bastava aquele rosto se virar para mim e eu ficava sem ação, encabulada e sorridente. Tentava disfarçar, mas acho que ele percebia. Era um rosto que tinha pele pálida e lábios bem delineados que faziam meu coração bater mais forte. Era um rosto de alguém que eu considerava único.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Helena

Continuação de "Bem Vindo ao Inferno"

"Helena? Onde está Helena?", o detetive perguntou. "Não importa. Mais uma palavra e você morre" foi a resposta obtida. O Detetive Guilherme Licarião era apenas Guilherme quando se tratava da amada. De repente, ele se lembrou do próprio ofício e que não ganharia milhões de reais para salvar Helena. Guilherme, finalmente, entendeu: tinha sido sequestrado.
O vento naquele lugar era gelado, e Guilherme estava molhado, sujo, fedendo, enjoado e embriagado por ter visto sua menina dos olhos. Ele não sabia muito bem o que fazer, então sentou-se e pensou. Esperaria o sequestrador voltar. Adormeceu. Acordou com o clarão: era a hora. Alguma coisa foi jogada para dentro do cômodo. Uma cenoura?
"Espere!", o detetive gritou. O homem apenas parou, sem se virar. "Como é seu nome?"
''Helena."

A velha senhora e o passarinho amarelo

Era uma vez um passarinho amarelo que morava em uma casinha de madeira no pico de uma montanha. Um dia, uma senhora mal-encarada e sombria se mudou para lá. Ela passava o dia carrancuda e nunca olhava para o passarinho.
A senhora estava sentada no jardim, sozinha, comendo biscoitos de mel, quando o passarinho pousou ao seu lado e cantou para ela uma linda melodia, encantadora e arrepiante. Pela primeira vez, ela sorriu. Ofereceu-lhe biscoitinhos e eles dividiram o lanche todos os dias a partir daquele. Viraram inseparáveis. A melhor coisa do mundo não é a música, não são os biscoitos: é a amizade.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O Dia em que Marcelo chorou

Eu cheguei na escola, encontrei minhas amigas e fomos buscar água, juntas. Quando estávamos no bebedouro, meu melhor amigo chegou, cabisbaixo. Meu melhor amigo, Marcelo, que tem um ombro maravilhoso pra quando se quer chorar, que tem ouvidos ótimos pra ouvir meus problemas, que tem um abraço que é reconfortante como nenhum outro. Além disso, ele nunca estava cabisbaixo. Claro que tinha alguma coisa errada. Disse às minhas amigas que ia dar colo para ele e o puxei pelo braço esquerdo até a arquibancada.
- Me conta o que aconteceu.
- Meu pai fica falando besteira. Ele chegou de viagem agora e eu contei pra ele que tava namorando.. Hoje ia lá com a Patrícia antes da aula, e ele fez questão de me levar para a escola de carro e passar na frente da escola dela. Ela tava lá na frente e me viu, só que eu não pude parar.. O máximo que pude fazer foi mandar um beijo pra ela.
E ele chorou. Meu melhor amigo, de 1,82m, chorando. O que eu ia dizer?
Pra mim, choro pede abraço. Abracei Marcelo e ele chorou mais ainda. Ficamos assim, sentados, ele com a cabeça no meu ombro e eu com as mãos nas costas dele, por um tempo. Depois fomos à pia, eu pedi a ele que lavasse o rosto e o levei até sua sala de aula.
Poucas coisas na vida me partiram tanto o coração quanto ver meu melhor amigo - que para mim era tão forte, inatingível e experiente - chorando.